A partir de dados reais, alunos montam e gerenciam empresa

Disciplina de Planejamento e Controle Financeiro da FEA prepara estudantes para tomada de decisões

  • 172
  •  
  •  
  •  
  •  
Durante um semestre, alunos da FEA precisam gerenciar uma empresa a partir de dados reais – Foto: Mariangela Castro

“Os alunos não querem mais apenas ficar sentados ouvindo um professor falar. Estamos propondo aqui uma nova metodologia de ensino, a proposta é inovar cada vez mais.” É o que acredita a professora Liliam Sachez Carrete, da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, em São Paulo. Ela é docente da disciplina Planejamento e Controle Financeiro, oferecida aos alunos no quinto semestre do curso de Administração.

As aulas ocorrem no Laboratório de Ensino de Decisões em Negócios, que surgiu a partir de um edital feito pela Reitoria da USP, em 2012. Durante os seis  meses de curso, os alunos desenvolvem todo o modelo financeiro de uma empresa fictícia, mas inserida em cenário real.

Nas primeiras aulas, aprendem a avaliar uma empresa, estudam investimento, diferenças de taxas de juros, custos de capital etc. Depois, inicia-se todo o processo de cálculo a respeito do que é necessário para abrir esse negócio: seus resultados, lucros, balanço, empréstimo. A disciplina envolve planejamento de vendas, de compras de matérias-primas, de estoque, de custos operacionais, custos indiretos, recursos e mão de obra.

Após montar o planejamento, os estudantes realizam o fluxo de caixa e demonstração de resultados. Analisam quanto a empresa vendeu, qual foi a receita bruta, o lucro líquido – tirando os impostos – e até qual foi o prejuízo. Todos esses cálculos são feitos em uma planilha de Excel montada pelos próprios alunos ao longo do curso.

“Montar uma organização financeira é muito difícil, como você faz isso? O que isso quer dizer? O que você pode errar e o que não? Quais são os cenários que influenciam a diferença dos resultados? Como se proteger e se prevenir? Você pode ser mais conservador e mais arriscado. Cada aula é algo novo”, conta Michel Juelss, que cursou a disciplina no primeiro semestre deste ano.

Ele ressalta que a aula no laboratório é fundamental. “Não tem como calcular o valor de uma empresa na mão. Você até pode fazer isso em casa, para aprender, mas estudando os conceitos no Excel, com computadores, podemos fazer a aula produzir muito mais, aumentar a complexidade das análises, ser mais realistas”. Michel acredita que, ao final do semestre, já tem base para entender todas as informações que uma empresa o fornece.

Teoria e prática

A professora Liliam Sanchez Carrete é a coordenadora do projeto – Foto: FEAUSP / Reprodução

A diferença de uma aula convencional para a aula no laboratório é que a teoria e a prática são dadas ao mesmo tempo. Estudar o mesmo caso ao longo do curso, segundo Liliam, possibilita que o aluno tenha a visão do todo, desde o momento do planejamento até possíveis mudanças de cenários.

Os estudantes são responsáveis por tomar decisões de administração. Eles devem escolher por uma postura mais agressiva ou mais conservadora e, no próprio laboratório, conseguem ver o impacto direto de suas decisões.

Para ganhar mais dinheiro, deve-se assumir um risco maior. Neste caso, o cenário é mais agressivo, arrisca-se mais, pois a dívida é feita a curto prazo. Em contraponto, quando você quer ter mais segurança e, mais certeza, deve assumir menos riscos e ser mais conservador. A dívida é considerada a longo prazo, mas são cobrados mais juros.

Marco Aurélio Fernandes, estudante da disciplina, explica que em finanças existe sempre um trade off para considerar, uma briga de dois fatores que são contraditórios – o risco e o retorno. “É a metáfora do pássaro na mão e dos dois voando. Na teoria, podemos entender a lógica, o raciocínio. Mas aqui vemos a magnitude do impacto de cada decisão. O laboratório facilita muito esta análise.”

Dentro da realidade financeira atual de uma empresa e responsável por tomar decisões, a postura do aluno em aula muda. Segundo a professora, “ele deixa de ficar sentado na cadeira e passa a ser ativo, mais comprometido, presta atenção em tudo que está acontecendo.”

Os casos analisados são reais, ao tomar a decisão, além de conceitos teóricos, ele deve considerar a incerteza política no País, a taxa cambial, que pode afetar a compra de matéria-prima, e a pressão inflacionária, que pode fazer com que a taxa de juros aumente.

Segundo os estudantes, a estrutura do laboratório favorece muito essas análises: todos conseguem enxergar a professora e o grande número de computadores permite que, na maioria das vezes, os exercícios sejam feitos individualmente. Para Marco, “a gente se sente mais responsável porque não tem ninguém ao nosso lado. Isso dá uma sensação diferente ao fazer os exercícios, é como se estivéssemos na vida real.”

Além disso, Liliam fornece aulas on-line, caso o aluno não possa ir presencialmente à faculdade ou queira rever o conteúdo em casa. “Cada estudante tem uma velocidade diferente, eu não consigo acompanhar todos aqui. Com o conteúdo on-line, há a possibilidade de assistir minha aula novamente no seu ritmo, dando pausas, voltando as etapas.”

Futuramente, a professora pretende instalar simuladores nos computadores do laboratório e criar uma disciplina eletiva totalmente aplicada. “Será apenas simulação, cada aula vai ter um cenário e eles vão ter que decidir quanto aplicar em cada empresa”. Além disso, Liliam tem planos de transformar o laboratório em um espaço aberto, para que os alunos possam utilizá-lo para desenvolver suas próprias atividades e projeto paralelos.

O Laboratório de Ensino de Decisões em Negócios é localizado na sala A-4, no térreo do FEA1, Av. Prof. Luciano Gaulberto, 908, campus Cidade Universitária, São Paulo.

  • 172
  •  
  •  
  •  
  •  

Textos relacionados