Entre a luta, os livros e os cacos de sonho

Alunos da USP em 1968 relembram a resistência possível durante os chamados “anos de chumbo”

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Manifestações estudantis, passeatas, resistência à ditadura das mais variadas – e possíveis – formas. Tudo isso se misturava, há 50 anos, na vida de então jovens estudantes que ingressaram na Universidade de São Paulo e ali começaram a trilhar caminhos que os levariam a uma solidez profissional e à qualidade intelectual. Mas sem nunca abandonar os preceitos de liberdade de expressão, luta pelos direitos humanos e horror à repressão aprendidos tanto nas salas de aula como nas ruas de 1968.

A seguir, nove ex-alunos da Universidade – quatro deles em vídeo e outros cinco em textos – falam de seus tempos de luta, sonhos e ação. Os depoimentos foram dados ao repórter Vinícius Crevilari.

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Veja no link a seguir as lembranças de Luiz Carlos de Menezes como aluno e professor em 1968 e nos anos seguintes
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Maria Arminda do Nascimento Arruda, atual diretora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH)
Era aluna do curso de Sociologia em 1968

Maria Arminda do Nascimento Arruda – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Entrei em 1968, sabendo de todas as questões políticas e já havia grupos políticos aos quais eu estava ligada, como os movimentos trotskistas. Minha geração não gostava do Partido Comunista, achava-o muito conservador.

Eu sou de uma geração que enfrentou coisas muito difíceis. Acho que em certa medida todas as gerações enfrentam, mas é diverso você estar em uma sociedade democrática e você estar em uma sociedade autoritária. E é muito diferente quando você estuda. Na época eu era jovem, tinha 17 anos e era um momento em que a gente estava nascendo para o mundo, mas tinha a liberdade totalmente coibida. Isso é uma coisa muito difícil.

A gente convivia com a brutalidade. Eu me lembro muito bem que tinha preparado um seminário para um curso e não pude dar, porque era um seminário que pensava a questão das grandes cidades. Foi suspenso. Me lembro de tudo isso. No entanto, tive um grande curso aqui na USP e devo a meus professores essa formação. Eu sou uma pessoa absolutamente intolerante com a repressão, a falta de liberdade, e a favor do direito de todos falarem, da liberdade de expressão. Para mim direitos humanos são uma dimensão central de qualquer sociedade civilizada, contra as formas de discriminação, quaisquer que elas sejam. Sempre me emociono muito quando eu tenho que falar sobre isso.

 

Franklin Leopoldo e Silva é professor titular da FFLCH
Era estudante de Filosofia em 1968

Franklin Leopoldo e Silva – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

A antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras ― que naquele tempo era bem diversa porque tinha muitos cursos, que hoje são separados em institutos ―, era um ponto de radiação de um movimento de resistência à ditadura. Como ela ficava no centro da cidade, congregava não apenas os estudantes mas também pessoas de vários tipos que passavam por ali, que iam se esclarecer do ponto de vista da situação política. Portanto, era um ponto de convergência e radiação de um movimento de oposição ao regime ditatorial. Os estudantes que ali estavam participavam de uma forma mais ativa da organização desses movimento e das ações que eram produzidas ali, principalmente passeatas e manifestações no centro da cidade.

Existia um contato muito forte [entre professores e estudantes] que foi se aprimorando e foi se ampliando, na medida em que a situação foi se agravando. De maneira que em 1968 já existia um contato ― principalmente nas áreas de humanas – muito forte e muito estreito entre estudantes e professores. Isso porque, da parte dos professores, quase a maioria deles participava também desse movimento de oposição.

Eu nunca participei de nenhuma tendência ou organização, assim como muitos que lá estavam. Em qualquer partido sempre tem diretrizes às quais você tem que se submeter e era impossível, talvez, concordar com tudo. Eu e outros não participamos disso, mas participamos do movimento de forma muito ativa, sem estar ligados como militantes propriamente ditos à alguma tendência, organização ou aos partidos que proliferavam ali na FFCL.

 

Maria Luíza Tucci Carneiro é professora do Departamento de História da FFLCH e coordenadora do LEER- Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação
Era aluna da antiga FFCL em 1968

Maria Luíza Tucci Carneiro – Foto: Cecília Bastos / USP Imagens

Eu entrei em 1968 no curso de História da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Cheguei em São Paulo em 1967, vinda do interior, de Santa Adélia, onde eu nasci. Fiz três meses de cursinho da FFCL, que tinha um cursinho pré-vestibular próprio. Esses meses foram de bastante hesitação política e quase que um “estágio preparatório” para o que eu ia encontrar na faculdade. Havia vários colegas que organizavam passeatas e protestos. Minha participação nos dois primeiros anos de faculdade foi muito “marginal”. Eu não era nenhuma liderança, mas participava ajudando a fazer e distribuir panfletos, a carregar faixas nas passeatas.

Lembro que 1967 e 1968 foram dois anos muito intensos de passeatas. Eu geralmente era encarregada de carregar as faixas enroladas com tecidos de algodão (como esses sacos brancos que a gente usa para fazer limpeza). A gente enrolava, passava durex e chegava até os pontos indicados pelas lideranças, para então acompanhar as passeatas.

