Pesquisa mostra a luta de jovens negros para frequentar um espaço público em São Bernardo do Campo, SP

Estudo realizado na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) mostra as transformações do Hip Hop e destaca a luta de jovens negros e periféricos de São Bernardo do Campo, no ABC paulista, para continuar pertencendo ao espaço público.

 17/06/2024 - Publicado há 1 mês

Texto: Marcos Santos

Arte: Olívia Rueda*

O Hip Hop não é só um movimento cultural. Além de politizado, ele também busca mudanças na sociedade, como mostra a dissertação de mestrado Cultura, Espaço e Política: um estudo da Batalha da Matrix em São Bernardo do Campo. O estudo foi apresentado pelo ex-rapper e MC Felipe Oliveira Campos, na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, sob a orientação do professor Carlos Henrique Barbosa Gonçalves.

Em sua pesquisa, Campos detalha através de entrevistas com MCs e membros da Sociedade Alternativa de Campom (S.A.C.) — entidade que organiza a Batalha da Matrix —  as transformações do movimento cultural Hip Hop ao longo dos anos, com foco no elemento dos MCs (Mestres de Cerimônias) oriundos da proliferação das batalhas por todo o território nacional, a partir dos circuitos municipais, regionais e estaduais. Apresenta, também, como esse movimento teve de atuar politicamente para que jovens, na sua maioria negros e periféricos, permanecessem frequentando a Praça da Matriz no centro de São Bernardo do Campo, cidade do grande ABC de São Paulo.

“A Batalha da Matrix é um evento que acontece desde 7 de maio de 2013, das 19 às 22 horas, na Praça da Matriz, em São Bernardo do Campo, e funciona como um ponto de encontro de jovens, que frequentam o local para batalhar, encontrar amigos ou simplesmente conversar”, descreve o pesquisador. As tensões ficaram mais evidentes quando começou a ter uma presença mais ostensiva da Guarda Civil Metropolitana (GCM) de São Bernardo do Campo e da Polícia Militar”, conta o pesquisador

“Rap é compromisso”

O encontro é uma das vertentes do movimento cultural Hip Hop, que tem a dança, a música, Mcs e Djs como pilares. As batalhas de MCs são duelos de três rounds, com até 30 segundos cada um, dedicados às rimas de improviso, denominados freestyle. Vence quem conseguir cativar o público, que concede a vitória a um dos oponentes por meio de barulho.

As batalhas, segundo Campos, vêm apresentando ao longo dos anos uma nova estética na composição das rimas. “Com o crescimento das batalhas de MCs, houve uma complexificação da organização dos versos, que apresentam rimas internas e não só no final, como são feitas as rimas mais simples. Dessa forma, ocorre uma busca pela originalidade que prioriza a técnica de quem está batalhando”, explica Campos.

Ainda segundo o pesquisador, o Hip Hop é um movimento influente porque consegue transformar os estigmas de uma população marginalizada em orgulho e conscientização. “O Hip Hop é importante porque permite à população que enfrenta um genocídio, más condições de moradia e todas as adversidades possíveis, transformar esses estigmas em orgulho negro, periférico e em pertencimento, que vislumbra uma transformação social”, descreve o pesquisador, ressaltando que, “do mínimo, ele consegue fazer o máximo e possibilita que muita gente sonhe em concretizar muitos dos seus sonhos. Além do mais, é um movimento que tem uma grande incidência artística na sociedade brasileira, como podemos ver com Emicida, Racionais, entre outros.”

Batalha da Matrix em 2017 - Foto: cedida pelo pesquisador

Praça da Matriz, em São Bernardo do Campo, ainda é palco da Batalha da Matrix, que acontece às terças-feiras, sempre às 19 horas

“A rua é nóiz…”

A cidade de São Bernardo do Campo, em 1980, foi palco do que se chamou de “Novo Sindicalismo”. Milhares de metalúrgicos cruzaram os braços em busca de aumento salarial. A população, na época, se solidarizou com os grevistas arrecadando dinheiro para o fundo de greve e alimentos. Já em 2013, a cidade, que era essencialmente operária, passou a não contar mais com a força social dos sindicatos, que deixam de ter incidência sobre a população local.

