Protestos contra monumentos disputam o direito à memória no espaço público  

Giselle Beiguelman comenta o incêndio de Borba Gato e os traumas de um país de memoricidas

 02/08/2021 - Publicado há 4 meses

“Os ataques e protestos em torno de monumentos enunciam disputas pelo direito à memória no espaço público”, comenta Giselle Beiguelman em sua coluna Ouvir Imagens na Rádio USP (clique e ouça o player acima). “Em um país de memoricidas, como o nosso, essas disputas são marcadas pelas dores e os traumas daqueles que foram invisibilizados na história oficial.”

Para a professora da Faculdade da Arquitetura e Urbanismo, o incêndio da estátua de Borba Gato, no último dia 24 de julho, revela que o alvo privilegiado dos confrontos no Estado e na cidade de São Paulo são os monumentos dedicados aos bandeirantes. “Apesar da historiografia contemporânea ser rica em estudos críticos que esmiúçam sua associação com a escravização e genocídio dos indígenas, os bandeirantes estão presentes não só em monumentos, mas em um complexo de ruas e estradas que compõem uma espécie de rede imaginária de sua presença no tecido urbano paulistano e paulista.”

Segundo analisa a professora, é essa rede imaginária que faz dos monumentos uma espécie de arquivo distribuído da narrativa histórica do establishment, do poder, consagrando no espaço urbano aquilo que foi considerado memorável e promovendo uma determinada imagem pública da cidade. “Discutir o seu significado, contestá-lo, expandi-lo é, portanto, reivindicar o direito à memória no espaço público e disputar o direito de ocupá-lo”, destaca.

“A história do Brasil traz tanto o extermínio da memória quanto o apagamento do outro inscritos em suas páginas desde os primórdios da colonização. Somos exímios memoricidas. Trazemos a escravidão africana, a inquisição e o genocídio indígena no DNA de nossa história”, afirma. “A relativização da ditadura brasileira como ‘ditabranda’, a manutenção de centenas de ruas em homenagem aos ditadores e aos agentes da ditadura e os poucos espaços dedicados à sua memória são alguns dos indicadores do apagamento da violência e da memória da história do Brasil.”


Ouvir Imagens 
A coluna Ouvir Imagens, com a professora Gisele Beiguelman, vai ao ar toda segunda-feira às 8h00, na Rádio  USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM) e também no Youtube, com produção do Jornal da USP e  TV USP.

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