O Hospital Universitário mudou?

Por Paulo Francisco Ramos Margarido, professor da Faculdade de Medicina e superintendente do Hospital Universitário da USP

 31/03/2021 - Publicado há 6 meses
Paulo Francisco Ramos Margarido – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Sim, o Hospital Universitário (HU) mudou, e para melhor. Essa mudança é resultado desses quase três anos à frente da gestão da Superintendência do HU, que desejo compartilhar com a comunidade universitária da USP. De 2018 até hoje avançamos muito.

Mudanças ocorrem continuamente em organizações, sejam públicas, sejam privadas. São parte do processo de melhor cumprir a missão norteados pela visão de futuro estabelecida no projeto institucional. Assim também acontece com o HU.

As mudanças são mais impactantes quando trazem, em sua esteira, a efetividade, a eficiência e a eficácia das ações a serem implantadas. Transformações de comportamento, de produtividade, administrativas ou da cultura da organização podem ocorrer de maneiras variadas. A implantação do processo de transformação pode acontecer em ciclos ao longo do tempo ou de forma mais direta, abrupta, como consequência de avaliação. No HU, decidiu-se fazer a reorganização direta para resgatar mais rapidamente a essência de sua missão: ser um hospital que presta assistência em um ambiente de ensino e pesquisa.

Logo no início desta gestão foram tomadas ações emergenciais para a melhora do atendimento e dos resultados do HU. Cabe destaque a uma das mais importantes: o cumprimento de metas assistenciais em conjunto com a Rede Estadual e Municipal de Saúde. O não cumprimento dessas metas estava acarretando prejuízos para a assistência em geral e para a Saúde da Região Oeste, em particular.

Mudar com rapidez permitiu recuperar o prestígio do HU frente aos órgãos da Saúde e, ao mesmo tempo, produzir reflexos positivos para o ensino dos estudantes de graduação e pós-graduação que realizam suas atividades de formação no hospital.

Algumas das transformações produziram mudanças rápidas nos indicadores de produtividade. Entre 2018 e 2019, por exemplo, houve aumento na Taxa de Ocupação Hospitalar (TOH), passando de 66,4% para 84,2%, com redução do tempo médio de internação de 4,80 para 4,47 dias. A TOH diz respeito à quantidade proporcional de leitos ocupados a cada dia e nossos índices mostram que aumentamos o número de usuários por leito ao longo do ano de 2019.

No mesmo período, houve aumento de 7% no número de consultas ambulatoriais e de 11% no número de cirurgias realizadas. Os atendimentos de urgência/emergência cresceram 5% e o número de partos, ainda que modesto, cresceu 2%. Naturalmente, foi ampliado o número de horas de estágios dos estudantes de graduação, pós-graduação, residentes e de complementação em pediatria.

O Programa de Extensão de Serviços à Comunidade SUS-Butantã cresceu e atingimos, nesses dois anos, mais de um milhão de exames complementares, quase 137 mil consultas, cerca de 14 mil internações, 5.336 cirurgias e mais de 4.300 partos. São números expressivos que demonstram o quanto a USP investe no atendimento à comunidade universitária e à sociedade em geral, em particular da região Oeste do município de São Paulo.

Esses indicadores positivos de produtividade demonstram que, pouco a pouco, o HU retoma o caminho de sua missão institucional. E, claramente, está melhor de quando iniciamos a gestão frente à Superintendência.

HU referenciado

Antes da “crise” econômica, que levou a USP a realizar o Programa de Incentivo à Demissão Voluntária (PIDV), e anterior ao referenciamento dos setores de Urgência/Emergência, o Hospital Universitário não cumpria integralmente sua missão de ser unidade de saúde de média complexidade e a sua integração era pouco adequada com a Rede de Assistência à Saúde do município de São Paulo, conforme pactuado com o Sistema Único de Saúde (SUS).

O Hospital operou por muito tempo de modo equivocado, totalmente aberto para os atendimentos à população, deixando, assim, sua missão de assistência de média complexidade e se tornando um Pronto Atendimento, aberto às demandas que se apresentavam à sua porta.