“Nos anos 1980 a cidade era essencialmente operária, com 420 mil habitantes e cerca de 170 mil metalúrgicos. Passados mais de 30 anos, houve uma reestruturação produtiva e as empresas ficaram mais enxutas. O público que frequenta as batalhas não é um público operário e nem presta serviços tecnológicos para as empresas, mas sim trabalhadores, na sua maioria, sem carteira assinada, ou seja, camelôs, vendedores de salgado, entre outros. Cerca de 90% dos frequentadores das batalhas ganham até um salário mínimo”, diz Campos.

Conforme o pesquisador, o fato de as batalhas no início começarem por volta das 19 horas e não terem horário para terminar causava alguns transtornos na região. Mas o que fez a população ir contra o evento foi quando jornais da região passaram a vincular matérias negativas sobre os encontros às terças-feiras. “Os jornais da região mesclavam boas e más notícias. Poucas vezes diziam que ali ocorriam encontros de jovens da região, mas a maioria das matérias saía com opiniões de leitores dizendo que no entorno da praça ocorriam arruaças, brigas e assaltos. Que ali era um ponto de uso de drogas e que vendiam bebidas para menores de 18 anos.”

O dia 26 de janeiro de 2016 foi o único em que o evento não teve um campeão das batalhas. Enquanto os MCs duelavam, a Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana (GCM) da cidade dispersaram cerca de 600 pessoas. A repressão foi um desdobramento de outras batalhas ocorridas anteriormente, apesar da abertura do diálogo entre a organização do evento e gestores do governo municipal. “Nas reuniões, o que se ouvia era que a prefeitura considerava legítima a atividade, mas que o local não seria adequado, já que gerava desconforto a uma parcela dos frequentadores do entorno.”

Noite de repressão na Batalha da Matrix - Fotos: cedidas pelo pesquisador

Após os acontecimentos, os organizadores da batalha não se intimidaram, lutaram para pertencer àquele espaço e protocolaram uma carta no Ministério Público. “A carta foi protocolada como uma reivindicação de independência e o direito à cidade, dando o verdadeiro sentido às praças, longe de qualquer tipo de burocracia formal de existir. A organização colocou-se numa posição de enfrentamento a qualquer manifestação ou tentativa de repressão à realização do evento na Praça da Matriz”, conta Campos.

Depois de várias passeatas, protestos e reuniões com o poder público, os organizadores conseguiram permanecer na Praça da Matriz. No entanto, a luta pela continuidade das batalhas no local ainda continuou, pois as eleições de 2016 mostravam uma eminente troca de comando da Prefeitura, que passa de um governo de esquerda para um de direita. “O diferencial da Batalha da Matrix para outras batalhas é que ela foi a que mais enfrentou problemas para continuar existindo. Além dos elementos do Hip Hop contemporâneo, também tinha componentes que diziam sobre a cidade contemporânea e a forma de engajamento político e social dos frequentadores”, diz o pesquisador.

Reunião do integrantes da Batalha da Matrix com o então prefeito de São Bernardo do Campo, Luiz Marinho (PT), em 29/02/2016 - Foto: cedida pelo pesquisador

O evento procura reconhecimento para se consolidar como um movimento organizado e reconhecido pelo público como Resistência, que se dedica a uma profissionalização do trabalho desenvolvido na própria organização. “A Batalha da Matrix, que permanece até hoje na Praça da Matriz, além da luta para pertencer ao espaço público, também está nas redes sociais para lutar por legitimidade e visualização, a fim de mobilizar seguidores”, conforme Campos. 

Segundo o pesquisador, os MCs e as batalhas nos ensinam que os participantes, além de rimar, têm que ter sangue frio para dar a resposta à altura para o oponente. “As batalhas mostram toda capacidade que os indivíduos têm de superar as adversidades. É uma postura na vida que você assume. Quando você é atacado, transforma aquele estigma do ataque em defesa para conseguir responder rapidamente ao seu adversário e conseguir a vitória”, diz Campos.

Batalha da Matrix na WEB

Mais informações: campos.fo@usp.br

*Estagiária sob supervisão de Simone Gomes


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