O que a Pós-Graduação da USP aprendeu com a pandemia?

Por Carlos Gilberto Carlotti Jr., reitor da USP, Fátima L. S. Nunes, coordenadora do Grupo de Trabalho de Avaliação de Atividades Não Presenciais da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da USP, Maria Luiza Morais Barreto-Chaves, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP e outros autores*

 01/07/2022 - Publicado há 2 meses
Carlos Gilberto Carlotti Junior – reitor da Universidade de São Paulo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Fátima L. S. Nunes – Foto: Arquivo pessoal
Maria Luiza Morais Barreto-Chaves – Foto: Arquivo pessoal
Yara R. Marangoni – Foto: Arquivo pessoal
Ivy Kiemle Trindade Suedam – Foto: Arquivo pessoal
Izabel Regina Fischer – Foto: Arquivo pessoal
Elucir Gir – Foto: Arquivo pessoal
No dia 11 de março de 2020 a Organização Mundial da Saúde declarou oficialmente a existência de pandemia causada por um novo coronavírus (sars-cov-2), alterando, de forma repentina e abrupta, os procedimentos e a rotina acadêmica no âmbito universitário. A partir desta declaração, em 17 de março do mesmo ano, a Reitoria da Universidade de São Paulo suspendeu as atividades presenciais de toda a Universidade, incluindo as disciplinas de pós-graduação, sendo estas ministradas, a partir de então, de forma remota.

Na Pós-Graduação da USP, desde que foram tomadas as medidas de isolamento social, os trabalhos foram se adaptando rapidamente à nova realidade, e neste contexto, “uma das preocupações que tivemos foram as disciplinas. Isto porque, um curso de pós-graduação requer formação teórica, por meio de disciplinas, além do trabalho científico desenvolvido em conjunto com o orientador”, conforme colocado pelo professor Carlos Gilberto Carlotti Jr, pró-reitor de Pós-Graduação da USP na ocasião. Assim, durante o isolamento social, cerca de 6 mil docentes e quase 30 mil estudantes de mestrado e doutorado, oriundos dos 264 Programas de Pós-Graduação da USP, enfrentaram o desafio de lidar com novas formas de aprendizagem.

Hoje, passado o período crítico, o cenário demanda avaliação sistemática das atividades realizadas à época, com o propósito de identificar as melhores e mais eficientes práticas, que garantiram a qualidade e a manutenção da excelência acadêmica da Universidade, mesmo em momento adverso. A partir desta avaliação e do entendimento da mudança no perfil das disciplinas pós-pandemia, algumas delas ainda sendo oferecidas de forma remota, cabe identificar os fatores positivos (e negativos) que possibilitam nortear a comunidade da pós-graduação, visando à manutenção da qualidade.

Neste contexto, em documento elaborado pelo Grupo de Trabalho de Avaliação das Atividades Não Presenciais da PRPG, docentes e estudantes de pós-graduação da USP, de diferentes áreas do conhecimento, avaliaram o nível de satisfação em relação às disciplinas oferecidas de forma remota entre março e julho de 2020. A análise utilizou respostas obtidas via formulário anonimizado, distribuído aos pós-graduandos e docentes, ao final de cada disciplina, pela PRPG, contendo questionamentos que pudessem servir para avaliação e identificação das melhores e mais eficientes práticas acadêmicas. O rastreamento para avaliação do índice de satisfação dos professores e dos estudantes frente às disciplinas oferecidas de forma remota contou com 1.099 questionários respondidos por ministrantes de disciplinas e 9.581, por estudantes.

Como principal resultado, mais de 90% dos ministrantes e discentes avaliaram como “boa”, “muito boa” ou “excelente” as disciplinas ministradas, independentemente da área do conhecimento à qual pertenciam. Nesta análise, ficou evidente a preferência, por parte dos estudantes, de aulas mais curtas e síncronas, gravadas para posterior disponibilização, caso os alunos desejassem retomar os conteúdos. Os 10% restantes entenderam que as disciplinas remotas não constituíram método acadêmico apropriado, especialmente em função das dificuldades estruturais de acesso a computadores e à internet.

Em agosto de 2021, o grupo repetiu a aplicação do questionário e recebeu a resposta de 564 docentes e 2.282 discentes. Além dos aspectos já avaliados em 2020, comparou-se o cenário inicial de urgência de 2020 com o cenário mais estável de 2021.
Dentre os membros da comunidade que participaram dos dois momentos de avaliação (72% dos docentes e 53% dos alunos), a maioria afirmou que 2021 foi melhor ou igual a 2020.

 

Gráfico cedido pelos articuladores

 

Para os docentes, a avaliação positiva foi decorrente da sensação de maior preparo, disponibilidade de tempo para preparar material e maior interação com os alunos. Para os discentes, os motivos foram praticamente os mesmos, embora os porcentuais de resposta possam apresentar alguma variação.

Gráfico cedido pelos autores

 

Adicionalmente, a participação em aulas práticas (presenciais) também contribuiu para a avaliação mais positiva de 2021 por parte dos alunos. Por outro lado, embora em pequena proporção, aproximadamente 4% dos docentes e discentes indicaram que as disciplinas de 2021 foram piores que as de 2020. Os principais motivos elencados pelos docentes e discentes foram a diminuta interação com os alunos, o cansaço e a ausência de aulas práticas, nesta ordem de indicação.

Gráfico cedido pelos autores

 

Outro aspecto analisado na pesquisa foi a participação de docentes em atividades de treinamento de ensino remoto. De forma geral, os docentes que participaram destas atividades promovidas pela PRPG-USP, pela unidade ou pelos seus Programas de Pós-Graduação, avaliaram 2021 como sendo melhor que 2020.

Gráfico cedido pelos autores

 

Por fim, foram analisados e categorizados os comentários dos respondentes nas questões abertas. Há a percepção de docentes e alunos de que é útil, democrático e econômico, tanto em termos de tempo de deslocamento, como em gastos financeiros, o oferecimento de disciplinas no formato híbrido. Um dos pontos positivos mais citados na análise de 2021 foi a participação de alunos e de palestrantes externos à USP, oriundos de outros estados e países. No entanto, a maioria dos respondentes indica a falta de interação e as dificuldades com aulas práticas como um ponto negativo que precisa ser reconsiderado.

A pandemia mostrou que a comunidade da USP foi capaz de superar desafios em situações tão adversas. Docentes, alunos e técnicos mostraram-se colaborativos e resilientes de forma a permitir a continuidade das atividades. Apesar de todas as dificuldades de adaptação à nova realidade, os desafios foram superados, e muitos alunos conseguiram concluir com êxito e ótimo desempenho as suas disciplinas. A presença de atividades remotas foi percebida como benéfica em disciplinas de pós-graduação. No entanto, é perceptível a preocupação com a falta de interação entre docentes e discentes, o que nos leva a crer que o ensino neste formato deve ser cuidadosamente planejado e usado em situações específicas, nas quais haja contribuição efetiva na melhoria da qualidade do ensino.

* Yara R. Marangoni, professora do Instituto de Astronomia e Geofísica da USP, Ivy Kiemle Trindade-Suedam e Izabel Regina Fischer Rubira-Bullen, professoras da Faculdade de Odontologia de Bauru da USP, e Elucir Gir, professora da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da USP.


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