Arte sobre foto de George Campos/USP Imagens

USP Pensa Brasil vai discutir questões urgentes do País

De 29 de agosto a 2 de setembro, evento gratuito traz intensa programação, que inclui seminários, lançamento de livros, debates e atividades culturais

 15/08/2022 - Publicado há 1 mês  Atualizado: 24/08/2022 as 11:52

“Uma forma de a Universidade dialogar como instituição sobre questões brasileiras centrais.” É assim que a vice-reitora da USP, professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, define o evento USP Pensa Brasil, que será realizado de 29 de agosto a 2 de setembro na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM), na Cidade Universitária, em São Paulo. Durante uma semana, o evento vai reunir professores e pesquisadores da Universidade e de outras instituições para debater questões emergentes do País. 

Idealizado por Maria Arminda do Nascimento Arruda, a programação foi pensada para estimular cada vez mais a participação da Universidade no debate público, discutindo grandes temas nacionais, assim como disseminar o conhecimento produzido na academia. 

Além das questões contemporâneas, o evento vai apresentar a produção da USP acerca do centenário da Semana de Arte Moderna e do bicentenário da Independência do Brasil, comemorados em 2022. Como afirma a professora Maria Arminda, em entrevista publicada dia 9 de agosto no Jornal da USP, no momento em que se vive uma “tragédia civilizacional” no País, a Universidade promove esse evento para trazer ao diálogo as questões centrais do Brasil e retomar o passado, nem sempre com características institucionais, através de pessoas que pensam projetos nacionais.

Segundo o professor Alexandre Saes, coordenador curatorial do evento, além de pensar as questões contemporâneas, a conjuntura e os grandes desafios atuais, o evento traz duas efemérides – o centenário da Semana de Arte Moderna e o bicentenário da Independência – para o debate como temas que também estimulam a reflexão sobre a soberania nacional e a modernidade do País. 

“A proposta, que começou a ser construída nos primeiros meses deste ano, é a de trazer um grande debate sobre a conjuntura nacional, reunindo também os vários esforços do que vinha sendo produzido em diferentes institutos da USP”, afirma Saes, citando publicações, seminários, produção de conteúdos dos mais diversos, como materiais didáticos, livros e exposições acerca dos marcos históricos de 22, da Semana de Arte Moderna e do bicentenário da Independência.

A vice-reitora Maria Arminda do Nascimento Arruda e o professor Alexandre Saes - Fotos: USP Imagens e FEA

Entre as inúmeras atividades da semana, o professor destaca o seminário USP Pensa Brasil, no período da noite, das 18 às 22h30, que, segundo ele, vai mostrar “a importância da Universidade não só na produção de conteúdo – evidentemente, a Universidade é extremamente reconhecida nacional e internacionalmente na produção de conteúdo”, frisa –, “mas também no aspecto de conectá-la nesses debates mais amplos da agenda do País de hoje”. 

Nas reuniões preparatórias, conta o professor, “foi muito discutido que há uma tradição no nosso pensamento social brasileiro, que é das interpretações do Brasil, do pensamento crítico que problematiza as estruturas da nossa sociedade, e que esse pensamento crítico poderia mobilizar a constituição desse grande seminário. E esse seminário é parte dessa proposta de tentar reformular essas interpretações do Brasil e colocar em debate as grandes agendas”. Todos os dias, as temáticas do seminário são abertas com a conferência de um renomado especialista na área, vinculado à USP, seguida de debates com pesquisadores de outras instituições e integrantes de movimentos sociais.

Como pensar o Brasil no século 21

Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Abrindo o seminário, no dia 29 de agosto, Como Pensar o Brasil no Século 21 vai discutir as interpretações do Brasil, a partir de conferência da historiadora e antropóloga Lilia Schwarz. “Nosso pensamento social já foi muito bem discutido. Por exemplo, nos anos 30, os intérpretes do Brasil, como diz Antonio Candido, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e Caio Prado, lançam as questões centrais que mobilizam esse pensar o Brasil nesse período moderno, que vai até os anos 60. E depois, a própria Universidade de São Paulo tem um papel importante no repensar o Brasil nos anos 70, no período da ditadura militar, pensando em reforçar a importância da democracia e o combate à desigualdade. ” “As perguntas que se colocam no século 21, dentro do novo contexto do que é essa nova sociedade brasileira, são quais as questões que permanecem?”, questiona o professor, apontando que a desigualdade ainda está presente e a democracia está sendo posta à prova, sem esquecer de que outras questões passaram a ser fundamentais, como a preocupação com o meio ambiente, que passou a integrar a agenda imediata. Questões essas que foram construindo também a narrativa do seminário, diz o professor.

