Jornal da USP no Ar – Medicina #20: Regulamentação da Cannabis medicinal e um estudo sobre efeito da maconha na qualidade de espermatozoides

Regulamentação da Cannabis medicinal facilita acesso de pacientes. Apesar de defender liberação, André Malbergier pede cautela na indicação do produto para evitar efeito colateral. E um estudo premiado aponta que fumar maconha deteriora qualidade de espermatozoides. Apesar de favorável à legalização da planta para fim medicinal, Jorge Hallak diz que a inalação ainda é pouco estudada

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Jornal da USP no Ar – Medicina #20: Regulamentação da Cannabis medicinal e um estudo sobre efeito da maconha na qualidade de espermatozoides
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A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou em dezembro novas regras para registro de produtos à base de Cannabis, gênero de plantas no qual está classificada a maconha.  O professor André Malbergier, do Instituto de Psiquiatria (IPq) da Faculdade de Medicina (FM) da USP, explica que o cultivo da planta continua proibido no Brasil. Agora, existe uma regulamentação para manufaturar produtos contendo canabidiol, que ainda não são considerados remédios pela Anvisa.

O psiquiatra defende que o paciente que já importa medicamentos com base em extratos da planta tem sua vida facilitada. “Hoje, o preço é muito  proibitivo. Um frasquinho custa em torno de mil reais”, conta ao Jornal da USP no Ar. Esses remédios não têm THC em quantidade considerável, substância derivada da maconha responsável pelo “barato”, como descreve o especialista. O canabidiol é um dos mais de cem derivados. Suas propriedades têm efeitos em casos de epilepsia refratária em crianças, esclerose múltipla e aliviam tosses e enjôos provenientes de quimioterapia em doenças crônicas.

Por outro lado, Malbergier pede cautela. Segundo ele, faltam estudos dos efeitos dos produtos da Cannabis sativa nos médio e longo prazos. “Uma coisa é tratar um adulto que tenha ansiedade com canabidiol, ou canabinoides em geral. Expor o cérebro imaturo de uma criança é outra coisa”, argumenta. Ainda assim, o especialista ressalta a importância dos medicamentos para pacientes em que o tratamento tradicional não teve efeito.

Já o médico da Divisão de Clínica Urológica do Hospital das Clínicas (HC), Jorge Hallak, ficou intrigado com a aparente pior qualidade do sêmen de seus pacientes usuários de maconha. Essa dúvida se tornou uma ampla pesquisa, que lhe rendeu o prêmio da Associação Americana de Andrologia de 2019. O urologista acompanhou mais de mil pacientes por 19 anos e demonstrou o mecanismo de lesão celular causado pelo tetra-hidrocanabinol (THC) nos espermatozoides.

Hallak argumenta que existem poucos ensaios clínicos sobre os efeitos da substância no médio e no longo prazo. Em seu artigo, ele identifica a formação de radicais livres de oxigênio dentro da membrana celular dos gametas masculinos. Ou seja, além de uma simples redução da produção de espermatozoides, “o DNA reprodutivo fica sujeito a risco de alteração”, conta ao Jornal da USP no Ar.

Na pesquisa, o urologista trabalhou quatro grupos como objetos. Usuários de maconha por períodos prolongados, de oito a dez anos; fumantes; pacientes pré-vasectomia que tiveram filhos nos últimos 12 meses;  homens diagnosticados com infertilidade. No escopo da saúde reprodutiva masculina, os efeitos do THC foram piores do que o do consumo do tabaco. Como faltam pesquisas sobre os efeitos colaterais da inalação da fumaça produzida pela queima da maconha, o urologista recomenda que o uso de derivados da Cannabis seja feito por spray, óleo ou comprimido. Canabidiol e canabinol são os produtos medicinais, que não são psicoativos.

Não se esqueça, essas e outras entrevistas você acompanha de segunda a sexta, das 7h30 a 9h30, na Rádio USP 93,7 em São Paulo, e 107,9 em Ribeirão Preto e streaming. Você pode baixar o podcast e ouvir a qualquer hora, acessando jornal.usp.br  ou utilizar seu agregador de podcast preferido, no Spotify, iTunes e CastBox.

Apresentação e produção: Roxane Ré
Edição de Som: Cido Tavares

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