Transdisciplinaridade e interdisciplinaridade no caminho da USP do futuro

Por Marcos Buckeridge, professor do Instituto de Biociências, Arlindo Philippi Jr., professor da Faculdade de Saúde Pública, Célia R. S. Garcia, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas e Bruno Caramelli, professor da Faculdade de Medicina

 Publicado: 21/07/2022
Marcos Buckeridge – Foto: Maria Leonor de Calasans / IEA
Arlindo Philippi Jr. – Foto: Arquivo pessoal
Célia Regina da Silva Garcia – Foto: Leonor Calasans / IEA
Bruno Caramelli – Foto: Currículo Lattes

A USP se mantém, há muitos anos, entre as 100 universidades mais influentes do planeta. O conhecimento produzido é o que fundamenta o ensino de graduação e pós-graduação, conferindo alto nível de excelência aos alunos formados aqui.

A USP transforma ciência em inovações e ações diretas para a sociedade, seja por meio da geração de novas empresas, ou por influência sobre estruturas de poder e de gestão pública, com a participação de uspianos em cargos de chefia em instâncias governamentais em vários níveis. O que não é imediatamente aplicado, contribui para formar a base do conhecimento científico nacional e mundial e para os fundamentos das aplicações do futuro.

O ensino na USP e em suas coirmãs, Unicamp e Unesp, constitui uma parcela significativa do atual sistema de formação de pessoas e produção de conhecimento no Brasil. Para termos uma ideia da importância da USP — assim como das demais universidades públicas —, imaginemos o seu fechamento ou falência por falta de apoio, de uma hora para a outra. Que efeito isso teria no País? Em duas décadas, provavelmente teríamos uma queda acentuada na população de pessoas formadas para ocupar cargos em empresas, governo e terceiro setor, o que possivelmente levaria a sociedade a uma crise profunda e duradoura. Mesmo que, depois da crise, a sociedade brasileira decidisse voltar a criar novas instituições com as características da USP, o processo seria longo e levaria quase um século para que atingíssemos o estado atual. O tamanho e a diversidade existentes na nossa Universidade permitem apreciar as suas contribuições. Basta ligar a TV, o rádio, os jornais de grande circulação ou olhar as redes sociais e será impossível não encontrar algo sobre algumas das contribuições da USP para a ciência e o conhecimento, seja em que área for.

Segundo dados do WeR_USP, desde 2012, a Universidade de São Paulo publicou 20 mil artigos em média a cada ano, o que se desdobra, nesta década, em mais de 200 mil artigos científicos. Como no mundo estima-se que tenham sido publicados, entre 2008 e 2018, cerca de 20 milhões de artigos, podemos estimar que a USP contribuiu, em uma década, com 1% da ciência mundial. Se olharmos as teses produzidas num período parecido, são em média 3.500 dissertações de mestrado e três mil teses de doutorado por ano. Portanto, uma década nesse ritmo deve ter gerado cerca de 60 mil teses e dissertações.

Quando olhamos esses números, não há como não pensar sobre o que fazer com tanto conhecimento. Pode-se ir mais além e perguntar: o que e como fazer com os 200 mil trabalhos científicos e as 60 mil teses e dissertações que serão ainda produzidos até 2030?

Uma das respostas está em olharmos tudo isso através da lente da inter e da transdisciplinaridade. Isso equivale a uma pergunta ainda mais desafiadora: como integrar todo esse conhecimento e tirar daí benefícios para a sociedade?

Por outro lado, para obtermos o máximo do conhecimento é preciso interconectá-lo. Usaremos aqui a definição de Allen Repko, apresentada em seu livro Interdisciplinarity in Science. Em um sistema disciplinar, as disciplinas caminham em paralelo e nunca se cruzam, enquanto em um sistema interdisciplinar, a diferença é que as disciplinas se cruzam. Já no transdisciplinar, as perguntas surgem a partir da sociedade e os cientistas se unem para responder. Atualmente conhecemos muitas iniciativas transdisciplinares desenvolvidas no Brasil e em nível mundial. Uma das mais famosas consiste nos relatórios do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, que reúne cientistas do mundo inteiro para discutir e escrever sobre três perguntas fundamentais para a humanidade:

1) as mudanças climáticas existem ou não?
2) se existem, quais são seus impactos na Terra?
3) quais seriam as melhores soluções para evitar esses impactos?

Para iniciar um processo análogo na USP, dirigido a interagir com a sociedade e atuar de forma transdisciplinar, a Reitoria propôs e criou o Programa Eixos Temáticos da USP (ProETUSP).

O ProETUSP propõe transversalidade através de grupos de professores da Universidade que estão trabalhando em torno de 11 eixos temáticos: Agricultura, Combate às Desigualdades, Democracia, Cidades, Cultura e Artes, Educação, Economia, Energia, Indústria, Meio Ambiente e Saúde.