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

A segunda temática, no dia 30 de agosto, apresenta as Relações entre Estado e Desigualdade no Brasil, abrindo com a conferência do jurista e diplomata Rubens Ricupero, titular da Cátedra José Bonifácio, e com a participação na mesa de debates do Padre Júlio Lancellotti, que vem realizando um importante trabalho com moradores de rua, para discutir a questão da desigualdade, tema fundamental e de longa duração da nossa sociedade, como lembra o coordenador. 

Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Na sequência, dia 31 de agosto, os Impasses da Democracia Brasileira, com conferência da cientista política Maria Herminia Tavares de Almeida, temática que se faz muito atual com a proximidade das eleições e com manifestos em defesa da democracia, como a leitura, no dia 11 de agosto, da carta produzida pela Faculdade de Direito da USP. 

Foto: Reprodução/Yachaywasi Films

Na quinta, dia 1º de setembro, Antropoceno e o Novo Paradigma Ambiental Brasileiro é tratado na conferência pelo cientista climático Carlos Nobre – o primeiro brasileiro eleito pela academia científica da Royal Society como um dos principais pesquisadores que estudam a floresta amazônica -, para pensar como o Brasil deve enfrentar a questão desse grande ativo a partir de uma nova forma de relação com a natureza, que não seja de destruição e sim de sustentabilidade, como atenta Saes. 

Foto: Kyle Head / Unsplash

Fechando o seminário, no dia 2 de setembro, Impasses da Cultura Moderna no Brasil, com conferência do músico, compositor e ensaísta brasileiro José Miguel Wisnik, foi estruturada “entendendo que a discussão de cultura é fundamental para entender identidade, entender construção nacional e projeto de país”, afirma Saes. “Ainda que tenhamos temas tão pesados e impasses tão profundos no período contemporâneo, é preciso pensar a cultura como uma possível saída para reconstruir caminhos e repensar o País”, conclui. Esse primeiro evento – a ideia é que seja realizado um a cada ano – traz várias vozes, “entendendo que a Universidade precisa estabelecer cada vez mais esses diálogos com a sociedade”, diz Saes. “Esse é o espírito do pensamento crítico que não se faz só dentro dos muros da Universidade, e é a partir desses diálogos, dessas trocas e debates que sistemas vão sendo construídos.”

Lançamentos de publicações

Além das discussões sobre as questões urgentes do Brasil, muito se produziu na Universidade acerca das efemérides da Semana de Arte Moderna e do bicentenário da Independência. Essa produção resultou em 12 livros que serão lançados durante o evento. O destaque é o Dicionário da Independência do Brasil: Memória e Historiografia, publicado pela Edusp em parceria com a Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (leia mais no texto abaixo). 

Organizado pelos professores da USP Cecília Helena S. Oliveira e João Paulo Pimenta, constituíram um dicionário que será um importante marco, acredita Saes. “É um dicionário com mais de mil páginas, com a participação de mais de 200 pesquisadores nacionais e internacionais, que discutem as mais diversas temáticas sobre a Independência”, afirma o professor. “A publicação marca o olhar sobre a Independência no século 21, que passa pelas grandes efemérides, grandes eventos e os grandes personagens, mas que dá voz também a uma multiplicidade de atores e eventos que não eram tão presentes na leitura sobre a Independência”, comenta, acrescentando que esse dicionário é uma contribuição muito relevante e se tornará, certamente, uma obra de referência.

O professor ainda cita duas importantes publicações: a Revista USP, com os dossiês do Bicentenário da Independência, um em torno de Economia e outro sobre Cultura e Sociedade; e a Revista Estudos Avançados, que também já publicou dois dossiês, sobre Modernismo e Independência. Também será lançada uma coletânea de teses e dissertações premiadas pelo Projeto 3 x 22 – coordenado pela BBM e que entrecruza as temporalidades do bicentenário da Independência, da Semana de Arte Moderna e da atualidade (1822-1922-2022).

