Voto impresso e manobra militar: “Seria cômico se não fosse trágico”

Na coluna de hoje, José Álvaro Moisés avalia o desfile de veículos militares em direção à Esplanada dos Ministérios e a votação da Câmara dos Deputados sobre a PEC do voto impresso

 11/08/2021 - Publicado há 4 meses

Na coluna A Qualidade da Democracia desta semana, o professor José Álvaro Moisés analisa dois acontecimentos políticos: o desfile de veículos militares em direção à Esplanada dos Ministérios e a votação na Câmara dos Deputados sobre a PEC do voto impresso, rejeitada e arquivada pela Casa ontem (10).

“Ontem (10) foi um dia particularmente especial do ponto de vista da temperatura política do País”, comenta Moisés. Ele também explica que, em decisão conciliatória, o presidente da Câmara dos Deputados, deputado Arthur Lira, decidiu levar ao Plenário da Casa a decisão sobre a PEC do voto impresso. “Uma questão que tem sido objeto de uma campanha do presidente da República, que tem características autoritárias e irracionais. O presidente fala de fraude no sistema de voto eletrônico do País, mas não apresenta nenhuma prova da fraude que possa referendar sua opinião”, ressalta. Mesmo rejeitada pela maioria dos votos da comissão especial que examinou a proposta, Arthur Lira, aliado de Bolsonaro, a submeteu ao Plenário, em uma contraposição às regras dos regimentos internos das Casas, que foi rejeitada e arquivada pela Câmara dos Deputados na última terça-feira (10). “Mas o absurdo não para por aí”, complementa.

Um desfile de tanques e de veículos militares da Marinha foi realizado na Esplanada dos Ministérios, sob o pretexto de levar um convite ao presidente Bolsonaro para uma manobra militar usual na próxima segunda-feira (16). “Embora a movimentação da Marinha estivesse prevista, Bolsonaro manipulou o evento militar para dar uma demonstração de força em um momento em que a Câmara votaria uma proposta de seu interesse. No caso, uma proposta que questiona a legitimidade do processo eleitoral brasileiro”, critica Moisés.

De acordo com o professor, o episódio militar monta o cenário de isolamento de Bolsonaro, sem a presença dos presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal. “Seria cômico se não fosse trágico. Trágico porque todo o episódio mostra a fragilidade das instituições democráticas, em que uma questão importante em discussão na Câmara foi manipulada para atender politicamente o presidente da República, enquanto, por outra parte, uma manobra militar usual foi manipulada para sugerir a força de um presidente fraco, em um momento em que algo de seu interesse está sendo votado no Congresso Nacional”, avalia. Citando o jornal britânico The Guardian, Moisés conclui e reconhece o Brasil como uma “republiqueta de bananas”, justamente porque faltou uma decisão rigorosa de estadistas para conter o ridículo ao qual o País foi submetido ontem.


Qualidade da Democracia
A coluna A Qualidade da Democracia, com o professor José Álvaro Moisés, vai ao ar toda terça-feria às 8h00, na Rádio USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM) e também no Youtube, com produção do Jornal da USP e TV USP.

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