Reconhecimento facial gera novas dimensões políticas das imagens

As câmeras que o Metrô de São Paulo pretende instalar demandam debate público

“A Justiça de São Paulo deu 30 dias úteis para que o Metrô de São Paulo apresente provas de que o sistema de reconhecimento facial que a companhia pretende adotar,  a partir de agosto, não fere a legislação de proteção dos dados”,  comenta Giselle Beiguelman em sua coluna Ouvir Imagens, da Rádio USP (93,7 MHz, clique e ouça o player acima). “Isso aconteceu em 12 de fevereiro e, portanto, aguardamos para esses dias novidades nesse processo, que deve ser acompanhado por todos.”

Beiguelman explica que a decisão de instalar um sistema de câmeras com reconhecimento facial tem como argumento básico facilitar a identificação de suspeitos de crimes e pessoas desaparecidas, que poderiam estar entre os quase quatro milhões de pessoas que usam o metrô diariamente. “A tecnologia será fornecida por um consórcio formado por empresas da França e Irlanda, que ganhou uma licitação de R$ 58,6 milhões para implementar o sistema ao longo dos próximos anos.”

A falta de um debate público sobre um sistema que envolve a população é, segundo a colunista, muito grave. “É preciso entender que as câmeras de reconhecimento facial dependem de grandes quantidades de imagens armazenadas em bancos de dados para que, ao capturar a imagem de alguém, sejam capazes de compará-la com outras e identificá-la”, observa.

Beiguelman alerta para os possíveis problemas. “O primeiro é saber de onde vêm as imagens que serão usadas. Outro problema muito sério é que a margem de erro ainda é alta e existem questões não solucionadas com o treinamento dos algoritmos que fazem essas comparações. Eles costumam errar em altas taxas de incriminação, por exemplo, de pessoas negras. Agora temos que lidar com um novo problema, que é o racismo algorítmico.”

Uma informação importante é sobre o arsenal de imagens extraídas dos diversos bancos de dados. Beiguelman cita as fotos coletadas durante a emissão do RG no Estado de São Paulo, o recém-inaugurado sistema da Polícia Civil estadual. “Há ainda as empresas de câmeras de vigilância instaladas no mundo todo, de sistemas de biometria, como os celulares e computadores que usam nossa carinha como senha, e dos quaquilhões de registros que vamos largando pelas redes sociais, como Facebook, YouTube e Flickr.”

Beiguelman observa: “Isso mostra que boa parte do arsenal de imagens que move a indústria do que vem sendo chamado de capitalismo de vigilância é fornecida por nós! Essa situação nos põe diante do mais desconcertante paradoxo da política das imagens na contemporaneidade: somos vistos e supervisionados, a partir daquilo que vemos das imagens que produzimos e dos lugares em que estamos. Os grandes olhos que nos monitoram veem pelos nossos olhos, sem que sejamos capazes de enxergá-los”.


Ouvir Imagens 
A coluna Ouvir Imagens, com a professora Gisele Beiguelman, vai ao ar toda segunda-feira às 8h00, na Rádio  USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM) e também no Youtube, com produção do Jornal da USP e  TV USP.

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