Cada eixo é coordenado por dois professores especialistas com larga experiência na área. Esses dois convidaram mais dez professores(as) para trabalharem em conjunto, iniciando um processo que visa capturar a essência do que a USP já fez e fará nessas 11 grandes áreas do conhecimento. Está previsto para cada eixo temático um(a) pós-doutorando(a) que auxiliará no processo de aprofundamento científico do tema, produzindo com isso ciência transdisciplinar junto ao grupo de professores do respectivo eixo. Assim o ProETUSP inicia um grande processo transdisciplinar que primeiro aborda grandes áreas com grupos de especialistas e posteriormente se aprofunda, buscando a colaboração de mais professores(as) e pesquisadores(as). Desta maneira, passamos a colocar o conhecimento da USP em uma perspectiva que sirva à sociedade de forma mais eficaz, norteando desde políticas públicas até o desenvolvimento de novas tecnologias. O ProETUSP também pode indicar caminhos sobre quais áreas do conhecimento devem ser priorizadas, inserindo e confirmando a Universidade na vanguarda do avanço do conhecimento humano.

Sabemos que, sozinha, a Universidade não tem como transformar o conhecimento em política pública, formular os planos e aplicá-los na forma de gestão. Por outro lado, é por meio da exposição das interações possíveis e necessárias entre as áreas do conhecimento e a colocação dessas perspectivas que a sociedade poderá, em conjunto com a Universidade, dimensionar os melhores caminhos a seguir para atingir o máximo bem-estar.

Entre 30 de agosto e 1º de setembro de 2022, o evento USP Pensa Brasil abrigará apresentações do ProETUSP em três tardes. Será um ciclo de painéis em que um dos coordenadores de cada eixo temático apontará reflexões, estágios do conhecimento e algumas prioridades. Cada um dos dias terá em sua conclusão debates integrando os pontos centrais levantados em cada um dos eixos.

Iniciaremos, no dia 30/8, com os temas Economia, Indústria e Saúde. O bem-estar de qualquer população depende de um delicado equilíbrio entre esses três eixos. Para minimizar as desigualdades socioeconômicas que temos no Brasil é fundamental que economia e indústria, representando setores empresariais, atuem de mãos dadas, contribuindo para aumentar o número e a qualidade de empregos. Porém, tudo fica mais difícil quando a sociedade se encontra doente. Por isso, sem sistemas que mantenham cidadãos saudáveis mental e fisicamente, a sociedade fica enfraquecida. Apresentando pontos centrais nesses três eixos, o Ciclo ProETUSP abrirá as discussões para interações com os demais eixos.

No segundo dia, 31/8, assistiremos às apresentações dos eixos Democracia, Educação, Combate às Desigualdades e Cultura e Artes. Em um ambiente democrático, onde a educação seja eficiente e para todos, a sociedade poderá encontrar parâmetros robustos que contribuam para o desenvolvimento de sua cultura original, com ética e moral compatível com o bem-estar de todos. Somente desta forma a sociedade poderá encontrar ideias para os melhores caminhos no futuro.

No terceiro dia, 1º/9, completa-se o ciclo trazendo os eixos de Agricultura, Cidades, Energia e Meio Ambiente. Esses são os quatro eixos que se articulam com questões relacionadas ao fornecimento das bases sem as quais uma sociedade não pode funcionar. Produzir alimentos e energia é essencial. No entanto, a produção deles tem que ser harmonizada com o meio ambiente. Se houver equilíbrio, será principalmente a cidade, onde a maioria de nós vive, que se beneficiará. Esses quatro eixos se articulam de forma vital com os eixos discutidos no primeiro dia. O bem-estar das pessoas será maior em cidades cujo meio ambiente seja saudável, melhorando a saúde e propiciando condições ideais para meios de produção sustentáveis. Tal integração favorecerá a atividade econômica, fornecendo ferramentas poderosas para redução das desigualdades socioeconômicas.

Neste processo, interligando elementos essenciais da sociedade, o Ciclo de Painéis do ProETUSP faz uma primeira articulação interdisciplinar. A sociedade terá espaço para uma série de discussões de relevância, oferecendo contribuições para o desenho de políticas públicas mais eficientes.

Sabemos que ainda estamos longe de uma verdadeira transdisciplinaridade, mas toda caminhada se inicia com os primeiros passos. E a USP está disposta a ampliar, não só o palco destas discussões, como também a prática desta construção.

Coordenadores dos Eixos Temáticos USP

EIXONomeUnidade
AgriculturaGerd SparovekESALQ
AgriculturaFrancisco Palma RennóFMZV
CidadesPedro Roberto JacobiIEE
CidadesJoão Sette Whitaker FerreiraFAU
Cultura e ArtesLúcia Maciel Barbosa de OliveiraECA
Cultura e ArtesMartin GrossmannECA
DemocraciaCibele Saliba RizekIAU
DemocraciaCicero Romao Resende de AraujoFFLCH
DesigualdadesAna Elisa Liberatore Silva BecharaFD
DesigualdadesVladimir Pinheiro SafatleFFLCH
EconomiaAriaster Baumgratz ChimeliFEA
EconomiaCláudio Antonio Pinheiro Machado FilhoFEA
EducaçãoTadeu Fabricio MalheirosEESC
EducaçãoMarcos NeiraFE
EnergiaSuani Teixeira CoelhoIEE
EnergiaJosé Roberto CardosoEP
IndústriaVanderley Moacyr JohnEP
IndústriaJoão Fernando Gomes de OliveiraEESC
Meio AmbienteJean Paul Walter MetzgerIB
Meio AmbienteAna Maria de Oliveira NusdeoFD
SaúdeJosé Sebastião dos SantosFMRP
SaúdeBerenice Bilharinho de MendonçaFM

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