Fotomontagem de Guilherme Castro/Jornal da USP com imagem de divulgação e foto de Carlos Moura, na Marcha Zumbi dos Palmares, em 1995

Novo livro de Edson Cardoso eterniza o testemunho da Marcha Zumbi e da luta antirracista

“O Brasil é mais negro do que nunca, à medida que os meios de comunicação resolvem mostrar rostos que não tinham espaço. É um processo profundo de tomada de consciência”

 01/12/2022 - Publicado há 2 meses

Texto: Tabita Said

Arte: Guilherme Castro

De que é feita a história? De fatos, diriam alguns; de registros, diriam outros. No caso do livro Nada os Trará de Volta: Escritos sobre racismo e luta política, lançado neste ano pela Companhia das Letras, a história é resgatada pelo testemunho de alguém que presenciou e atuou como agente político da luta antirracista no Brasil. Edson Lopes Cardoso, o autor, é doutor em Educação pela USP, com sua tese-testemunho, de 2014, que destacou a dimensão educacional do movimento negro. Seus escritos carregam a experiência de articulação de um movimento negro difuso para a Marcha aos 300 Anos de Zumbi dos Palmares, que reuniu cerca de 30 mil pessoas em Brasília, em 1995 – na ocasião, o grupo entregou uma carta de reivindicações unificadas para o então presidente da República, Fernando Henrique Cardoso. Além dos primeiros registros de discussão pública sobre ações afirmativas na imprensa, por meio do jornal Ìrohìn, de que foi editor. Ícone da imprensa negra, o periódico foi publicado entre 1996 e 2009, com uma tiragem que alcançou 16 mil exemplares em distribuição nacional. 

No novo livro, Cardoso reuniu escritos de uma vida toda, com 151 textos que detalham a história do movimento negro, denúncias de racismo e uma sessão inteira dedicada à análise da abordagem midiática ao negro nos principais veículos de comunicação nacionais. Parte dos artigos presentes no livro foi originalmente publicada no Ìrohìn. Já outros são inéditos, e descortinam a capacidade do autor em reconstituir fatos históricos de forma poética. Algo que somente alguém que presenciou os acontecimentos poderia fazer. 

“O que está aqui é uma consciência crítica, vigilante e atenta sobre a conquista das ações afirmativas. Um acompanhamento sistemático do que estava circulando na mídia, com os adversários da organização política dos negros, as conquistas, obstáculos e horizontes que se abriam… Mas aqui também aparecem comentários culturais sobre um filme, uma música”, explica o autor. 

Na capa, uma imagem do multifacetado Abdias do Nascimento divide o protagonismo com um título em alusão à filósofa judia Hannah Arendt, e a noção de que a memória é fundamental para a política. “Ela dizia que não se faz política sem os fatos e os eventos. Só tem um problema: é que os fatos podem ser negados, distorcidos ou esquecidos. Então o livro faz o esforço de reter essa memória”, diz ele. De fato, a abertura do livro reconta uma história que, para Cardoso, há muito foi esquecida. Quem se lembra do homem que subiu no mastro da bandeira do Brasil, em 2011, na capital, chegando a quase 100 metros do chão? Questionado por repórteres, ele afirmou que protestava contra o “esmagamento de negros no Brasil”. 

Edson Lopes Cardoso - Foto: Reprodução/Companhia das Letras

Edson Lopes Cardoso - Foto: Reprodução/Companhia das Letras

Introdução do livro de Edson Lopes Cardoso resgata episódios de opressão racial e analisa suas repercussões midiáticas - Imagem: Reprodução/ Companhia das Letras

Donos da narrativa

Escrever a própria história, narrar sua realidade e ser deslocado de um recorte específico do tempo passado para o presente. A formação versátil e a atuação histórica no movimento negro permitiram a Edson Lopes Cardoso a observação atenta da trajetória de transformação da sociedade a partir da luta do povo negro que, segundo ele, está em curso há pelo menos 25 anos. “Textos sobre escravidão continuaram sendo publicados e circulando. Mas, sobre o negro, vêm predominando temas contemporâneos. A outra novidade é que quem assina os textos são os próprios negros. Uma conquista do discurso sobre si mesmo”, destaca. O autor acredita que a mudança também chegou ao contexto acadêmico, notando uma preocupação maior com situações em que o negro seja meramente objeto de estudo. “O Brasil é mais negro e menos europeu do que nunca, à medida que os meios de comunicação resolvem mostrar rostos que não tinham espaço. Você tem um fortalecimento de uma intelectualidade negra e uma participação política ainda pequena, mas crescente”, pontua.