Essa forma de atuação foi nociva ao HU e piorou com o impacto do PIDV. A necessidade de deslocar a força de trabalho médico e de enfermagem de outras áreas de assistência para o “Pronto Atendimento”, para atender à demanda crescente, estava levando o HU a se tornar progressivamente um grande pronto socorro em roupagem de hospital universitário.

A falta de orientação correta à população quanto aos serviços prestados pelo HU e a carência de unidades de atenção pré-hospitalar na região Oeste e nos demais municípios circunvizinhos estavam impondo sérios riscos àquelas pessoas que realmente necessitavam de atendimento de urgência e emergência em média complexidade.

Foi preciso agir e garantir que o HU mantivesse a função primordial do ensino na área de saúde, sem perder a função assistencial, como estabelecido em sua missão. No final de 2017, o referenciamento foi acertadamente definido e incorporado ao hospital com a Pactuação na Rede de Urgência e Emergência do SUS, que organiza os serviços Pré-hospitalares Fixos e os Hospitais Referenciados.

A manutenção e o fortalecimento do referenciamento das unidades de Urgência/Emergência do HU foram fundamentais para reafirmar o papel do hospital na Rede de Assistência em Saúde da região. Este é um trabalho contínuo, quase que diário, em que devemos atuar permanentemente.

Dessa forma, o hospital também pode organizar melhor outros atendimentos ambulatoriais, tanto clínicos quanto cirúrgicos de diversas especialidades, ampliando a cobertura assistencial.

A pandemia e o HU

A pandemia da covid-19, com mais de um ano de duração, tem sido dura com a sociedade e com as instituições de saúde. Como gestor do HU, tenho zelado pelos usuários e servidores. Diariamente são feitas avaliações para afiançar o pleno funcionamento do Hospital em um ambiente seguro para todos, servidores, alunos, pacientes, usuários e fornecedores.

O fornecimento e a manutenção dos equipamentos de proteção individual (EPIs), os quais, ressalte-se, nunca faltaram, bem como a disponibilização dos testes sorológicos e a vacinação, até o momento, do maior número de profissionais do hospital, trazem a segurança e a percepção de um ambiente no qual a premissa básica é o cuidado com todos.

Se a pandemia por si só estressou todo o sistema de saúde do país, no HU, em processo de modernização e aperfeiçoamento de suas rotinas, a situação exigiu equilíbrio e sensatez adicionais. Houve a necessidade de, novamente, realizar mudanças abruptas. Muitas em caráter emergencial.

As chefias técnicas do HU foram estimuladas a refletir sobre áreas de atendimento dos casos de covid-19, sobre protocolos de segurança e de uso de EPIs, sobre rotinas de exames, sobre treinamento das equipes para a realização de exames (RT-PCR), cuidados e dispensação de insumos, referenciamento junto à rede de saúde e transferência de pacientes, entre outros temas, que emergiam quase que diariamente. E, claro, tudo com a máxima rapidez para atender ao crescimento da demanda.

As chefias e as equipes dos diversos setores do HU prontamente se reorganizaram para discutir as necessidades de transformação impostas pela pandemia. Em menos de sete dias, foi criada uma área da urgência/emergência, adequando espaço físico para se transformar em um ambiente restrito denominado de gripário. Zelamos pela manutenção dos EPIs.

Conseguimos realizar aquisições importantes, em momentos críticos, mas também contamos com o apoio de várias unidades da USP, as quais manifestaram solidariedade por meio da disponibilização de EPIs, produção de insumos (álcool em gel e máscaras) e a intermediação de doações por entidades privadas.

Um apoio importante do HU para o enfrentamento da pandemia foi colaborar ainda mais com o Hospital das Clínicas (HC) da Faculdade de Medicina da USP, que se dedicou como instituição para recebimento dos casos de covid-19, atuando no atendimento e assistência aos pacientes com outras doenças não associadas ao novo coronavírus.

Como um hospital não-covid-19, pudemos assumir do HC algumas áreas assistenciais sensíveis, como o Setor de Obstetrícia, com gestantes de alto risco, as quais puderam dar à luz no HU em um ambiente com menor risco de contaminação. Nesse tempo, o Setor de Obstetrícia do HC pode cuidar das gestantes com covid-19. Assim também foi feito com as áreas de Otorrinolaringologia, Oftalmologia e Neonatologia.

