Urbanismo comparativo é ferramenta para estudar metrópole

Produzido pelo Centro de Estudos da Metrópole, a obra se insere no processo de revisão das teorias urbanas a partir das metrópoles do Sul

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As grandes teorias urbanas foram produzidas a partir da experiência das cidades centrais dos séculos 19 e 20. Notadamente, de quatro delas: Nova York, Chicago, Berlim e Paris. Nenhuma dessas cidades faz parte do rol das quatro mais populosas do mundo atual (Xangai, Karachi, Pequim, Deli). Nem das quatro seguintes (Lagos, Tianjin, Istambul, Tóquio). Nem das outras quatro (Guangzhou, Mumbai, Moscou, São Paulo).

De fato, 75% das metrópoles atuais não se enquadram no padrão que embasou tais teorias. Daí a necessidade de repensar os modelos considerando fenômenos e processos típicos das grandes cidades do chamado “Sul” – que é muito menos um conceito de geografia física do que uma categoria econômica, social, política e cultural.

Esta foi uma linha de pensamento subjacente à edição do livro São Paulo in the Twenty-First Century, produzido pelo Centro de Estudos da Metrópole (CEM), sob a coordenação de Eduardo Cesar Leão Marques.

O CEM é um dos 17 Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) apoiados pela Fapesp. E a obra em pauta é uma reelaboração do livro A Metrópole de São Paulo no Século XXI: Espaços, Heterogeneidades e Desigualdades, publicado pelo Centro em 2015, como um diagnóstico socioeconômico-espacial da metrópole paulistana e suas transformações ao longo dos últimos 30 anos (leia mais em agencia.fapesp.br/21357).

“A versão em inglês é bastante diferente da anterior. O livro foi adaptado ao debate internacional do chamado ‘urbanismo comparativo contemporâneo’, que tenta agregar às teorias das cidades argumentos produzidos a partir das metrópoles do Sul. Por isso, todos os artigos foram reescritos, três capítulos foram suprimidos e quatro capítulos foram acrescentados”, disse Eduardo Cesar Leão Marques à Agência Fapesp.

A obra está organizada em três partes: transformações econômicas e sociais (estrutura produtiva, estrutura social e mercado de trabalho); crescimento demográfico, migração e segregação; produção do espaço urbano (habitação, áreas de precariedade, mobilidade urbana).

“Nossa intenção foi tornar São Paulo comparável a outras grandes metrópoles do ‘Sul’, de forma a podermos contribuir não com um caso, mas com argumentos teóricos e analíticos decorrentes do caso São Paulo”, acrescentou Marques.

Um aspecto enfatizado pelo pesquisador em sua entrevista à Agência Fapesp foi o da mobilidade urbana. “As políticas de transporte não acompanharam o crescimento da cidade. E foram condicionadas por uma transformação importante que ocorreu na passagem dos anos 1940 para os anos 1960: a transição do transporte público sobre trilhos para o transporte público sobre pneus”, afirmou.

Para o autor, são os processos de produção dos espaços – envolvendo zoneamento, produção imobiliária, estoque de construções – a questão mais central das transformações urbanas atuais – Foto: Reprodução

O binômio ônibus-loteamento clandestino teria sido o grande vetor da expansão horizontal explosiva de São Paulo. Porque, enquanto o transporte sobre trilhos produz uma ocupação junto às estações, e devido aos altos custos de implantação possui um ritmo muito lento de transformação, o transporte sobre pneus é extremamente dinâmico. Basta o motorista dobrar uma esquina para que uma nova área seja agregada ao tecido urbano. “Então, a combinação desses dois elementos, ônibus e loteamento clandestino, promoveu a expansão gigantesca da metrópole, a exemplo do que ocorreu também na Cidade do México”, sublinhou Marques.

Segundo o pesquisador, o aumento desmesurado da frota particular de veículos e a segregação socioespacial foram dois elementos que, provocando grandes problemas de mobilidade urbana, impactaram fortemente, de forma negativa, a qualidade de vida da população.

A metrópole continua altamente segregada em termos de raça e classe.

“Desde os anos 1980, São Paulo já não cresce demograficamente de forma intensa. A cidade continua crescendo, é claro. E, como a população é muito grande, os números absolutos que correspondem ao porcentual de crescimento também o são. Mas as taxas de crescimento vêm declinando. Então o crescimento demográfico já não é uma questão central do ponto de vista das transformações urbanas. Estas estão muito mais relacionadas a processos específicos de produção dos espaços – pelo zoneamento, pela produção imobiliária, pelo estoque de construções. A metrópole continua altamente segregada em termos de raça e classe”, argumentou Marques.


São Paulo in the Twenty-First Century

Editor: Eduardo Cesar Leão Marques
Editora: Routledge
Ano: 2016
Páginas: 246
Mais informações: www.routledge.com/Sao-Paulo-in-the-Twenty-First-Century-Spaces-Heterogeneities-Inequalities/Marques/p/book/9781138655607

José Tadeu Arantes/Agência Fapesp

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