Fotomontagem de Jornal da USP com imagens de André Salles/Museu Casa de Portinari e Picryl

USP e Museu Casa de Portinari promovem simpósio em homenagem ao artista

As palestras serão em Brodowski, nos próximos dias 26 e 27, entre as cores, a fé e esperança do pintor

 Publicado: 24/11/2022  Atualizado: 28/11/2022 as 12:20

Texto: Leila Kiyomura

Arte: Guilherme Castro

Em cada canto da casa de Portinari, em Brodowski, há o aroma de café. E nos murais espalhados pelos ambientes, estão as cores, a crença e esperança de Portinari. O visitante, pesquisador que for participar neste fim de semana, dias 26 e 27, do Simpósio Popular, Espiritual, Moderno e a Renovação da Decoração dos Espaços Religiosos no Estado de São Paulo, do Museu Casa de Portinari em parceria com o Instituto de Estudos Avançados da USP, vai ver e entender o seu ser social. Sensível e humano.

“Em ocasião do centenário da Semana de Arte Moderna, o simpósio visa dar continuidade a eventos científicos realizados nos anos de 2018 e 2020, no Colégio Claretiano de Batatais e no IEA USP”, esclarece a professora Marina Massimi, coordenadora do Grupo de Pesquisa Tempo, Memória e Pertencimento do Instituto de Estudos Avançados. “A programação reunirá historiadores da arte, da arquitetura, da religião, especialistas de tecnologia digital apresentando estudos destinados a contribuir para o conhecimento e preservação do patrimônio artístico moderno, de elevada relevância nacional e internacional, conservado no território de Brodowski e Batatais, sobretudo, no campo da decoração de espaços religiosos católicos.”

O historiador e professor Luciano Migliaccio, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, também integra o simpósio.”A parceria foi promovida graças ao engajamento de uma estudiosa da obra de Portinari na Catedral de Batatais, Andrea Franzoni Tostes, membro de grupo de pesquisa coordenado por mim e pela professora Renata Martins, também da FAU-USP.  O projeto Tempo, Memória e Pertencimento tem o objetivo, entre outros, de promover o diálogo entre a USP e instituições museais do território, dialogando de forma participativa com as comunidades e as instituições culturais locais. A parceria com o Museu Casa de Portinari poderá ter continuidade em outras iniciativas dirigidas a valorizar o acervo, no contexto do patrimônio artístico, arquitetônico, cultural, material e imaterial de todas as comunidades da região.”

Cristiane Pratici, gerente do Museu Casa de Portinari, acredita que esse é o momento certo para olhar a história de Candido Portinari e observar o seu legado na arte e, especialmente, na sociedade. “O museu desenvolve um trabalho de pesquisa e transmite ao público as suas reflexões em seu fazer artístico. Portinari foi uma pessoa muito preocupada com o ser humano, com a pobreza, a fome, a injustiça social…”

O simpósio vai pontuar pesquisas importantes para a valorização da arte brasileira. “Serão apresentados estudos que contribuem para o conhecimento e preservação do patrimônio artístico moderno, de elevada relevância nacional e internacional, conservado no território de Brodowski e Batatais, sobretudo, no campo da decoração de espaços religiosos católicos. O simpósio contará, ainda, com a participação virtual de João Candido Portinari, filho único do artista, e diretor geral do Projeto Portinari”, observa. “Além de contribuir diretamente para o cumprimento da nossa missão institucional, o evento vai fortalecer nosso compromisso com a pesquisa e a interpretação de uma coleção ímpar e seus temas correlatos. Também é uma forma de valorizar e facilitar a difusão do legado de Candido Portinari em benefício das gerações atuais e futuras.” Cristiane, que nasceu na cidade do artista, lembra a frase de Pietro Maria Bardi, toda vez que  via as paisagens dos cafezais do artista: ”Para compreender a obra de Portinari, é preciso antes ir para Brodowski”. Cristiane também assinala a frase que o artista repetia quando estava na Europa: “A paisagem onde um menino brinca pela primeira vez, ele jamais esquece.”

