Pílula Farmacêutica #62: Para tratar cada tipo de vírus existe um medicamento antiviral com princípio ativo específico

Os principais fármacos ativos dos medicamentos antivirais são: os inibidores não nucleosídeos da transcriptase reversa, que agem inibindo a enzima transcriptase ao se incorporar no DNA do vírus e, dessa forma, a tornam defeituosa para a multiplicação

Jornal da USP
Pílula Farmacêutica #62: Para tratar cada tipo de vírus existe um medicamento antiviral com princípio ativo específico
/

As infecções causadas por vírus estão entre as principais causas de mortalidade no mundo. Atualmente, com o aumento dos casos de doentes com covid-19, muito tem se falado sobre a busca de um medicamento antiviral para tratar a doença. No Pílula Farmacêutica desta semana, a acadêmica Kimberly Fuzel fala sobre a classificação dos medicamentos antivirais e como eles atuam. 

Segundo Kimberly, os medicamentos antivirais são uma classe de medicamentos voltada para tratar doenças causadas por vírus. Ela explica que os vírus são formados por ácidos nucleicos conhecidos por DNA ou RNA, apresentando características diferentes, mas, de modo geral, o material genético deles está envolvido sobre um núcleo composto de proteínas coberto por um capsídeo que também é composto de proteínas. “Os vírus são parasitas intracelulares obrigatórios, ou seja, eles precisam entrar no núcleo das células para aproveitar as vias metabólicas delas e então se reproduzir. Alguns vírus conseguem até mesmo integrar seu DNA ao do hospedeiro, fazendo com que, mesmo depois de tratado, o paciente possa apresentar sintomas da infecção novamente quando é exposto ao vírus, como no caso do herpes, por exemplo.”  

Classificações dos medicamentos antivirais

Dentro da classe de antivirais existem algumas classificações, já que para cada tipo de vírus existe um medicamento antiviral com princípio ativo específico para conseguir eliminar e bloquear suas funções. Os principais fármacos ativos dos medicamentos antivirais são: os inibidores não nucleosídeos da transcriptase reversa, que agem inibindo a enzima transcriptase ao se incorporarem no DNA do vírus e, dessa forma, a tornam defeituosa para a multiplicação. Alguns exemplos são o Efavirenz, a Etravirina e a Nevirapina. 

Os inibidores nucleosídeos da transcriptase reversa também agem da mesma forma, ou seja, inibindo a enzima transcriptase no DNA do vírus para que ela se torne defeituosa e não se multiplique; alguns exemplos são o Tenofovir, a Estavudina e a Lamivudina, entre outros. “Os inibidores da protease bloqueiam a síntese de proteína do vírus, o que impede que eles amadureçam e se reproduzam em outras células.”

Inibidores da DNA-polimerase atuam bloqueando a síntese de DNA do vírus, impedindo o alongamento da sua cadeia, como é o exemplo do Aciclovir, entre outros medicamentos. Os inibidores de fusão do HIV, como o nome já diz, são responsáveis por impedir o vírus HIV de entrar nas células de defesa do organismos e se reproduzir.

Outra classe são os fármacos imunomoduladores, que atuam direto no sistema imunológico, ativando a cascata de sinalização que leva à produção de proteínas antivirais, como, por exemplo, a proteinocinase R, interrompendo o mecanismo de tradução nas células infectadas pelo vírus. Os medicamentos mais conhecidos dessa classe são os Interferons e a Imunoglobulina. 

E, por fim, temos ainda os inibidores da liberação e desmontagem viral, que inibem a ação da enzima neuraminidase do vírus, como, por exemplo, no vírus influenza. Essa enzima é importante para a replicação viral, porque atua no processo de liberação de partículas virais formadas nas células infectadas para depois se reproduzirem em outra célula e, ao bloquear a ação dessa enzima, os vírus não conseguem deixar a célula hospedeira, evitando uma maior disseminação do vírus no organismo. Alguns medicamentos dessa classe são o Zanamivir, a Amantadina, entre outros. 

Medicamento antiviral e covid-19 

Recentemente foi aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) o uso do medicamento antiviral Remdesivir, sendo este o primeiro medicamento recomendado para o tratamento da covid-19 no Brasil. Após ter seu uso analisado durante meses pela Anvisa, o Remdesivir mostrou potencial para ser um grande aliado no combate ao coronavírus, mas, apesar disso, o medicamento mostrou algumas ressalvas, não podendo ser utilizado por todos. 

O Remdesivir foi desenvolvido para tratar o ebola e, assim como outros medicamentos antivirais, passou a ser testado para o tratamento da covid-19. Esse medicamento atua diminuindo ou interrompendo a replicação do vírus no organismo. 

Segundo uma das pesquisas publicadas no New England Journal of Medicine, a recuperação dos pacientes se mostrou mais rápida com o uso do Remdesivir, reduzindo o tempo de uso de suporte de oxigênio e também de hospitalização. Duas semanas depois dessa publicação, a Organização Mundial da Saúde divulgou uma atualização em suas diretrizes contraindicando o uso do medicamento, considerando que ainda não existia uma comprovação científica forte sobre sua eficácia. 

Mas a indicação do medicamento não se resume à forma leve, moderada ou grave da doença, ela está mais ligada à apresentação de alguns sintomas específicos, como a pneumonia, combinada com a necessidade de oxigênio suplementar, mas sem fazer uso de ventilação mecânica.

Ainda segundo a Anvisa, diz Kimberly, esse antiviral só pode ser utilizado em ambiente hospitalar, ou seja, em casos em que o paciente está internado, já que é necessário ter o acompanhamento da equipe médica durante todo o tratamento, que geralmente dura de cinco a dez dias, e por isso a comercialização do mesmo foi restringida. 

“O Remdesivir é apenas uma forma de auxílio no tratamento para a covid-19, ele pode diminuir a chance do paciente com um caso grave precisar usar o respirador, mas ainda existem muitas incertezas no seu uso e, por isso, está longe de ser uma cura, sendo necessário que a pessoa seja vacinada mesmo depois de ter sido tratada com o medicamento.”


Pílula Farmacêutica
 
Apresentação: Kimberly Fuzel e Giovanna Bingre
Produção: Professora Regina Célia Garcia de Andrade e Rita Stella
Co-produção: Rita Stella
Edição geral: Cinderela Caldeira
E-mail: ouvinte@usp.br
Horário: segunda e quarta, às 10h40
Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 107,9; ou Ribeirão Preto FM 107.9, ou pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo no celular para Android e iOS .
Veja todos os episódios de Pílula Farmacêutica .


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.