O posicionamento do HU como não-covid-19 foi importante para que houvesse a manutenção de um serviço com condições de atendimento às doenças mais frequentes da comunidade.

O ano de 2020 foi de grande processo de transformação, infelizmente em um momento triste de nossa história. A interação da Superintendência, como um todo, com os diferentes setores do hospital, trouxe mudanças positivas na cultura da instituição.

O empenho e o compromisso com que as áreas técnicas abraçaram rapidamente a busca de soluções frente aos desafios que se impuseram é a mais nítida demonstração da aceitação das transformações que se tornam realidade com efetividade.

Pensar o amanhã

Sabe-se que os recursos em Saúde Pública são finitos, mas as demandas não. Pelo contrário, são crescentes. É certo também que as Redes de Assistência à Saúde do Município e do Estado procurem, frente às necessidades, onde há recursos, humanos e materiais, para dar respostas às demandas diárias. Entretanto, é o momento de se respeitar a grade de referenciamento pactuada para atendimentos de urgência e emergência. Caso contrário, todos sairão perdendo, em especial a população que mais necessita.

Vale deixar claro o papel proativo da Reitoria da USP em valorizar o HU como importante Unidade de Saúde da região Oeste da cidade de São Paulo e atendimento da comunidade USP. São mais de R$ 350 milhões ao ano para manter custeio e investimentos no HU. Em 2020 foram cerca R$ 5 milhões adicionais para aquisição de novos equipamentos. É apoio concreto, sem discurso vazio, para a assistência à saúde da comunidade interna e externa, sem deixar de valorizar o ensino e a formação dos profissionais de saúde.

Mas, quando penso no amanhã, não posso deixar de considerar meus 22 anos como médico no HU. Para mim, a instituição deve ter quatro pilares fundamentais para a gestão: o que entregar, para quem entregar, como entregar e, sobretudo, até onde quer chegar como Hospital Universitário da USP.

São muitos os segmentos que tem interesse no HU: comunidade da USP (alunos, servidores, pesquisadores, Unidades de Ensino), Secretarias de Saúde e a sociedade como um todo. As entregas devem ser consideradas para todas as partes interessadas, tendo-se a maior clareza possível do que deve ser entregue a cada uma delas, bem como qual a melhor maneira de efetuar as entregas. Essas condições devem estar sempre alinhadas com os objetivos futuros do Hospital Universitário. Afinal, somos uma unidade de saúde que leva a marca USP!

Quando iniciamos os trabalhos, encontramos vários desafios, tais como a ausência de um sistema de medição de desempenho adequado e de métodos para organizar os processos e problemas de integração entre as áreas, o que impacta na eficiência da utilização dos recursos e na eficácia da entrega.

Claro que se não trabalhássemos nesses problemas gerenciais, não conseguiríamos sustentar bons resultados a médio e longo prazo. Por isso, optamos por criar uma assessoria de Gestão Estratégica para alavancar e profissionalizar a gestão no Hospital Universitário. O grupo de comunicação institucional existente foi incorporado a essa assessoria e o HU passou a divulgar boletins diários, publicados em seu site, com encartes que atualizam a comunidade da USP sobre as ações realizadas, além de informativos específicos sobre atividades voltadas para a pandemia.

Com a criação dessa assessoria, em 2019, realizamos o primeiro evento estruturado de Planejamento Estratégico no HU, que teve como ponto de partida uma oficina para a discussão do modelo de atuação do Hospital. Essa discussão possibilitou a revisão de nossa missão e visão institucionais.  Esse trabalho, em andamento, permitirá definir com clareza os quatro pilares (o que entregar, para quem, fazendo o que e onde quer chegar) e melhorar o relacionamento do HU com as partes interessadas.

Em síntese, o HU está se transformando para atender mais e melhor a comunidade da USP e a sociedade. Com mais trabalho, e menos discurso, vamos enfrentar os desafios, procurar superá-los e, principalmente, resgatar o orgulho de todos os servidores, alunos e colaboradores de fazerem parte da família do Hospital Universitário.


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