“Manhã com Bach” exibe o Concerto de Brandenburgo Número 1

Programa apresenta também a cantata “Ich habe genug” (BWV 82), na voz do baixo alemão Klaus Mertens

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Concerto de Brandenburgo Número 1 (BWV 1046) e a cantata Ich habe genug, “Eu tenho o bastante” (BWV 82), do compositor alemão Johann Sebastian Bach (1685-1750), foram apresentados no programa Manhã com Bach, da Rádio USP (93,7 MHz), em sua edição que foi ao ar nos dias 17 e 18 de fevereiro de 2018.

Ouça nos links acima a íntegra do programa.

O Concerto de Brandenburgo Número 1

Os seis Concertos de Brandenburgo estão entre as composições mais conhecidas de Johann Sebastian Bach. Eles foram compostos nos anos em que Bach trabalhou na corte de Köthen e dedicados a sua alteza real Christian Ludwig, margrave de Brandenburgo, em 1721.

O título original dado por Bach para essas peças está em francês: Six concerts avec plusieurs instruments (Seis concertos para vários instrumentos). Junto com as partituras, Bach enviou para o margrave uma dedicatória, escrita também em francês – provavelmente por um funcionário da corte de Köthen -, em que o compositor afirma:

“Como eu, dois anos atrás, tive o prazer de aparecer diante de vossa alteza, por vossa ordem, e como percebi então que vossa alteza obtiveste algum prazer nos pequenos talentos que o céu me deu para a música, e como, ao me despedir de vós, vossa alteza concedeu-me honra ao me ordenar vos enviar algumas peças de minha composição, eu tomei a liberdade, em concordância com as vossas mais graciosas ordens, de cumprir o meu mais humilde dever para com vossa alteza com os presentes concertos, que eu adaptei para vários instrumentos, rogando muito humildemente que vossa alteza não julgue sua imperfeição com o rigor do fino e delicado gosto que o mundo inteiro sabe possuir vossa alteza para peças musicais, mas percebei neles, em benigna consideração, o profundo respeito e a mais humilde obediência que eu, com eles, busco mostrar a vossa alteza.”

Essa dedicatória tipicamente barroca, escrita em francês para atender aos caprichos de uma corte alemã profundamente influenciada pela cultura francesa e permeada de expressões de humildade – a ponto de Bach se referir aos “pequenos talentos que o céu” lhe deu e se desculpar pela “imperfeição” dos concertos –, está datada de 24 de março de 1721. Ela é um dos raros textos que nos restam de autoria de Bach, que deixou poucos documentos escritos. Entre esses documentos estão relatórios sobre a música nas igrejas onde trabalhou, enviados para seus superiores eclesiásticos, algumas poucas cartas e relatórios sobre órgãos instalados em diferentes cidades, que Bach costumava avaliar.

Os Concertos de Brandenburgo, como ficaram conhecidos os Six concerts avec plusieurs instruments, nunca foram ouvidos na corte do margrave de Brandenburgo. Acontece que Bach compôs essas obras tendo em vista a orquestra de que ele dispunha em Köthen, uma orquestra excelente, formada por 17 músicos de alta qualidade, originários de Berlin, contratados pelo príncipe Leopold, de Köthen, depois que o rei Frederico Guilherme I, da Prússia, desfez a sua orquestra.

A orquestra de Brandenburgo, por sua vez, não tinha a mesma qualidade. Para ela, os concertos ofertados por Bach ao margrave eram difíceis demais e, por isso, eles nunca foram executados naquela corte.

Como o título original mostra, os seis Concertos de Brandenburgo reúnem vários instrumentos. O Concerto de Brandenburgo Número 1 em Fá Maior (BWV 1046), apresentado no programa, por exemplo, inclui trompa, oboé, violino, violino piccolo, viola, cello, baixo e contínuo. Esse concerto é o único que tem quatro movimentos: os tradicionais alegro, adagio, alegro e um minueto. Os outros cinco concertos têm três movimentos.

No programa, o Concerto de Brandenburgo Número 1 (BWV 1046) foi interpretado pela Orquestra Barroca de Freiburg, na Alemanha.

A cantata Ich habe genug

A cantata  Ich habe genug, “Eu tenho o bastante” (BWV 82), expressa o mais profundo desejo do cristão de se libertar das misérias, da tristeza e da desesperança do mundo e entrar na bem-aventurança eterna nos céus.

Ela está baseada na passagem do Evangelho de Lucas em que o velho Simeão, no templo de Jerusalém, pega nos braços o recém-nascido Jesus e se despede do mundo, dizendo ter visto, enfim, o Salvador.

Inspirado nesse relato do Evangelho, o autor desconhecido da letra dessa cantata mostra o cristão se despedindo do mundo com alegria, como afirma a ária do terceiro movimento:

Schlummert ein, ihr matten Augen,                               Durmam, extenuados olhos,

Fallet sanft und selig zu.                                                   Baixem suaves e felizes.

Welt, ich bleibe nicht mehr hier;                                     Mundo, eu não permanecerei mais aqui;

Hab’ ich doch kein Teil an dir                                         Não tenho mais nenhuma parte de ti

Das der Seele könnte taugen.                                         Que pudesse servir à alma.

Hier muss ich das Elend bauen.                                     Aqui tenho desesperança.

Aber dort, dort werd’ ich schauen                                 Mas lá, lá eu verei

Süssen Frieden, stille Ruh’.                                             Doce paz, calmo descanso.

E, no último movimento, o libretista chega a dizer: “Ich freue mich auf meinen Tod” (Eu me alegro na minha morte”).

Apresentada pela primeira vez no dia 2 de fevereiro de 1727, em Leipzig, essa cantata é composta de cinco movimentos, todos unicamente para baixo. Não há coro nela. Posteriormente Bach elaborou uma versão também para soprano.

O movimento inicial dessa cantata é introduzido por um solo de oboé incrivelmente maravilhoso, como toda a cantata.

No programa, a cantata Ich habe genug, “Eu tenho o bastante” (BWV 82), foi apresentada na voz do cantor alemão Klaus Mertens, acompanhado por La Petite Bande, conduzida pelo seu fundador, o belga Sigiswald Kuijken.

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