Especialista faz paralelo entre o novo normal e conto fantástico de Cortázar

Guilherme Wisnik utiliza o enredo do conto “La autopista del sur”, de Julio Cortázar, para analisar o período de isolamento por uma perspectiva diferente

Em tempos de pandemia, o termo “novo normal” se tornou comum. Para refletir com profundidade sobre o significado  dessa expressão, Guilherme Wisnik, em sua coluna, constrói um paralelo entre a situação atual e um conto de Julio Cortázar, chamado La autopista del sur (A autoestrada do sul), publicado em 1966 no livro Todos los fuegos el fuego (Todos os fogos o fogo).

Como conta o especialista, o texto relata a seguinte situação: pessoas em seus carros, após um feriado, retornam pela autoestrada para Paris, mas acabam sendo impedidas por um grande congestionamento. Os carros pouco a pouco vão parando, até que o movimento cessa completamente. As pessoas, então, saem dos carros, começam a conversar, ouvem notícias sobre um possível acidente, algumas esbravejam pois queriam chegar a Paris. A situação se estabelece em meio à espera e o tempo começa a passar rapidamente.

O conto passa a brincar com o limite do aceitável. Dias se passam, e nada se move. A obra consiste na exploração dessa nova realidade que está se criando. As pessoas na autoestrada passam a ter problemas de abastecimento; se criam comissões, por exemplo, que saem em expedições para buscar alimento; pessoas adoecem, então carros viram hospitais; outros veículos viram motéis.

Se passa um largo no tempo, pessoas morrem, casais se formam, até que um dia os carros voltam a andar. As pessoas, então, encontram dificuldades para se conectar com a normalidade. Sobre o paralelo com a pandemia, o professor comenta: “É uma reflexão sobre não ficar tentando voltar a um normal que nunca mais será normal, mas tentar entender o que se cria no processo desses meses em que estamos vivendo algo diferente”.

Ouça na íntegra no link acima.


Espaço em Obra
A coluna Espaço em Obra, com o professor Guilherme Wisnik, vai ao ar toda quinta-feira às 9h30, na Rádio USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM) e também no Youtube, com produção do Jornal da USP e TV USP.

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