“Este museu é um templo de estudo, do pensamento e da ciência, é lugar do saber e da razão”

Discurso do reitor da USP, Carlos Gilberto Carlotti Junior, na cerimônia de reabertura do Museu do Ipiranga, no dia 6 de setembro

 Publicado: 07/09/2022  Atualizado: 09/09/2022 as 15:25

É um prazer estar num patrimônio tão especial da Universidade de São Paulo como o Museu do Ipiranga.

Quero, antes de tudo, agradecer a presença de vocês aqui hoje. Muito obrigado por estarem conosco neste momento tão cheio de significado que é a reabertura do novo Museu do Ipiranga.

A USP tem o prazer de administrar este Museu desde 1963. Em 2013, quando foram identificados problemas estruturais no edifício-monumento, nosso Museu teve de ser fechado ao público.

Esse período, infelizmente, coincidiu com uma fase em que a USP passou por restrições orçamentárias.

Com o apoio da Fapesp, o acervo foi protegido e transferido para casas e galpões localizados na região do Ipiranga, um trabalho que exigiu muita dedicação das equipes durante mais de dois anos. As peças de arte de grande porte, que não puderam ser retiradas do prédio, foram restauradas aqui no próprio Museu.

As atividades de pesquisa e extensão continuaram a ser oferecidas em outros locais, mas o prédio ficou sem atividades até setembro de 2019, quando as obras tiveram início. E, agora, finalmente, estamos reabrindo as portas do novo Museu do Ipiranga.

Neste momento de reabertura, gostaria de fazer duas perguntas diretas e sinceras a todos vocês: qual o sentido desta reinauguração? O que significa a reabertura do Museu do Ipiranga?

Essa resposta exige de nós um pouco de razão e um pouco de sentimento. As palavras que vou dirigir a vocês, hoje, têm a pretensão de iluminar alguns aspectos da resposta.

Este museu é uma casa em que guardamos, com esmero, documentos e objetos de enorme valor histórico, pelos quais temos o maior apreço. Ao mesmo tempo, é um templo de estudo, do pensamento e da ciência. Em poucas palavras, este museu é lugar do saber e da razão.

Para nós, da Universidade de São Paulo, não é com a devoção diante de vultos do passado que nos relacionamos com a nossa história. Mas, sim, é com a investigação historiográfica criteriosa que entendemos nosso percurso como nação.

E, a partir desse entendimento, é com apoio em procedimentos metodológicos rigorosos e racionais que vislumbramos para onde devemos seguir.

A razão nos ensina e nos guia e, com a ciência, como bem diz o brasão da nossa Universidade, nós vencemos. Nosso museu tem com a missão de ensinar à nossa gente e, por meio do ensino, libertá-la. Um povo instruído, educado e culto, este sim, jamais será dependente.

No bicentenário da Independência do Brasil, nós, da USP, reinauguramos o Museu do Ipiranga para ajudar cada brasileiro e cada brasileira que nos visitam a se tornarem, cada vez mais, cidadãos e cidadãs independentes, que pensem por si mesmos, que decidam com autonomia sobre seus destinos pessoais e coletivos. Um país independente, na nossa maneira de ver, é um país de mulheres e homens independentes.

A universidade é um lugar de ciência, por certo. Mas também é lugar de filosofia, onde floresce o pensamento crítico, assim como é lugar das artes, em que os sentidos estéticos do mundo se expandem a cada dia.

Por definição, a universidade é sede da cultura – assim como é um museu verdadeiramente vivo, como é vivo o Novo Museu do Ipiranga. Portanto, a data de hoje é dedicada ao melhor da cultura brasileira, uma data que nos ajuda a pensar com mais fundamento sobre quem somos, de onde viemos e para onde podemos ir.

Acontece que, para irmos a algum lugar, temos de saber para onde e de que modo queremos ir. Ora, isso tudo só é possível saber se formos capazes de ser uma nação do diálogo.

Para cumprir nosso destino, precisamos ser uma sociedade em que as pessoas convivam em paz, cada qual com suas crenças e seus valores, uma terra em que homens e mulheres sejam capazes de conversar harmoniosamente sobre seus problemas e sobre seus desafios comuns.

Se não prezarmos os valores da paz, do respeito, do diálogo, da pesquisa científica e da liberdade de pensamento, será impossível alcançarmos a prosperidade e a justiça social. Portanto, a data de hoje traz o significado da convivência.

Este momento de celebração também é momento de agradecimento: gostaria de agradecer aos governos federal, estadual e municipal pela inestimável colaboração – ao governo federal, pela aprovação de importantes incentivos da Lei Rouanet; ao governo estadual, pela parceria constante e aporte financeiro; e, ao municipal, pela cooperação na reforma do Jardim Francês.

Aos patrocinadores, que acreditaram na proposta e viabilizaram o projeto, muito obrigado a todos.

Gostaria de destacar nominalmente duas pessoas importantes nesta trajetória: o então governador João Doria, que tratou a reforma do Museu como prioridade em sua gestão; e o professor Vahan Agopyan, meu antecessor, que foi responsável pela USP durante grande parte do processo de restauração do prédio. Agradeço, em meu nome pessoal e em nome da USP.

Tenho certeza que ambos continuarão a apoiar a USP, São Paulo e o Brasil, mesmo não ocupando posições públicas.

Eu já me dediquei à razão neste discurso. Agora me falta dizer algo mais sobre o sentimento. Foi com amor pelo Brasil que a USP se dedicou, nestes mais de três anos de muito trabalho, a recuperar o Museu do Ipiranga.

Foram mais de 250 milhões de reais investidos no projeto, vindos da União, do Estado de São Paulo e da iniciativa privada. Mas, fundamentalmente, foi muito amor. Esse é o nosso sentimento aqui. Amor pelo Brasil. Sem ele, nada disso teria acontecido.

Que a celebração do nosso Bicentenário da Independência, com razão e sentimento, nos abra as portas para um futuro de mais educação para a nossa gente.

Que esses duzentos anos de independência nos conduzam a outros duzentos anos com menos desigualdade social, menos preconceito, menos racismo e menos injustiça.

E mais, muito mais alegria, mais liberdade, mais harmonia, mais saber e mais independência.

Viva o Museu do Ipiranga!

Viva o Brasil!


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