É preciso resgatar a memória histórica quando o honroso se torna desonroso

Renato Janine analisa o pedido de desculpas do rei belga pelas atrocidades cometidas no Congo e a derrubada de estátuas de alguns personagens históricos

Nesta coluna Ética e Política, Renato Janine Ribeiro comenta o pronunciamento do rei Philippe, da Bélgica, em que o monarca demonstra arrependimento pela colonização do Congo, entre 1885 e 1908. O colunista considera a atitude muito importante, pois Leopoldo II, que teve o Congo como propriedade privada durante o período, foi um dos maiores criminosos da história, tão odioso quanto Hitler. Ele mandava decepar pés e mãos quando os congoleses não conseguiam entregar a quantidade mínima de látex exigida. Estima-se que cerca de 10 milhões de congoleses foram assassinados. Janine também acredita que todos os monumentos em homenagem a Leopoldo II deveriam ser destruídos. Além disso, o que ocorreu no Congo foi um grande massacre e poderia haver algum outro tipo de reparação ou indenização.

Janine fala ainda do movimento mundial que luta pela derrubada das estátuas de personagens históricos ligados a crimes contra a humanidade. Para Janine, são situações complexas, mas não se pode esconder a verdade. “Não creio que as homenagens sejam eternas. Diferentes épocas fazem homenagens diferentes de outras épocas”, aponta o colunista, lembrando dos ingleses, que sempre valorizaram os que participaram do período colonialista, mas, depois, isso se tornou motivo de vergonha, pois os crimes cometidos foram revelados.

“É claro que os lugares da memória foram revisitados. É claro que aquilo que era honroso se torna desonroso. E o que você vai fazer com isso? Você vai manter a homenagem? Ninguém nem cogitaria em manter uma homenagem a Hitler”, ressalta o colunista.

Muitos desses personagens são ambíguos, como Thomas Jefferson, terceiro presidente dos Estados Unidos. Para Janine, ele foi autor de uma das mais belas declarações de independência do mundo, mas, ao mesmo tempo, foi proprietário de escravos e abusador de uma escrava, com quem teve filhos, mas que, apesar da paternidade de Jefferson, continuaram sendo escravos. São situações, muitas vezes, bastante complexas, mas, para o colunista, o resgate da memória histórica deve existir e não se pode simplesmente esconder isso.

Ouça, no link acima, a íntegra da coluna Ética e Política.


Ética e Política
A coluna Ética e Política, com o professor Renato Janine Ribeiro, vai ao ar toda quarta-feira às 8h30, na Rádio USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM) e também no Youtube, com produção do Jornal da USP e TV USP.

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