Pílula Farmacêutica #63: Aliado da ciência, acaso marcou descoberta da penicilina

Essa revolução na medicina, Fleming obteve em 1928, após anos de estudo com a bactéria “Staphylococcus aureus”, uma das principais causadoras de infecções nos soldados feridos na Primeira Guerra Mundial

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Jornal da USP
Pílula Farmacêutica #63: Aliado da ciência, acaso marcou descoberta da penicilina
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O mundo vive a pandemia da infecção pelo novo coronavírus sem poder contar com uma medicação que impeça o agravamento da doença, como, por exemplo, o uso de antibióticos contra as bactérias. Hoje, o único remédio promissor contra esse vírus é a vacina. Mas quem sabe um incidente, obra do acaso, como aconteceu com a descoberta da penicilina, esteja a caminho.

É que, no caso das infecções por bactérias, além da dedicação científica, o farmacologista escocês Alexander Fleming contou com a ajuda do acaso para descobrir o antibiótico que é usado até hoje, a penicilina. É o que conta a acadêmica Giovanna Bingre, orientanda da professora Regina Andrade, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto (FCFRP) da USP, nesta edição do Pílula Farmacêutica.

Essa revolução na medicina, Fleming obteve em 1928, após anos de estudo com a bactéria Staphylococcus aureus, uma das principais causadoras de infecções nos soldados feridos na Primeira Guerra Mundial. Segundo Giovanna, Fleming havia tirado uns dias de férias e deixado culturas de células dessas bactérias em recipientes fechados e em repouso. Mas, para a sorte da saúde de todos nós, ao retomar o trabalho, o pesquisador verificou que um dos recipientes havia ficado aberto e sido infectado por um fungo que matou as bactérias. Tratava-se da espécie Penicillium, que anos mais tarde daria o Prêmio Nobel aos descobridores da penicilina.

Mas o que é a penicilina e para que serve?

Isolada do fungo Penicillium, a substância penicilina deu origem ao que hoje é conhecida como uma classe de antibióticos chamada de betalactâmicos. Remédios como a amoxicilina e a benzetacil, informa Giovanna, são feitos à base de penicilina. Esses antibióticos possuem, em sua estrutura química, “um anel betalactâmico” que impede a bactéria “de construir sua parede celular, assim ela não se reproduz e morre”.

À época de sua descoberta, a “penicilina era eficaz contra a Staphylococcus aureus e contra mais de 80 bactérias, podendo tratar muitas doenças que até então eram fatais, como a pneumonia e a sífilis”, conta a acadêmica. Com o tempo e o uso frequente, as bactérias sofreram mutações, produzindo enzimas para neutralizar a ação química do anel betalactâmico. Ao que a ciência respondeu com os inibidores das enzimas betalactamases, algumas mudanças no anel da estrutura da penicilina. “Entre esses inibidores, os mais usados são o ácido clavulânico, o conhecido clavulanato, o tazobactam e o sulbactam”, informa Giovanna.

Quais os riscos da resistência bacteriana?

Segundo Giovanna, o maior risco que corremos é “acabar convivendo com as infecções bacterianas sem cura”, como ocorria antes da descoberta de Alexander Fleming. Pode até soar como terrorismo, mas, adianta a acadêmica, a questão preocupa as autoridades sanitárias, já que as bactérias continuam sofrendo mutações e se tornando mais resistentes. “Já existem bactérias resistentes a todos os tipos de antibióticos disponíveis, até os mais novos e mais potentes”, diz.

E, entre as superbactérias que causam maior preocupação, estão as de ambiente hospitalar e a causadora da gonorreia, que já não respondem aos antibióticos. Por causa das mutações e consequente resistência aos antibióticos, no Brasil, “é necessário receita médica para comprar antibióticos”.


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