Na programação dos 80 anos da USP, um convite especial à reflexão

Avaliar o impacto da USP no avanço da ciência, da cultura e das políticas públicas é a meta da comissão formada para coordenar os eventos comemorativos dos 80 anos da Universidade, completados em 25 de janeiro passado.

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn0Print this pageEmail

Avaliar o impacto da USP no avanço da ciência, da cultura e das políticas públicas é a meta da comissão formada para coordenar os eventos comemorativos dos 80 anos da Universidade, completados em 25 de janeiro passado. Integrada por representantes dos professores, alunos e funcionários, tem como objetivo estimular a participação de todas as unidades no resgate da memória em um balanço acadêmico e institucional. E, ao mesmo tempo, incentivar perspectivas e propostas para o futuro

Com o brio de ser a maior e mais importante universidade da América Latina, a USP chega aos 80 anos. Uma história pontuada por pesquisas e iniciativas que contribuem para o desenvolvimento econômico, cultural e científico do País. E uma trajetória de excelência acadêmica e institucional que a destaca entre as melhores universidades do mundo.

Diante das conquistas e das perspectivas, a Comissão dos 80 Anos, integrada por representantes dos professores, funcionários e estudantes, convida as unidades de todos os campi para promover atividades que estimulem a reflexão sobre a história e os caminhos da Universidade. “No decorrer de todo o ano, as unidades vão preparar simpósios, ciclos de conferências, seminários, exposições e eventos diversos”, explica o professor e ex-reitor José Goldemberg, presidente da comissão. “A iniciativa de organizar uma equipe para coordenar os eventos é do reitor Marco Antonio Zago, que teve o seu início de gestão em um ano muito especial para a Universidade.”

Goldemberg explica que todas as unidades vão preparar um documento sobre a importância de sua atuação. “O que desejamos não é um histórico da unidade ou um elenco completo de suas atividades ao longo dos anos, mesmo porque já existem diversos documentos disponíveis. Trata-se de um esforço de identificar as principais contribuições à ciência ou à formulação e implementação de políticas públicas, resultantes das atividades de sua unidade ou de seus docentes e pesquisadores.”

Impactos – O objetivo é reunir essa documentação em um livro, a ser lançado pela Editora da USP (Edusp), que registre a trajetória dos 80 anos da Universidade.

Goldemberg foi reitor de 1986 a 1990, quando a USP conquistou a sua autonomia financeira, considerada um marco em sua história. “Oitenta anos é um tempo bom para a reflexão. As metas do nosso programa de trabalho na comissão são avaliar o impacto da USP no avanço da ciência em todos os campos do conhecimento e também a sua contribuição na formulação e implementação de políticas públicas, incluindo a área de ensino.”

A Comissão dos 80 Anos também vai pesquisar e divulgar a linha de tempo da autonomia financeira e da gestão orçamentária na USP do período entre 1988 até 2013. Além do livro sobre os 80 anos da USP, está programada uma coletânea especial da Edusp com a biografia dos professores fundadores da USP, como João Cruz Costa, um dos responsáveis pela criação do Departamento de Filosofia. Está prevista a publicação da história do educador Fernando de Azevedo, relator do  projeto de decreto-lei que instituiu a USP em 1934 e empossado na Academia Brasileira de Letras em 1964. E também a obra do sociólogo e crítico de arte Sérgio Milliet, entre outros. “Também está prevista a publicação de cadernos com textos e conferências do jornalista Júlio Mesquita Filho e do educador e jurista Anísio Teixeira, além do resgate da obra do cientista Luiz Edmundo Magalhães”, observa Goldemberg.

A Comissão dos 80 Anos é integrada pelos professores Jacques Marcovitch, Erney Felício Plessmann de Camargo, Alfredo Bosi, Carlos Guilherme Mota e Ada Pellegrini Grinover. Também conta com a participação do jornalista Francisco Mesquita Neto, diretor do grupo O Estado de S. Paulo, escolhido pela importância de Júlio Mesquita Filho na fundação da USP. Os funcionários estão representados na comissão por Dulce Helena de Brito, que há 30 anos trabalha  na Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto e passou a integrar, neste ano, o Conselho Universitário. Na representação discente foi escolhido Carlos Eduardo Garisto de Nicola, aluno da Escola de Comunicações e Artes (ECA), diretor do Centro Acadêmico Lupe Cotrim e do Diretório Central dos Estudantes (DCE) Livre Alexandre Vannucchi Leme e representante da Graduação no Conselho Universitário. A comissão conta com a coordenação da historiadora Heloísa Barbuy, do Museu Paulista da USP.

