“A comunidade da física no País ainda é de homens brancos”

Afirmação é de Débora Menezes, da SBF, durante o Prêmio Carolina Nemes, criado para estimular as mulheres na carreira da física

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Prêmio busca estimular mulheres na área da física, que ainda é predominantemente masculina – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Segundo um levantamento do Grupo de Trabalho sobre Questões de Gênero (GTG), da Sociedade Brasileira de Física (SBF), ainda não divulgado na íntegra, a comunidade dos físicos no País continua a ser majoritariamente formada por homens brancos. As informações foram coletadas por meio de um questionário para profissionais da área realizado este ano. Foram recebidas 1.709 respostas, quase 70% eram homens e 62% das pessoas se autodeclararam brancas.

Para a coordenadora do GTG e professora da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Débora Peres Menezes, a situação ainda é muito parecida com a de 20 anos atrás. “O que mudou foi que, agora, falamos sobre o assunto e as mulheres mais novas têm mais liberdade para reclamar sobre questões como o assédio moral. Mas, em termos de ascensão na carreira, de contratabilidade, de quantidade de professoras com bolsa em pesquisa, a situação ainda é estática.”

A pesquisadora Débora Perez Menezes – Foto: Divulgação/UFSC

Para estimular físicas em início de carreira e assim tornar a comunidade mais inclusiva, a SBF criou o Prêmio Carolina Nemes, que teve sua primeira premiação no último dia 19 de outubro, no Instituto de Física (IF) da USP.

“Prêmios como esse são importantes porque não existem muitos modelos femininos de sucesso nas profissões. Então mostrar que as mulheres são tão capazes quanto os homens e que elas podem ser premiadas, ajuda a mostrar que existem mulheres que se dão bem na profissão, é o que chamamos de criar modelos visíveis”, explica Débora.

O primeiro desses modelos trazidos pela premiação é a ganhadora desta edição, Fanny Béron, canadense formada em Engenharia Física pela École Polytechnique de Montréal. Atualmente, é professora do Instituto de Física Gleb Wataghin, da Unicamp. “Como mulher, tenho responsabilidade de ser um modelo e fazer a diferença”, disse Fanny em seu discurso.

A pesquisadora realiza estudos em materiais e propriedades magnéticas, como nanoestruturas magnéticas, rede de nanofios, antipontos magnéticos, fitas nanogranulares, spintrônica e magneto-impedância gigante (GMI).

Fanny ganhou certificado e US$ 1.000, doados pela brasileira Liliana Kawase Gonçalves, doutora em Engenharia Elétrica, que mora nos Estados Unidos.
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Fanny Béron, ganhadora do Prêmio Carolina Nemes – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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O nome da premiação homenageia uma mulher de grande reconhecimento no mundo da Física: a professora Maria Carolina Nemes, falecida em 2013. “Carolina foi uma pessoa que sempre batalhou pela justiça, no sentido de dar condições não só de trabalho, mas para ‘chegar lá’”, relembra Júlia Esteves Parreira, que foi orientanda de Carolina no doutorado.

Cartaz do Prêmio Carolina Nemes – Foto: Divulgação/SBFisica.org

Professora do Departamento de Física da Universidade Federal de Minas Gerais/UFMG, Carolina nasceu em São Paulo e formou-se até o nível de doutorado em Física na USP, onde também foi professora no IF até 1991.

“Ela tratava a todos com muita igualdade. Não se importava com gênero, raça ou etnia. Poder ajudar o gênero feminino a chegar a uma situação de igualdade seria muito agradável a ela”, complementa Maisa de Oliveira Terra, que também foi orientanda de Carolina.

Em sua fala antes da entrega do prêmio, Débora Menezes trouxe o conceito de leaky pipeline em áreas de STEM (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) para abordar a falta de mulheres na física.

O leaky pipeline em áreas de STEM, ou o “encanamento vazando” em português, é uma metáfora utilizada para explicar o diminuto número de mulheres que se formam nesses campos. Um estudo de 2017 da Microsoft Corporation sobre esse fenômeno na Europa apontou que as principais fontes de incentivo para que mulheres escolham profissões nessas áreas são o encorajamento; a orientação de pessoas próximas, como professores; a experiência prática; a existência de modelos de sucesso e a percepção de equidade intelectual.

“É fundamental que as meninas enxerguem nomes de mulheres que se sobressaíram na profissão e que chegaram ao nível 1A, são professoras respeitadas, como a Carolina. Isso faz com que elas percebam, enquanto ainda são novas, que também são capazes”, apontou Débora.

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