O seminário será aberto no dia 26, às 10 horas, com a apresentação da Orquestra Sinfônica da USP na Casa de Portinari, e segue com as palestras de historiadores e pesquisadores da USP e de outras universidades. A programação completa do evento e mais informações estão disponíveis no site do Museu Casa de Portinari: https://www.museucasadeportinari.org.br

A Capela da Nonna com a arte de Portinari e a ciência da Física da USP

O espaço que o pintor criou para a sua avó teve suas cores restauradas graças à equipe da professora Márcia Rizzutto

Interior da Capela da Nonna - Fotomontagem de Jornal da USP com fotos de Atilio Avancini e Museu Casa de Portinari

Candido Portinari, com a sua sensibilidade, jamais poderia imaginar que a Capela da Nonna que ele projetou e pintou especialmente para a sua avó Pelegrina fosse ficar sob os cuidados de uma equipe de cientistas do Núcleo de Apoio à Pesquisa (NAP) de Física Aplicada ao Patrimônio Histórico e Artístico, da Universidade de São Paulo. De 2015 a 2018, a  professora Márcia de Almeida Rizzutto e o grupo de pesquisadores, convidados especialmente pelo Museu Casa de Portinari, avaliaram as pinturas que foram feitas diretamente sobre as paredes.

“Junto com os físicos Pedro Campos, Jéssica Curado e a geóloga Eva K. Mori, analisamos os materiais e técnicas usados pelo pintor”, explica Márcia. Os pesquisadores empregaram técnicas físicas baseadas em imagens e foram identificando os elementos químicos presentes nos pigmentos usados pelo artista. “Através desses métodos, fomos detectando todo o processo de produção da obra e descobrindo a paleta de cores do artista.”

O desafio de estudar e analisar as pinturas feitas diretamente nas paredes possibilitou ver de perto o universo de Portinari. “O estudo metodológico das obras nos permite o privilégio de ver detalhes que nem todos veem”, comenta. “As obras de Portinari são maravilhosas. Ele é bem rigoroso. Aprendemos muito sobre o seu fazer, entendendo os pigmentos utilizados e como ele os misturava para conseguir as nuances de cores.”

Márcia vem trabalhando com os museus da USP, Museu de Arte de São Paulo e Pinacoteca do Estado. Uma convivência com arte e artistas, paleontólogos, historiadores, conservadores, restauradores que ela não imaginava quando entrou na graduação no Instituto de Física da USP, em 1983. “Pensei que ficaria trabalhando com física nuclear, pois meu mestrado e doutorado foram nesta área. Mas a vida me brindou com uma nova carreira interdisciplinar. E um novo mundo cheio de descobertas, com a parceria da Arte e Ciência.”

“Toda obra de arte só pode surgir de um movimento interior de fé. É preciso crer em qualquer coisa, por exemplo, em nós mesmos…” 

Com a ciência de Márcia Rizzutto e a arte do restaurador Júlio Moraes, a Capela da Nonna voltou a ser a mesma de 1941. E um dos principais espaços do Museu Casa de Portinari. Os estudantes das escolas de Brodowski e de cidades do interior de São Paulo fazem fila para apreciar o espaço da avó Pellegrina. Como ela não podia mais andar até a igreja da cidade, o neto Candinho construiu a capela para que ela pudesse rezar. E o mais curioso. O artista desenhou o rosto de amigos e familiares para representar os santos de maior devoção da avó.

São Francisco de Assis, Santa Luzia, São João Batista, São Pedro e a Sagrada Família estão ali nas paredes em tamanho natural. Os murais foram feitos com têmpera, técnica que utiliza uma mistura de água, ovo, substâncias de óleo e pigmento em pó. As cores reluzem.

Um espaço pequenino, mas que reproduz a devoção da avó e a dedicação do neto artista. Portinari defendia: “Toda obra de arte só pode surgir de um movimento interior de fé. É preciso crer em qualquer coisa, por exemplo, em nós mesmos”.


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