Momento Cidade #19: É possível regular os sons da cidade?

Para especialistas da USP, precisamos compreender as complexidades envolvendo os sons urbanos para não só regularmos o volume das nossas grandes cidades, mas também expandirmos nossa atenção e vocabulário sonoro

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Momento Cidade #19: É possível regular os sons da cidade?
Momento Cidade - USP

 
 
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Em 2016, foi aprovada em São Paulo a lei que regulamentou o Programa Silêncio Urbano, o PSIU. Desde então, seu objetivo é combater a poluição sonora e tornar mais pacífica a convivência entre os cidadãos. A lei proíbe a emissão de ruídos com níveis superiores aos determinados pela legislação federal, estadual ou municipal, prevalecendo a mais restritiva.

Entretanto, todos que vivem em uma grande cidade sabem que não é uma tarefa simples garantir que os sons no espaço urbano fiquem sob controle. Por isso, o Momento Cidade desta semana tentou responder a pergunta: é possível regular os sons da cidade?

Para o professor Fernando Iazzetta, coordenador do Núcleo de Pesquisas em Sonologia (NuSom) da USP, quando se pensa em sons na cidade, é importante definir melhor o que consideramos “poluição sonora”, normalmente interpretada como todo excesso de ruídos que afeta a saúde física e mental da população. De acordo com ele, esse tipo de definição “não leva em consideração contextos sociais e culturais, e acaba levando a uma espécie de achatamento da visão que temos sobre o som como um problema dentro da sociedade atual”.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, o nível limite de sons que podemos tolerar nas nossas cidades deveria ser de 50 decibéis, no máximo. Acima disso, é possível já sofrer com perdas auditivas. Certos equipamentos de construção, por exemplo, podem gerar até 100 decibéis.

Neste contexto, Ricardo Ferreira Bento, professor da disciplina de otorrino da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), esclarece que o ouvido humano não foi desenvolvido pela natureza para os níveis sonoros que temos hoje. “Em qualquer situação numa cidade grande, mesmo na rua, no trânsito, estamos expostos a um barulho de alta intensidade para o ouvido”, pontua.

E, em alguns casos particulares, os sons altos são usados como estratégia de defesa no ambiente das cidades. Isso é o que concluiu o pesquisador André Forcetto, doutorando da USP que, em sua dissertação de mestrado, estudou os motivos pelos quais motociclistas estavam  modificando seus veículos para emitirem sons mais altos. “A grande maioria dos motociclistas alegou que faz isso por segurança. Eles querem ser ouvidos enquanto transitam no meio dos carros e, sendo ouvidos, eles podem transitar mais rápido”, conta.

Para o professor Iazzetta,  é necessário compreender essas complexidades para não só regularmos os sons das nossas grandes cidades, mas expandirmos nossa atenção e vocabulário sonoro. O especialista defende que “resolver a poluição sonora desse ponto de vista normativo, ou seja, simplesmente diminuir o nível de som que existe, especialmente nos centros urbanos, possivelmente abriria espaço para que a gente tivesse mais sons e não simplesmente eliminar sons”. 

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Ficha técnica

Reportagem: Denis Pacheco e Kaynã de Oliveira
Edição: Beatriz Juska e Guilherme Fiorentini

As músicas utilizadas neste episódio são parte do álbum 2 do Make it Heard que foi lançado pelo selo Berro, criado pelo NuSom. São elas:

André Damião – Make it Heard – Vol. 2 – 05 Kamikaze Modelismo
Juçara Marçal & Cadu Tenório – Make it Heard – Vol. 2 – 02 Canto II
Marco Scarassatti – Make it Heard – Vol. 2 – 07 Èsù
Paula Garcia – Make it Heard – Vol. 2 – 04 # 3 (da série Corpo Ruído)

Momento Cidade
O Momento Cidade vai ao ar na Rádio USP, quinzenalmente, sextas-feiras, às 8h05 na Rádio USP – São Paulo 93,7 MHz e Ribeirão Preto 107,9 MHz e também nos principais agregadores de podcast

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