Grupos que se apresentarão na seção Vozes de Brasis do evento USP Pensa Brasil: Sarau do Binho e Jongo do Coreto da Comunidade Quilombaque - Foto: Divulgação/USP Pensa Brasil

Atividades culturais

Segundo Abílio Tavares, coordenador artístico do evento, “a programação cultural foi dividida em três grandes blocos, dois deles dentro do próprio seminário”. Assim como o seminário, que traz vozes não só da Universidade ampliando os olhares com participantes de fora do universo acadêmico, a programação artística também faz isso em Vozes de Brasis. São três apresentações, que antecedem as discussões, sempre às 18 horas. Na terça, dia 30, o Sarau do Binho, da periferia de Campo Limpo; na quarta, Jongo do Coreto, de comunidade cultural da região de Perus; e na quinta, um coral da Terra Indígena Tenondé Porã, situada no extremo sul da cidade de São Paulo. “São três recortes, com três comunidades distintas que têm um trabalho de resgate e valorização de sua cultura, mas em diálogo com o contexto urbano”, explica Tavares.

No período da tarde, o programa Eixos Temáticos apresentará os primeiros resultados do projeto que é conduzido por professores distribuídos em torno de 11 eixos temáticos relacionados aos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável. O evento prevê um ciclo de painéis, a partir das 14 horas, no Auditório István Jancsó da BBM. No primeiro dia, haverá a apresentação do programa Eixos Temáticos e os temas da Economia, Indústria e Saúde. No segundo dia, os palestrantes vão abordar Democracia, Educação, Cultura e Artes e Combate à Desigualdade. No último dia, Agricultura e Pecuária, Cidades, Energia e Meio Ambiente serão os assuntos tratados, além de uma discussão final sobre os 11 eixos temáticos. O programa Eixos Temáticos vem sendo apresentado numa série de artigos publicados no Jornal da USP.

Além disso, também durante a abertura dos seminários, serão realizadas Leituras de Brasil, que reúnem fragmentos de obras importantes da literatura e do pensamento brasileiro, lidos por artistas convidados. “São obras emblemáticas do retrato do Brasil, ligadas à temática de cada dia do evento”, garante Tavares. 

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Abílio Tavares, coordenador artístico do evento - Foto: Arquivo pessoal

Entre as obras selecionadas estão trechos de Geografia da Fome, de Josué de Castro; Vidas Secas, de Graciliano Ramos; O Povo Brasileiro, de Darcy Ribeiro; e Quarto de Despejo, de Carolina Maria de Jesus; Ao Vencedor as Batatas, de Roberto Schwarz; Circuito Fechado, de Florestan Fernandes; Viva o Povo Brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro; Ideias para Adiar o Fim do Mundo, de Ailton Krenak; o pronunciamento no Senado Federal de Abdias do Nascimento, além de poemas de Carlos Drummond de Andrade sobre a mineração em Itabira.

Há também uma extensa programação, realizada pelos órgãos culturais da USP – Coralusp, Cinusp, Tusp e Osusp – com obras criadas especialmente para o evento, no Anfiteatro Camargo Guarnieri. E três exposições, no Complexo Brasiliana: 200 Livros para Pensar o Brasil, uma viagem por obras da literatura e do pensamento social brasileiro; Você e a USP: a Universidade de São Paulo Sempre Presente em sua Vida, destacando pesquisas realizadas na USP; e Watú Não Está Morto, reunindo obras e instalações de 11 artistas brasileiros. “A arte e as expressões artísticas, literárias, musicais e cênicas, também são pensamentos sobre o Brasil”, destaca Tavares.

Paralelamente ao seminário USP Pensa Brasil, durante as manhãs da semana, serão realizadas mesas que pautam a fronteira do conhecimento e a relação entre os resultados das pesquisas da Universidade e a produção de políticas públicas. A programação da Pró-Reitoria de Pesquisa e Inovação, com a série de debates USP Pensa Pesquisa e Inovação no Século 21, aborda temáticas centrais na agenda científica como Inteligência Artificial, mídias sociais, fake news, sustentabilidade, saúde e imunologia.

O evento USP Pensa Brasil será realizado de 29 de agosto a 2 de setembro na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (Rua da Biblioteca, 21, Cidade Universitária, em São Paulo), mas há uma variada programação em outros locais. As atividades são gratuitas e abertas a todos os interessados. Serão fornecidos certificados de participação para os inscritos nos seminários e debates. A programação completa do evento e mais informações estão disponíveis no site do USP Pensa Brasil.

