USP Especiais #19: Ernesto Nazareth

As palavras de um escritor sobre a vida e a obra do compositor que marcou profundamente a música brasileira

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USP Especiais #19: Ernesto Nazareth
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Em 1928 Mário de Andrade publicou um texto sobre Ernesto Nazareth que, naquele momento, estava na faixa dos 60 anos. Nesse texto não podemos deixar de antever a importância do compositor para a cultura brasileira. Mário faz uma defesa clara das suas qualidades e mostra como a vida de Nazareth continuava a ser um tanto desfavorável. Como sintetiza o escritor: “Lutar sofrendo a história eterna do verso: a vida é um combate”.

Em um texto que prima por ser também uma bela descrição, Mário de Andrade mostra a trajetória do compositor, dos estudos iniciais com a mãe ao piano até a “desnecessidade” de estudar piano e composição com Eduardo Madeira ou Charles Lambert, uma vez que Nazareth tinha a facilidade própria dos gênios. Contudo, aprendeu com eles a introjetar, por si só, a humanidade: “Ernestinho compreendeu que todas as hastes desse mundo altivo, sejam notas de música, mínimas ou fusas, sejam seres humanos, maguaris ou catataus, carecem de estar em pé, bem firmes, e mesmo bem sozinhas”.

A obra de Ernesto Nazareth é pianística, mas, ao mesmo tempo, nela aflora a brasilidade rítmica que torna este um aspecto principal de reconhecimento: essa música é Ernesto Nazareth. “É certo que a obra de Ernesto Nazareth tem uma boniteza, uma dinâmica fora do comum. Que força de invenção rítmica ele possui! Está certo, poderão falar que afeiçoa especialmente a certas fórmulas de medida que se repetem em obras diferentes. Também está certo, porém, isso não quer dizer pobreza, não. É de uma variedade rítmica estupenda. E entre os parceiros dele não tem nenhum que seja tão couro n’água para desenvolver um motivo rítmico”.

Ernesto Nazareth foi aquele que imprimiu os modelos de composição que se deram naquele tempo e ambiente. “Na obra dele, prodigiosamente fecunda, a gente já encontra manifestações inconfundivelmente nacionais. E, em geral, quase tudo que se tornaria mais tarde processos, fórmulas e lugares comuns melódicos, rítmicos, pianísticos nacionais, sobretudo entre compositores de maxixes.”

Mário de Andrade é técnico e didático ao mesmo tempo, e nos aproxima de Nazareth com reconhecimentos inegáveis: da produção ao piano; dos ritmos brasileiros traduzidos de modo muito idiomático e orgânico; da harmonia chopiniana e, sobretudo, da genialidade de um compositor muito brasileiro.

Se as palavras de Mário de Andrade são categóricas e legítimas, elas não servem para alçar Ernesto Nazareth. Na verdade, reconhecem e, já naquele tempo, fazem justiça à genialidade do grande compositor que Ernesto Nazareth foi e continua sendo.

O texto original de Mário de Andrade foi publicado na revista Ilustração Brasileira, em 1928, e pode ser acessado aqui.

Créditos do Programa

Pesquisa, voz adicional e estágio em produção: Amanda Ferraresi

Voz: Cido Tavares

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