Reuniões de cúpula excludentes como as da Indonésia não têm serventia

Marília Fiorillo conta que o principal não entrou na pauta, isto é, a libertação de presos políticos e a responsabilização pela morte de quase 800 manifestantes, “cujo delito foi sair às ruas carregando girassóis e recebendo bala”

 30/04/2021 - Publicado há 7 meses

Nesta coluna do Conflito e Diálogo, Marília Fiorillo questiona a validade de reuniões de cúpula como o encontro extraordinário dos países sul-asiáticos que ocorreu em Jacarta, na Indonésia. A reunião para tratar da crise desencadeada pelo golpe militar em Mianmar tem, segundo a professora, pouca serventia. “Enquanto Lavrov, o ministro do Exterior russo, fazia promessas ao americano Kerry, a Rússia aproveitava para dizimar com mais ímpeto os oponentes de Assad”, exemplifica.

Marília afirma que a deslegitimidade da reunião parte do fato de que ela convidou apenas o general, líder da junta golpista de Mianmar, e excluiu representantes do governo de oposição legitimamente eleito e que foi deposto um dia após a vitória nas urnas. Além disso, ela afirma que “o principal não entrou na pauta, isto é, a libertação dos 3.389 presos políticos, inclusive Aung San Suu Kyi e membros de seu partido, e a responsabilização pela morte de quase 800 manifestantes, cujo delito foi sair às ruas carregando girassóis e recebendo bala”.

Não se falou também do destino dos mais de 250 mil refugiados do golpe. A população continuou com suas vigílias e não retrocedeu das passeatas com flores. “É espantosa essa resiliência, dado o terror da junta militar. A truculência dos militares conseguiu o que parecia impossível: unir grupos de diversos matizes, como mostra o cartaz ‘somos diferentes mas iguais na luta pela volta da democracia!’”

Para que servem tais conversas de cúpula? Com a palavra, um dos manifestantes: “Para dar um tapa na cara de todos nós, que estamos sendo assassinados, presos e aterrorizados diariamente”.


Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar toda sexta-feira às 10h50, na Rádio USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM) e também no Youtube, com produção do Jornal da USP e TV USP.

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