Pílula Farmacêutica #69: Tecnologia é alternativa ao uso de animais em experimentos

É possível reduzir bastante os testes com animais para remédios e parar totalmente esses experimentos para os cosméticos, segundo Giovanna Bingre

Jornal da USP
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Pílula Farmacêutica #69: Tecnologia é alternativa ao uso de animais em experimentos
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Esta edição do Pílula Farmacêutica fala sobre experimentos com animais. O tema ganhou repercussão nas mídias sociais, recentemente, pelo lançamento do curta-metragem de animação Salve o Ralph. A produção hollywoodiana, com dublagem em português do ator Rodrigo Santoro, mostra alguns minutos da vida do coelho Ralph; usado em testes da indústria de cosméticos, o personagem termina sua cena cego e com sérios problemas de saúde. 

O debate é polêmico. Segundo a Coligação Europeia para o Fim das Experiências em Animais, a cada ano, mais de 115 milhões de animais são afetados pelos testes, causando a morte de cerca de 3 milhões deles. Pesquisas de cosméticos, geralmente, usam roedores que, imobilizados, recebem gotas de substâncias em análise de toxicidade em seus olhos. Já as de medicamentos utilizam camundongos e chimpanzés para observar possíveis efeitos adversos de novas drogas.

Por que fazem experimentos em animais?

Segundo a acadêmica Giovanna Bingre, orientada pela professora Regina Andrade, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, os mamíferos, como o chimpanzé, têm o DNA muito parecido com o do ser humano, o que torna o estudo “relativamente fácil, barato e evita o sofrimento humano”.

Giovanna lembra que é “difícil imaginar testes como os de overdose sendo feitos em pessoas”, prática que é realizada em alguns países que pagam para “voluntários” participarem dos experimentos. Mas, no Brasil, diz a acadêmica, testes laboratoriais com humanos são proibidos, já que é antiético “usar alguém em vulnerabilidade econômica como cobaia”.

Da mesma forma, organizações que defendem os direitos dos animais querem estender a proibição, conferida ao ser humano, para os “bichinhos que são usados para o mesmo fim”, uma vez que, diferentemente do humano, eles “não têm o poder de escolher estar ali”, adianta Giovanna. O problema, contudo, segundo a acadêmica, é que não se pode negar os benefícios à saúde dos humanos resultantes da experimentação animal, como o desenvolvimento da primeira vacina que contou com testes em vacas. Lembra ainda que, dos “110 vencedores do Prêmio Nobel de Medicina, 96 desenvolveram suas pesquisas usando animais como cobaias”.

Métodos alternativos ao uso de animais

Giovanna afirma que é possível reduzir bastante os testes com animais para medicamentos e também parar totalmente os testes para os cosméticos. Segundo a acadêmica, tem crescido o número de companhias que conseguem manter o padrão de segurança e qualidade de seus produtos, principalmente os cosméticos, usando métodos in vitro (ensaios feitos com material biológico fora do organismo) para os testes.

Além dos experimentos in vitro, inúmeras tecnologias têm sido desenvolvidas, tanto é que o Conselho Nacional de Controle e Experimentação Animal, órgão integrante do Ministério da Ciência e Tecnologia, reconhece “mais de 20 métodos alternativos que eliminam por completo a presença de seres vivos na pesquisa”, informa Giovanna.

O Brasil, segundo a acadêmica, tem legislação específica, a Lei Arouca, de outubro de 2018, que regulamenta a experimentação animal. Mas adianta que ainda não é totalmente possível eliminar os testes em animais, já que o desenvolvimento de algumas medicações não consegue dispensar esses experimentos.

Porém, a população pode ajudar a diminuir a crueldade animal, adquirindo produtos cosméticos, por exemplo, que não passaram por esse tipo de experimentação. Giovanna informa que hoje existem no mercado muitos produtos acessíveis e populares e que basta se informar pelos próprios rótulos na hora da compra ou, antecipadamente, através de diferentes aplicativos e sites que informam, gratuitamente, as marcas que são cruelty free e veganas.


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