Em plena crise econômica, a cidade ganha um touro de ouro e uma baleia de prata

Diante da inauguração das obras instaladas na 15 de Novembro e na Faria Lima, a colunista aponta uma epidemia estatuária

 Publicado: 22/11/2021
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“A cidade vive agora o prenúncio de uma epidemia estatuária”, observa a professora Giselle Beiguelman em sua coluna Ouvir Imagens, na Rádio USP, (clique e ouça o player acima). “O fenômeno teve como marco a inauguração do Touro de Ouro, da Bolsa de Valores, na rua 15 de novembro, e já contaminou a avenida Faria Lima, onde foi fincada, na praça B32, uma gigantesca baleia cromada.”
A inauguração do touro e da baleia, divulgada como um presente para a cidade”, foi muito criticada. “E seguida de memes gozadíssimos, críticas estéticas e políticas, cabendo aqui um destaque especial para a intervenção ativista que aplicou um estêncil com a palavra fome no lombo do touro, não por acaso alcunhada de ‘ouro de tolo’.”
A professora aponta que, “além do mau gosto explícito, a implantação das obras revela como a noção de espaço público é frágil entre nós”.
O touro é uma réplica do Touro de Wall Street, da Bolsa de Nova York. “Apelidado de bullish, num trocadilho entre otimismo, bullish e bull, touro em inglês. O touro é considerado um símbolo de prosperidade. Não vou nem comentar o espírito extemporâneo de elites que teimam em mimetizar comportamentos e ícones estrangeiros para tentar simbolicamente equiparar-se aos centros de poder.”
Giselle Beiguelman protesta: “Não se pode deixar de chamar a atenção para o despropósito de um dos marcos do poder financeiro decidir celebrar a prosperidade e o otimismo num momento de crise econômica e crescimento exponencial da miséria e desemprego no País. E um dia depois foi a vez da baleia prateada da Faria Lima, em outro marco do capital financeiro”.
O touro de ouro e a baleia de prata, segundo ela, mostram a total incompreensão do que é a esfera pública. “A cidade tem uma comissão de monumentos e obras em logradouros públicos. Se são obras para a população, têm que ser discutidas nas instâncias competentes. Ainda que se possa argumentar que a praça B32 é privada, ela ocupa o espaço urbano e, como tal, tem que ser negociada de outra forma, no âmbito do bem comum.”


Ouvir Imagens 
A coluna Ouvir Imagens, com a professora Gisele Beiguelman, vai ao ar toda segunda-feira às 8h00, na Rádio  USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM) e também no Youtube, com produção do Jornal da USP e  TV USP.

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