"Dicionário" traz mais de 700 verbetes sobre a Independência do Brasil

Obra que será lançada no evento USP Pensa Brasil tem a participação de 274 especialistas do Brasil e do exterior

Quadro Independência ou Morte, de Pedro Américo - Foto: Wikimedia Commons

Um dos livros que serão lançados durante o evento USP Pensa Brasil é o Dicionário da Independência do Brasil: História, Memória e Historiografia. Organizado pela professora Cecília Helena de Salles Oliveira, do Museu Paulista da USP, e pelo professor João Paulo Pimenta, do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, a obra traz 735 verbetes relacionados com a Independência brasileira, escritos por 274 especialistas de diferentes universidades e instituições do Brasil e do exterior. Com 1.040 páginas, o Dicionário é uma publicação da Editora da USP (Edusp), em coedição com as Publicações BBM, o braço editorial da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (BBM) da USP.

Os verbetes variam de tamanho. Alguns ocupam três páginas ou mais – como o verbete “Arquitetura e Engenharia”, que aborda as políticas de construção no País desde o período colonial – e outros não passam de um parágrafo, como o que se refere a Antônio Joaquim Pereira de Magalhães, proprietário de terras e escravos, um político liberal de expressão em Minas Gerais no início do século 19. Todos os verbetes trazem, no final, referências bibliográficas relacionadas com o tema tratado.

O Dicionário aborda em detalhes os mais diferentes temas ligados à Independência do Brasil. Tome-se como exemplo o primeiro verbete do livro, “Abastecimento da Corte”, assinado pela professora Cláudia Maria das Graças Chaves, da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop). Ali está registrado que a cidade do Rio de Janeiro, sede colonial da América portuguesa a partir de 1763, já havia se consolidado como a principal porta de entrada e trânsito para as minas de ouro na capitania de Minas Gerais, o que significou um grande afluxo de pessoas e moradores, exigindo melhoramentos em termos de abastecimento, salubridade e ordenamento urbano.

Cecília Helena de Salles Oliveira, do Museu Paulista da USP, e João Paulo Pimenta, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, organizadores do Dicionário da Independência do Brasil - Foto: Reprodução / FFLCH

Uma grande preocupação, além do fornecimento de águas, era a execução de obras para construção de praças, ruas e zonas de comércio. A intensa movimentação de negociantes, mercadores, comboieiros e traficantes, sobretudo envolvidos no trânsito de mercadorias e condução de escravizados para as regiões mineradoras, construía um dinâmico e também caótico centro populacional e consumidor”, escreve Cláudia.

Outro verbete, escrito pelo professor Wlamir Silva, da Universidade Federal de São João del-Rei (UFSJ), aborda o Abelha do Itaculumy, o segundo periódico publicado na província de Minas Gerais, na capital Ouro Preto, que circulou em 1824 e 1825, três vezes por semana. “Foi um periódico de exaltação e apoio a d. Pedro I, visto como herói e esteio do novo Estado, exercendo uma pedagogia pedrina. Governista, e o único periódico da província em 1824, fez as vezes de diário oficial, publicando atos governamentais”, informa Wlamir Silva. “Foi peça importante do poder imperial numa província que era um dos seus sustentáculos, consolidando a adesão da província à liderança de d. Pedro. Apoiou o fechamento da Assembleia Constituinte, ocorrido um mês antes de seu primeiro número, e enalteceu a Carta outorgada, fato divisor de águas no pacto entre o imperador e a sociedade, afirmando-o como elemento defensor e moderado, assim como a intervenção na Cisplatina e as criticadas comissões militares.”

No verbete “Pedro I”, a pesquisadora Maria de Lourdes Viana Lyra, membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Portuguesa da História, reproduz a biografia do primeiro imperador brasileiro. “O casamento com a filha do imperador da Áustria, a arquiduquesa Leopoldina – união contratada justamente para fortalecer o Reino Unido luso-brasileiro recém-criado e consolidar a monarquia instalada no Novo Mundo –, exerceu forte influência na sua trajetória”, escreve Maria de Lourdes. “Culta e apaixonada, a jovem esposa conseguiu despertar no marido o interesse por leitura de textos políticos e ampliar o tempo de convívio privado dedicado ao deleite da música, arte por ambos cultivada, além do prazer das caçadas e cavalgadas frequentes que faziam juntos pelas cercanias da cidade”, acrescenta. “O início da atividade de d. Pedro na cena política ocorreu no contexto da Revolução Liberal, rebentada em Portugal, em 1820, que exigia o retorno do rei e da Corte real para Lisboa. Ocasião em que se revelou articulador astuto e consciente da necessidade de lutar pela preservação da unidade luso-brasileira, oficializada em 1815, com a criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves.”