História – A programação tem dois eventos já aprovados, que foram sugeridos pelo estudante Carlos de Nicola. “O primeiro é um recorte da relação da ditadura militar com a USP. No ano em que se debatem os 50 anos do golpe de 1964, cabe-nos discutir qual o legado desse regime autoritário”, explica. “Sabemos por meio do livro O Controle Ideológico na Universidade, editado pela Adusp (Associação dos Docentes da USP), que o governo federal interveio de diversas maneiras em nossa universidade. Desde a modificação de currículos acadêmicos até a proibição de algumas aulas, a invasão do Crusp (Conjunto Residencial da USP), em 1968, a existência de um órgão censor da ditadura dentro da Reitoria e, por fim, a perseguição, prisão e assassinato de diversos membros da comunidade universitária, entre eles Alexandre Vannucchi Leme, que dá nome ao Diretório Central dos Estudantes.”

A sugestão do representante dos alunos resgata o tempo sombrio da história da USP, considerada a instituição brasileira mais atingida do País, segundo O Dossiê Ditadura: Mortos e desaparecidos políticos no Brasil, publicado em 2009, que registra o nome de 39 pessoas, entre professores e estudantes da Universidade. “A ideia é que, em todos os espaços, dos menos aos mais engajados, haja essa lembrança como forma de reparação e conscientização de alunos, funcionários, professores e, claro, de nossos dirigentes”, observa Nicola.

Outro evento proposto é um festival artístico, a ser organizado pelos alunos na Praça do Relógio, que contemple os diversos grupos e coletividades atuantes na Universidade. “Nesse festival poderemos receber essas pessoas que, se não estudam, financiam a Universidade e seus projetos, além de receber grupos artísticos que atuam dentro e fora dela, em espaços oficiais ou não, em sua maioria clandestinos no que diz respeito ao enquadramento da categoria de extensão universitária, embora inquestionavelmente sejam elos entre os cidadãos e a Universidade.”

Nicola faz questão de ressaltar que o grande desafio que a USP enfrenta ao atravessar 80 anos é a democratização. “Ano passado, na mobilização de alunos apoiada por funcionários e professores, percebemos que a demanda por maior participação nas escolhas que nos dizem respeito é imprescindível.”

Desafios – A programação, segundo a coordenadora Heloísa Barbuy, tem como objetivo viabilizar e estimular atividades que promovam a reflexão sobre a Universidade. “Haverá uma abordagem histórica, mas com uma tônica de balanço acadêmico e institucional. Trata-se de retrospectiva, mas também de perspectiva. É memória. Mas também é proposição.”

Jacques Marcovitch, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP e reitor da Universidade de 1997 a 2001, também integra a Comissão dos 80 Anos. Na sua avaliação, “é sempre necessário abrir novas frentes para a evolução das ciências, cursos novos em áreas estratégicas e uma expansão de todas as suas áreas de excelência, evitando-se a inércia que às vezes prejudica os benefícios gerados pelo êxito”. Ressalta: “A esse fato concreto devemos agregar que é preciso olhar constantemente para o que está acontecendo no mundo e como poderemos, à luz de exemplos bem-sucedidos em instituições com elevada reputação acadêmica, perceber o que devemos estabelecer como prioridade para a ação.”

Marcovitch lembra que a USP, responsável por 23% da produção científica do País e com índices de excelência em ensino bem superiores aos de outras instituições na América Latina, precisa apressar o passo para melhorar sua posição nos rankings internacionais. “Avançam em nossos laboratórios numerosas pesquisas cujos resultados, em poucos anos, antes mesmo do centenário, poderão colocar o Brasil no mapa global da ciência e da formulação de políticas públicas. Em especial, aquelas exigidas pela crise ambiental que abala o mundo contemporâneo.”

Para contextualizar a USP entre as universidades do mundo, a Comissão dos 80 Anos vai realizar um ciclo de conferências e debates sobre a governança dessas instituições. “Convidaremos reitores de universidades de diversos países para discutir modelos de governança. A ideia é convidar os dirigentes das universidades da Califórnia, Harvard e Paris, entre outras, para trocar ideias sobre projetos e modelos. A USP, com 90 mil alunos, enfrenta muitos problemas e precisa trocar informações sobre como dirigir uma grande instituição”, explica José Goldemberg.

(Matéria publicada no Jornal da USP, edição nº 1031, de 5 a 11 de maio de 2014 / Foto: Cecília Bastos)

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn0Print this pageEmail

Textos relacionados