Eleições, política e corrupção em discussão no “Diálogos na USP Especial”

Luiz Roberto Serrano e Marcello Rollemberg conversam com especialistas sobre o cenário pré-eleitoral

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Com as eleições presidenciais cada vez mais próximas, vários acontecimentos devem abalar a escolha do eleitor, num cenário em que predominam denúncias de corrupção, prisões e outras situações igualmente escabrosas, boa parte delas envolvendo políticos. Nas últimas eleições presidenciais, em 2014, o nível de abstenção foi de quase 20% dos eleitores, ou seja, 27,7 milhões de pessoas deixaram de votar para presidente. O número de votos brancos e nulos, somados às abstenções, chegou a quase 30% do eleitorado. Os resultados mostraram que quase um terço do eleitorado nacional não votou para presidente. Em 2016, nas eleições municipais, os números continuaram aumentando e, segundo dados do TSE ( Tribunal Superior Eleitoral), 32,5% dos eleitores preferiram não escolher um candidato. Para tratar desse e de outros temas relevantes à política e à corrupção em um ano eleitoral, o Diálogos na USP Especial conversou com o professor José Álvaro Moisés, cientista político e diretor científico do Nupps (Núcleo de Ciências Políticas da USP) e com o professor João Luiz Passador, do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP em Ribeirão Preto.

Foto: Arquivo Pessoal / Professor João Luiz Passador

Vários problemas contribuíram para que a política se encontre da forma que se apresenta hoje. O professor José Álvaro Moisés lembrou que não se constrói uma nação com um sistema político que funcione mal. “Não é possível ter um sistema democrático onde os eleitores são soberanos, mas a maioria das pessoas não se sente representada”. A qualidade da democracia está em questão. Segundo ele, nos últimos anos, a instituição que tem mais índice de desconfiança são os partidos políticos. “Eles são pensados como um mecanismo de mediação entre a sociedade e o Estado. Se a mediação não funciona, como as pessoas podem se sentir dentro do sistema ? Elas não se sentem. Isto prejudica a legitimidade do sistema democrático.”
Ao ser questionado sobre os números das últimas eleições no que diz respeito aos votos brancos e nulos, o professor lembrou que, com o impeachment da presidente Dilma Rousseff,  houve uma grande expectativa em relação ao novo governo, “mas o governo Temer foi um desastre e, do ponto de vista político, frustrou a população brasileira, apresentando um índice de rejeição de 80%. Isto afetou não apenas a percepção dos eleitores, mas a disposição da sociedade de entender sua relação com o Estado.” O professor acredita que “isto é a origem da não participação, do não voto”. Na sua opinião, esse seria o momento da mídia, academia e universidade fazerem um trabalho que seria uma responsabilidade principalmente dos partidos políticos. Esse seria o momento de uma possível mudança, com o eleitor fazendo sua parte, não só votando, mas evitando reeleger quem tem ficha suja e buscando escolher outros candidatos que apresentem perspectiva para o País sair da crise.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens

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O professor João Luiz Passador explicou que o Brasil conseguiu colocar, no mesmo sistema, dois feixes éticos “conflitantes e excludentes”. O País traz em sua história um universo ético ainda medieval. Segundo ele, “hoje o País convive com um universo da modernidade institucional, cuja perspectiva é coletiva”. O Brasil que tenta ser moderno é um país com Constituição, com poderes mais constituídos, eleições regulares, que tenta incorporar ao seu pacto de convivência social um fenômeno histórico. Ainda segundo Passador, hoje temos leis que tentam traduzir a vontade coletiva sobre as transformações com as quais convivemos. O problema, diz ele, é que esses dois universos estão convivendo juntos. As elites, especialmente as econômicas e as políticas, se sentem num universo ético feudal, onde não querem saber sobre direitos. “Essa história de direito é para gente pobre, despossuída. As elites brasileiras querem privilégios. E esse espaço de fato é um terreno fértil para o fenômeno da corrupção.” O professor lembra que o brasileiro segue muito as elites, quando questiona o porquê de ter de pagar impostos, se os grandes empresários não pagam ou recebem subsídios vultosos. Na concepção do professor da FEA de Ribeirão Preto, só a educação pode tirar o Brasil da “arapuca” em que está metido. O País, diz ele, tem grandes problemas, mas há saídas, embora elas não sejam imediatas.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens

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Clique no link acima e ouça na íntegra o Diálogos na USP Especial sobre Política e Corrupção no Brasil, que teve apresentação dos jornalistas Marcello Rollemberg e Luiz Roberto Serrano e trabalhos técnicos de Bene Ribeiro. A produção é do Departamento de Jornalismo da Rádio USP.

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