Projeto revela o precariado que move a Inteligência Artificial

Obra de net art promove contato com trabalhadores da Amazon Mechanical Turk

 “Um projeto artístico de pesquisadores do Inova USP acaba de ser lançado na Internet. Tem como foco os turkers, como são chamados os trabalhadores encarregados de treinar Inteligências Artificiais”, observa Giselle Beiguelman em sua coluna Ouvir Imagens, da Rádio Usp (clique e ouça o player acima). “Esses trabalhadores prestam serviços em plataformas como Amazon Mechanical Turk (Mturk), um dos principais sites de ofertas desse tipo de trabalho.”

A professora comenta que a Mturk conta com cerca de 500 mil trabalhadores. “Eles compõem um precariado global que trabalha nessas verdadeiras galés do mundo digital. Enquanto o salário mínimo por hora nos EUA é de cerca de 7,25 USD, os turkers são geralmente remunerados a cerca de dois dólares por hora trabalhada e induzidos a uma carga horária abusiva na tentativa de compor a renda mensal.”

No caso dos turkers brasileiros, Beiguelman ressalta que a situação se agrava, porque a Amazon não faz depósitos em contas estrangeiras e os trabalhadores são remunerados com gift cards, que só valem para compras na própria Amazon norte-americana. “O projeto, que é de autoria dos pesquisadores Bruno Moreschi, Bernardo Fontes, Guilherme Falcão e Gabriel Pereira, se chama Exchange with Turkers (Trocas com os Turkers) e mostra não só a presença humana por trás das Inteligências Artificiais, mas revela o cotidiano desses trabalhadores.”

Beiguelman ressalta: “Para funcionar de maneira autônoma, as Inteligências Artificiais precisam que sejam criados bancos de dados, que dependem da identificação e classificação de imagens, por exemplo, que alimentarão os sistemas inteligentes, como os das câmeras de Reconhecimento Facial que comentamos semana passada na polêmica do Metrô de São Paulo.”

No site Trocas com os Turkers, é possível conversar com cinco desses trabalhadores, dois deles brasileiros, que estão disponíveis 30 minutos por dia e são pagos a oito dólares por hora. “Há ainda um recurso reservado para que os turkers conversem entre si, o que é inédito, porque na Mturk eles não têm acesso a seus outros colegas de trabalho, o que impede a articulação da categoria em torno da regulamentação do seu penoso ofício.”

O site está disponível na plataforma aarea.co. “O projeto é das curadoras Marcela Vieira e Livia Benedetti, que há três anos comissiona obras de net art. Mas é bom saber que o a área não arquiva os trabalhos. As obras ficam disponíveis cerca de 20 dias e durante esse período o site se transforma na obra que está em cartaz.”

Mais informações: www.aarea.co


Ouvir Imagens 
A coluna Ouvir Imagens, com a professora Gisele Beiguelman, vai ao ar toda segunda-feira às 8h00, na Rádio  USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM) e também no Youtube, com produção do Jornal da USP e  TV USP.

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