“De humilhação em humilhação”, Putin prossegue em seu “fiasco monumental”

Marília Fiorillo comenta as últimas iniciativas do “czar Putin” em seu desespero de reverter uma situação que caminha em direção “à derrota do delírio expansionista russo”

 Publicado: 23/09/2022

Por que Putin resolveu agora oficializar a guerra, convocando 300 mil reservistas e pretextando um referendo nas regiões ilegalmente ocupadas da Ucrânia? Simples: porque fracassou.

As baixas russas nesses 7 meses foram estratosféricas, com milhares de mortos, feridos e principalmente um alto índice de deserção dos soldados enviados para o front, mal equipados e preparados apenas para cometer selvagerias. O fracasso retumbante da operação especial”, como Putin dizia até a semana passada, os erros táticos e logísticos que encalharam suas tropas, a resistência dos países europeus às chantagens sobre o fornecimento de gás, tudo isso somado à pesada ajuda militar da Otan aos ucranianos e a resiliência da população levaram o czar Putin a um fiasco monumental, de humilhação em humilhação. Os russos diziam que seria questão de dias tomar Kiev, mas foram defenestrados rapidamente. Quiseram tomar o norte, e saíram correndo. Hoje só controlam o leste, a região de Donetsk e Luhansk, e partes de Zaporizhzhia e Kherson, onde haverá a farsa do referendo.

Com a formalização da guerra, o que a maioria dos russos deseja mesmo é fugir dela. Há engarrafamentos nas rodovias e não existem mais reservas em voos que saem da Rússia, apesar da alta dos preços. O item mais buscado na web por lá, ontem (22), foi “como fugir da Rússia”.  Mais de mil manifestantes foram presos em protestos, em São Petersburgo e Moscou.

A Assembleia Geral da ONU ecoou discursos duros, como os de António Guterres, secretário-geral, e Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia. Por um momento, a ONU trocou os clássicos melindres pela crua descrição das atrocidades russas, e detalhou os crimes de guerra de Putin.

O ministro da defesa russo prometeu que não vai alistar preferencialmente jovens e estudantes presentes nos protestos. Como quase tudo que vem de lá, que se leia o contrário. Os jovens manifestantes já estão sendo convocados para a linha de frente. É a doutrina Lavrov, aplicada durante anos na Síria: a cada promessa do chanceler Lavrov de cessar fogo, se multiplicavam os bombardeios. Quanto à bazófia de Putin sobre apertar o botão nuclear tático (de menor alcance), parece mais um patético blefe para contornar a humilhação sofrida.

O desespero do Kremlin é tal que recorreu de novo ao grupo de extrema-direita Wagner, que temos denunciado em primeira mão há meses, em nossos podcasts. O Wagner é composto de mercenários a serviço de Putin deslocados da Líbia e Síria para a Ucrânia, no início do ataque. A novidade é que agora o Wagner promete anistia a cerca de 1.500 criminosos presos, em troca do recrutamento. A maioria, segundo uma fonte do site Al Jazeera, prefere continuar na prisão.

Houve um ponto de inflexão, sim, que significa sobretudo a admissão da derrota do delírio expansionista russo. É mais provável que a guerra prossiga no mesmo impasse. Haverá uma escalada no banho de sangue, indistintamente ucraniano e russo. O risco nuclear é improvável, mas não impossível, já os próximos passos, ou tombos feios, serão decididos por “um tolo, cheio de som e fúria”, parafraseando outro tirano sanguinário, o Macbeth de Shakespeare.


Conflito e Diálogo
A coluna Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar toda sexta-feira às 10h50, na Rádio USP (São Paulo 93,7 FM; Ribeirão Preto 107,9 FM) e também no Youtube, com produção do Jornal da USP e TV USP.

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