São Paulo encontra Picasso e suas múltiplas faces

Mais de 150 obras do artista em cerâmica, pintura, escultura e gravura – que revelam sua inquietação em ser e se expressar – estão em exposição no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo

Por - Editorias: TV USP, Cultura
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Foto: Marcos Santos/USP Imagens
O Instituto Tomie Ohtake, local da mostra Picasso – Mão Erudita, Olho Selvagem – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

São tantos Picassos para conhecer que o visitante, mesmo depois de observar as 153 obras organizadas por temas e ordem cronológica no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, tem a impressão de que o verdadeiro Pablo Picasso ainda está por se apresentar. Impressão provocada pela inquietude do próprio pintor, que dizia: “O que já fiz não me interessa. Só penso no que ainda não fiz”.
A mostra Picasso – Mão Erudita, Olho Selvagem traduz a busca e os múltiplos caminhos do artista. As obras pertencem ao Musée National Picasso-Paris e a grande maioria é inédita no Brasil. “São peças que Picasso decidiu conservar por toda a vida, a maioria das quais conviveu com ele. Por isso, elas possibilitam penetrar no âmago do seu processo criativo”, explica Emilia Philippot, curadora da instituição que tem a maior coleção do artista no mundo. “Desde os primeiros anos de formação, durante os quais o jovem prodígio molda cópias em gesso de mármore antigo, até as últimas etapas de sua vida, marcadas por intensa prática da gravura, a coleção possibilita abordar o homem e sua obra em toda a sua complexidade. Por isso, decidimos tirar proveito do caráter específico dessa coleção para esboçar um retrato plural do artista que questiona sua relação com a criação, entre fabricação e concepção, execução e idealização, mão e olho.”

Foto: Marcos Santos/USP Imagens
A estudante Luana Meira, 16 anos: “Quero ser pintora” – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Essa característica do acervo foi preservada com muita sensibilidade pelo Núcleo de Curadoria do Instituto Tomie Ohtake. “As pinturas, desenhos, esculturas e cerâmicas vão traçando um percurso em torno de conjuntos que seguem as principais fases do artista”, observa Paulo Miyada, curador geral do Instituto Tomie Ohtake e mestre pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. “São 34 pinturas, 42 desenhos, 20 esculturas e 20 gravuras, além de uma série de 22 fotogramas de André Villers, realizados em parceria com Picasso. Completam a mostra 12 fotografias de autoria de Dora Maar, três de Pirre Manciet e filmes sobre os trabalhos e seus processos de realização.”
A equipe de pesquisadores do Núcleo de Curadoria, coordenada por Miyada, atuou na montagem da mostra, que está dividida em dez seções: “O primeiro Picasso”, lembrando a sua formação e influência; “Picasso exorcista e as senhoritas de Avignon”, uma fase marcada pelo fascínio do corpo feminino; “Picasso cubista”; “Picasso clássico”; “Picasso surrealista”; “Picasso engajado e Guernica“; “Picasso na resistência”; “Picasso múltiplo: a alegria da experimentação”; “Picasso trabalhando e o mistério Picasso”, mostrando a magia de seu processo criativo na pintura; e “O último Picasso: o triunfo do desejo”.

Fotos: Marcos Santos/USP Imagens
Mostra traz 34 pinturas, 42 desenhos, 20 esculturas e 20 gravuras de Picasso – Fotos: Marcos Santos/USP Imagens

Um mundo humano

“Afinal, uma obra de arte não se realiza com as ideias, mas com as mãos”, argumentava Picasso. Ceramista, pintor, escultor, gravador, as mãos de Picasso conduzem a um mundo denso e humano. O artista cidadão que, em 1936, fica ao lado dos republicanos espanhóis. E o revolucionário criador de Guernica, em protesto ao bombardeamento da cidade basca pelos aviões nazistas, em 26 de abril de 1937, surpreende mostrando uma arte vital que se integra e participa dos rumos do homem. Picasso imprime as suas impressões no mundo.

Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Olga Mello e a irmã, Valéria: impressionadas com Guernica – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

“Como seria possível não se interessar pelos outros homens e, com total indiferença, afastar-se da própria vida que eles mesmos trazem com tanta abundância? Não, a pintura não é feita para decorar apartamentos. É um instrumento de guerra ofensiva e defensiva contra o inimigo”, observou o artista.
Picasso, em cada obra, busca, na arte, a razão de sua existência. Logo ao entrar no primeiro núcleo, o visitante encontra um menino pintando. “Pablo Picasso tinha somente 14 anos quando pintou O Homem de Boné, um de seus primeiros óleos sobre tela de real importância”, conta a curadora Emilia Philippot. “Ele conservou essa tela até o final da vida.”
O caminhar entre as obras leva a um ceramista que poucos conhecem. “A cerâmica funciona como a gravura. A passagem pelo forno é como a tiragem. É nesse momento que você descobre o que fez. Quando a tiragem chega às suas mãos, você já não é a mesma pessoa que gravou. Você se vê obrigado a retomar a gravura. Com a cerâmica, entretanto, não se pode fazer mais nada”, explicou o artista.

O mestre e o visitante

Fotos: Marcos Santos/USP Imagens
Estudantes visitam a exposição no Instituto Tomie Ohtake – Fotos: Marcos Santos/USP Imagens

Crianças, jovens, idosos, não há quem não leve de Picasso uma lembrança criativa e intrigante. Kristiane Fertonani olha as peças de cerâmica com atenção. “Sou farmacêutica, mas a sensação de amassar o barro e construir uma ideia é única. Também estudo cerâmica e não sabia dessa face de Picasso. As corujas que ele criou são originais e dão a nítida impressão de quem enxerga no escuro.”
Ao ver o óleo sobre tela Paul em Arlequin, a estudante Luana Meira, 16 anos, teve uma certeza: “Eu quero ser pintora também”. Acompanhada pela mãe, Solange Meira, que é bancária mas estudou Artes Plásticas, observa cada obra com atenção. “Já tinha ouvido falar em Picasso e visto o seu trabalho em livros, mas conhecer pessoalmente é muito diferente. É interessante como ele foi capaz de mudar a sua técnica de uma fase para outra. São vários artistas em uma única pessoa.”

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Os professores Sulamita e Osmar: “Arte precisa ser prioridade na educação” – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Com um vestido florido combinando com o lenço nos cabelos, a psicóloga Olga Mello veio de Caldas Novas (GO) para ver Picasso. “Aqui eu tenho oportunidade de conhecer um artista que viveu intensamente, que preservou a sua liberdade. Em cada obra, ele deixa transparecer a sua alma.” Olga visita a exposição com a irmã, Valéria de Oliveira Mello, advogada. “Vim para ver o processo de criação de Guernica, um quadro que impressiona pelo depoimento, pelo protesto.”
Osmar da Silva Júnior leciona História e Sulamita da Silva é professora de Artes. Trabalham juntos na Escola Municipal de Ensino Fundamental João Carlos da Silva Borges, em São Paulo, e aproveitam as férias para visitar as exposições que estão pela cidade. “A arte deveria ser priorizada na educação das crianças. A de Picasso, por exemplo, desperta a sensibilidade, a criatividade”, argumenta Sulamita. “Importante conhecer um artista que revolucionou a arte de seu tempo”, completa Osmar. “Através de seus quadros, podemos entender e contextualizar a política, a sociedade e a trajetória não só do artista, mas do homem.”

A exposição Picasso – Mão Erudita, Olho Selvagem fica em cartaz até 14 de agosto, de terça-feira a domingo, das 11h às 20h, no Instituto Tomie Ohtake (rua dos Coropés, 88, Pinheiros, em São Paulo). Ingresso: R$ 12 (inteira). Grátis às terças-feiras. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 2245-1900.

 

Assista a seguir reportagem da TV USP sobre a exposição Picasso – Mão Erudita, Olho Selvagem:

 

 

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