Ensino, pesquisa e extensão são a essência das universidades estaduais paulistas

Por Antonio Carlos Hernandes, vice-reitor da USP

Antonio Carlos Hernandes – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
A pandemia que ainda vivemos impôs inúmeros desafios à sociedade. Tivemos que nos reinventar em muitos aspectos. Com as instituições de ensino não foi diferente. As universidades públicas foram instadas a revisar políticas para garantir a continuidade das atividades acadêmicas e, em particular, agir para manter as pesquisas em andamento. Rapidamente, foi preciso reconfigurar procedimentos, funcionamentos e modo de pensar a uma realidade quase que inteiramente digital, de maneira a sustentar as atividades da comunidade universitária em isolamento físico.

A nova conjuntura expôs ainda mais as universidades à opinião pública e reforçou a ideia de que a instituição universitária não pode ficar afastada da sociedade. Muito pelo contrário. Não se compreende, nem se admite, a universidade como um fim em si mesma, alheia à matriz social e aos seus anseios. O substrato social é mutante por natureza, de modo que a universidade deve, igualmente, aderir ao seu tempo sob pena de se tornar inviável.

Há um laço forte e inseparável entre o bom ensino, a boa pesquisa e a boa extensão. Ensino e extensão de qualidade devem se apoiar em base sólida da pesquisa de qualidade para não serem clones, meros emissores de discurso emprestado. Não há bons pesquisadores que não tenham se formado em boas escolas. Em outras palavras, a pesquisa qualifica o discurso educativo e, em contrapartida, se alimenta dos seus frutos. Cabe, portanto, à Universidade reforçar a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão como um princípio fundamental. É a partir deste princípio que são definidos a natureza e os meios para atender às demandas da sociedade brasileira. A especialização da universidade em qualquer uma dessas dimensões (ensino, pesquisa e extensão) não é suficiente para responder aos desafios vividos por uma sociedade tão desigual e complexa como a brasileira.

No atual contexto de crise sanitária, o entrelace do ensino, pesquisa e extensão de qualidade, como ocorre na USP, na Unicamp e na Unesp, mostrou seu potencial em responder rapidamente às sucessivas demandas e fornecer à sociedade informações seguras, desenvolvimento de ações para mitigar o sofrimento de famílias, gerando inovação tecnológica, garantindo quadros de profissionais de alto nível, formulando e executando políticas públicas essenciais.

A Universidade de São Paulo tem dado exemplos de como pesquisa e inovação podem ser determinantes na solução de problemas complexos. Em um intervalo curto de tempo, a USP mobilizou cerca de 250 grupos de pesquisa, em todas as áreas do conhecimento, capazes de contribuir com a gestão da pandemia. A Universidade manteve atuação relevante e direta com a sociedade.

De fato, o escopo abrangente do papel da universidade atende à ideia de que o investimento nos três eixos, ensino, pesquisa e extensão, se retroalimenta de modo virtuoso. A combinação entre formação na graduação e para a pesquisa é um bom exemplo. A boa formação na graduação é um pré-requisito para a formação de um grande pesquisador, do mesmo modo que uma boa iniciação científica contribui para a formação na graduação. O mesmo se dá entre pesquisa e extensão universitária. Atividades de extensão desenvolvidas no âmbito de determinadas comunidades fornecem subsídios essenciais para a pesquisa em políticas públicas. Ao mesmo tempo fortalece o sentido de responsabilidade social aos futuros profissionais e promove as chamadas soft skills. E todas as unidades da USP têm demostrado a força da fertilização cruzada entre ensino, pesquisa e extensão.

A universidade tem entre os seus objetivos a busca por soluções dos problemas da sociedade e, por isso, não pode prescindir de ser mais inclusiva e diversa. Não há razão para se tomar como mutuamente excludentes a adoção de ações afirmativas e as metas de pesquisa que fazem avançar o conhecimento. A adoção de ações afirmativas visa à redução de desigualdades, e não pode ser tomada como assistencialismo a desvirtuar a missão da universidade. Busca-se, na realidade, garantir condições similares de oportunidade e desenvolvimento profissional a estudantes que vivem em contextos desiguais. Estudantes talentosos existem em todas as instâncias da sociedade. Ações afirmativas são políticas de acesso à universidade que não se confundem com a avaliação para a formação acadêmica, esta inteiramente baseada no mérito do aluno. Tais ações afirmativas obviamente não substituem as políticas governamentais urgentes e necessárias para combater os graves problemas que acometem o ensino fundamental e médio.

As ações adotadas pela USP para o ingresso de alunos de origem PPI (Pretos, Pardos e Indígenas) são acompanhadas de políticas de suporte, voltadas aos estudantes em situação socioeconômica vulnerável, visando a proporcionar melhores condições de permanência, vivência e desempenho acadêmico na Universidade. Esse investimento feito nos últimos anos não trouxe prejuízo para a excelência em pesquisa. O mesmo pode ser dito no campo da extensão. A diversidade enriquece a capacidade de formulação de políticas públicas e a relação com a sociedade, e não o contrário.

A escolha sobre qual dimensão se especializar seria um real dilema se a USP não reunisse condições para desempenhar um papel abrangente e multidimensional. Felizmente, a USP é dotada de recursos, sobretudo recursos humanos de alto nível, que atestam a excelência nos três eixos.

Ensino, pesquisa e extensão, indissociáveis e de qualidade, constituem a essência das universidades estaduais paulistas. Não está no horizonte retroceder e se distanciar de conquistas tão importantes para a sociedade brasileira.


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