Recordo muito bem de um momento bastante difícil, quando fomos distribuir panfletos com o slogan “Abaixo a Ditadura”, impressos em mimeógrafo no Centro Acadêmico da História. Fomos distribuir na fila do Teatro Arena e no momento em que a gente estava distribuindo, alguém gritou que a polícia estava chegando. Saímos correndo com os panfletos e descemos a Consolação em direção à Biblioteca Mário de Andrade. Ali eu e mais duas colegas de curso fomos paradas por um carro de polícia e os policiais pediram para revistar nossas bolsas. E ali dentro estavam pastas cheias de panfletos. O policial que nos parou revirou as bolsas e passou batido. Eu tenho certeza que ele viu, mas ele disse: “Vão para casa, vão dormir… Vão embora, vão embora”. Nós saímos e na primeira esquina, na Martins Fontes, jogamos os panfletos dentro de um lixo e em seguida eu me escondi na casa de uma prima que morava naquela rua. O policial deve ter visto a gente no meio do grupo e correndo pela rua. Ele tinha tudo para nos prender, mas eu realmente não sei por que não fomos presas.

José Álvaro Moisés é professor titular de Ciência Política da FFLCH e diretor do Núcleo de Pesquisa de Políticas Públicas da USP
Em 1968 era aluno do curso de Ciências Sociais da FFCL

José Álvaro Moisés – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Eu entrei no curso de Ciências Sociais em 1966. Em 1968 estava fazendo o terceiro ano da faculdade. Eu fazia o curso noturno e ao mesmo tempo era o representante do curso de Ciências Sociais na comissão que a Congregação da faculdade tinha criado para debater a Reforma Universitária. E fazia parte do movimento estudantil.

A comissão tinha sido criada no início de 1968. Neste contexto, estava se iniciando o debate da Reforma da Universidade. E a Congregação da Faculdade de Filosofia criou essa comissão especial que estava debatendo a reforma.  Talvez o aspecto mais inovador dessa comissão tenha sido o fato de que ela era paritária. Tinha um número igual de representantes de estudantes, de professores e de funcionários da faculdade. Eu tinha sido eleito como representante dos alunos de Ciências Sociais. E o objetivo dessas comissões era tanto fazer com que a estrutura da Universidade fosse paritária quanto acabar com a cátedra.

Os dois objetivos estavam presentes. Em primeiro lugar, era a ideia de acabar com a cátedra porque ela era vista como um locus de poder excessivo dos professores catedráticos – que não tinham propriamente uma tradição de decisões democráticas nas cátedras. Não existia ainda o departamento. Em um certo sentido, era a proposta de terminar com a cátedra e criar departamentos, onde houvesse a possibilidade de decisões democráticas.

Por outro lado, havia a proposta dos estudantes de estabelecer estruturas paritárias no interior dos novos departamentos. E, além disso, também tinha o debate da autonomia da Universidade, porque a USP como um todo desejava criar condições de autonomização em relação ao poder público, que financiava a Universidade. Esses temas estavam envolvidos no debate da reforma.

Marcelo José Chueiri é engenheiro
Estudava na Escola Politécnica em 1968

Marcelo José Chueiri – Foto: Arquivo pessoal

Entrei na Poli com uma visão crítica, mas foi uma coisa avassaladora. Era discussão todos os dias, de ideias misturadas às várias questões políticas, econômicas e culturais.

Em 1967, as posições mais tradicionais da esquerda perderam as eleições para o Grêmio Politécnico da USP. Quando nós entramos, o Grêmio da Poli estava numa posição que alguns chamavam de direita (que hoje poderíamos chamar de uma posição de centro). Então, uma das principais entidades estudantis da USP tinha saído da mão da esquerda não só durante a radicalização como por causa da divisão da própria esquerda. Porque havia dois grandes grupos que dividiam o movimento estudantil, especialmente em São Paulo. O que era liderado pelo José Dirceu e um que era a Ação Popular, que era um grupo que tinha surgido da Ação Católica, em 62, e que foi se radicalizando também, mas que tinha um nascimento distinto das posições tradicionais de esquerda no Brasil.

Nós criamos um grupo independente na Poli. Não éramos ligados especificamente a nenhuma dessas correntes. E esse grupo depois acabou se estruturando. Nós tínhamos uma intensa atuação no Grupo de Teatro da Poli, o GTP, já em 1968. E esse grupo acabou sendo a base de reorganização. Nós não nos envolvemos em luta armada ou em outras ações radicalizadas e acabamos sobrevivendo a tudo o que aconteceu a partir do AI-5. Tanto é que, no fim de 1969, esse grupo ganha o Grêmio da Poli.

Eu perdi o ano de 1972 na Poli por causa do movimento estudantil e em 1973 fui preso várias vezes. Nós organizamos naquele ano o Conselho dos Centros Acadêmicos (CCA) e eu fui o primeiro presidente, representando a Poli. O CCA foi importante porque foi a primeira organização interescolas que se estruturou a partir da união dos centros acadêmicos da USP e porque os DCEs, a UEE e a UNE estavam na clandestinidade. Entre 1972 e 1973 eu fui presidente do CCA e por conta disso e de outras coisas passei grande parte do ano de 1973 preso.

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