 

Já o verbete “Natureza”, de autoria do professor Paulo Henrique Martinez, da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), destaca a exploração do ambiente no território brasileiro. “Os solos, as matas e florestas existentes nos domínios coloniais e o potencial de aproveitamento de suas plantas e informações das populações nativas quanto aos seus usos, extração e beneficiamento para fins alimentares, medicinais e econômicos, para além do pau-brasil e de madeiras para mobiliário, construção e embarcações, colocou os registros e os estudos botânicos e mineralógicos no centro de interesse e dos destinos das expedições de investigação da natureza no mundo colonial português”, destaca Martinez. 

Capa do Dicionário da Independência do Brasil - Foto: Divulgação/Edusp

“Angola, Cabo Verde, Moçambique e o vale do Amazonas, na América do Sul, puxaram a fila de expedições e viagens de prospecção de informações, registros e amostras da história natural dessas possessões, a partir de 1783. Nas décadas seguintes, uma sistemática, abundante e diversificada documentação foi sendo reunida e remetida para Portugal. Foram acumulados apontamentos de diferentes tipos e de variada procedência geográfica, compostos por numerosos relatos, diários, desenhos, estampas, pinturas, mapas, roteiros e coleções de história natural e de artefatos das populações nativas da América, África e Ásia.”

Visões múltiplas

“A proposta principal deste Dicionário é reunir, expor e difundir para o público especializado, mas também para os interessados por história em geral, o estado da arte a respeito da Independência”, escrevem os organizadores na introdução do livro, destacando que a obra expõe múltiplas visões sobre o processo que deu origem ao Brasil independente, incluindo diferentes referências e interpretações. “Nosso ponto de partida é a compreensão de que a Independência é sobretudo tema da política, mas em uma perspectiva que envolve a cultura, a economia, as formas de pensar e as relações sociais; não se restringe a datas, acontecimentos ou atores específicos, abarcando processos, instituições, linguagens, conceitos, narrativas, artefatos e memórias. E não se limita ao Brasil e a Portugal, inscrevendo-se no amplo quadro de transformações que se inicia em meados do século 18 e que atingiu diversas regiões da América, da Europa, da África e, em menor escala, da Ásia”, afirmam Cecília Helena e Pimenta. “Assim, a periodização referencial aqui adotada incide sobre o intervalo entre 1808 e 1831, com preferência ainda maior a 1820-1823, podendo, entretanto, variar conforme a abordagem de cada autor.”

Entre os autores dos verbetes estão professores e alunos de doutorado e pós-doutorado da USP, pesquisadores egressos do Projeto Temático A Fundação do Estado e da Nação Brasileiros, 1750/1850, coordenado entre 2003 e 2009 pelo historiador István Jancsó (1938-2010), da USP, e membros da revista Almanack, desde 2011 sediada na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), além de historiadores do exterior. “Sem nenhuma exceção, todos são especialistas em cada uma das matérias abordadas, e todos tiveram inteira liberdade para expressar suas próprias interpretações”, acrescentam os organizadores. O resultado, nas palavras de Cecília Helena e de Pimenta, é uma obra “até então inédita na historiografia brasileira”, que constitui “um leque poderoso de informações detalhadas e claras, muitas vezes mescladas com análises inovadoras, fundamentadas em fontes pioneiras e inéditas”.

Com isso concorda o reitor da USP, professor Carlos Gilberto Carlotti Junior, que assina a apresentação do Dicionário. Para ele, a iniciativa de produzir essa obra, “dado o seu caráter inédito e fundamental para o conhecimento do processo de autonomia do Brasil”, deverá se tornar “um texto de referência necessário ao conhecimento deste momento decisivo à criação da identidade brasileira, da consolidação de nossa formação como País, como nação, como cultura”.

 

Dicionário da Independência do Brasil: História, Memória e Historiografia, de Cecília Helena de Salles Oliveira e João Paulo Pimenta (organizadores), Editora da USP (Edusp) e Publicações BBM, 1.040 páginas. 


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