“Eu tenho uma pequena coleção de selos de Moçambique e Angola, de antes da independência. Então, o que Portugal fazia? Botava lá a palavra ‘Moçambique’ e uma paisagem portuguesa. Já nos selos de Angola após a independência, você vê características do país que a outra emissão filatélica ignorava. O jornalismo brasileiro é muito assim: ele é colonial na sua essência. É como a TV; ela está tomando uma forma de dar conta do país que a gente vive, de algum modo. Então, a gente está vivendo um momento de ir na direção da gente mesmo, indo ao encontro daquilo que a gente é”, afirma Cardoso, que também é mestre em comunicação pela Universidade de Brasília, onde se formou em Letras.  Autor de outros livros, a maioria de poesia, ele conta que cultiva uma relação antiga com publicações de diversos gêneros. “A novidade é, agora, aos 72 anos, chegar a uma grande editora”, diz o escritor, ensaísta e professor universitário.

“Eu tenho uma pequena coleção de selos de Moçambique e Angola, de antes da independência. Então, o que Portugal fazia? Botava lá a palavra ‘Moçambique’ e uma paisagem portuguesa. Já nos selos de Angola após a independência, você vê características do país que a outra emissão filatélica ignorava.O jornalismo brasileiro é muito assim: ele é colonial na sua essência. É como a TV; ela está tomando uma forma de dar conta do país que a gente vive, de algum modo. Então, a gente está vivendo um momento de ir na direção da gente mesmo, indo ao encontro daquilo que a gente é”, afirmou Cardoso, que também é mestre em comunicação pela Universidade de Brasília, onde se formou em Letras. Autor de outros livros, a maioria de poesia, ele conta que cultiva uma relação antiga com publicações de diversos gêneros. “A novidade é, agora, aos 72 anos, chegar a uma grande editora”, diz o escritor, ensaísta e professor universitário.

Cardoso acredita que a representatividade negra na publicidade e na imprensa seja um processo profundo de tomada de consciência, rumo a uma concepção mais próxima da realidade do País. “Agora, se alguém está tratando ela [a mudança] como epidérmica, eu acho que vai quebrar a cara. Porque você não assume isso assim, superficialmente”, aposta ele, citando como exemplo o caso das editoras que têm dado mais visibilidade a autores negros brasileiros e do exterior. “O prêmio Nobel de Literatura de 1986, Wole Soyinka, nigeriano, levou dez anos para ter tradução em língua portuguesa. O ano passado o Nobel foi africano também [Abdulrazak Gurnah] e alguns meses depois já tinha edição em português”, compara.

Sobre o papel da mulher negra, o autor se volta ao passado e relembra o Ìrohìn como um veículo à frente de seu tempo também na atuação feminina. Ele conta que o jornal abrigou intelectuais brancos e negros interessados em uma visão de mundo afrodescendente e africana. “Com um predomínio sempre maior da mulher do que do homem. Há uma produção intelectual, ali, maior da mulher negra”, avalia. De acordo com Ariovaldo Lima Junior, o Ìrohìn se diferenciava por reunir pessoas de vários Estados do País, assim como pela diversificação de gênero das lideranças. Ele analisou a relevância do jornal no combate ao racismo em sua dissertação de mestrado, e afirmou que ter mulheres na liderança era algo raro ou inexistente em quase toda a trajetória da imprensa negra brasileira.

Talvez o maior trunfo da narrativa de Cardoso, desde o Ìrohìn até a mais recente publicação, seja sua eloquente esperança de apontar um futuro de superação das desigualdades. Sem esquecer, no entanto, de tocar no delicado e controverso tema da reparação. “Os culpados pelo crime já morreram, mas há uma sociedade feita a partir daí, que nós usufruímos. Logo, nós temos responsabilidades com isso e as políticas públicas são um caminho”, avalia. Mas, para o imaginário social, também não faltam críticas. “Não adianta viajar a Ouro Preto, fotografar, e ignorar que [a cidade] é uma obra do crime da escravidão, um crime contra a humanidade das pessoas. Essa é a discussão da reparação.”

Novembro outra vez

“Você precisa menos do doutorado. É a USP que precisa”. Foi com esse argumento que a filósofa e educadora Roseli Fischmann conseguiu convencer Cardoso a desenvolver seu doutorado na Universidade. Orientadora dos trabalhos acadêmicos de Sueli Carneiro, Daniel Munduruku e Inaicyra Falcão dos Santos, Roseli afirma que a obra de Cardoso só ganha o devido destaque quando se sabe quem é ele, e o que o livro traz. “Para mim, sempre foi claro que a Universidade ganharia com essa presença”, afirma Roseli, que, em articulação com a Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária e junto de Edson dos Santos Moreira – professor aposentado do Departamento de Sistemas de Computação da USP em São Carlos -, conseguiu realizar na USP um evento para rememorar o tricentenário da morte de Zumbi dos Palmares. “Essa articulação que houve, naquela época, é importante para mostrar a trajetória da luta antirracista na USP, ou da USP”, lembra ela.

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Um sorriso comedido parece despontar no rosto de Cardoso ao falar da Universidade. A mesma que o doutorou foi também a última entre as paulistas a adotar as cotas como forma de ingresso ao ensino superior. Ele resolve o impasse mencionando a engenharia e a medicina como representativas de uma marcante presença negra, muito antes das cotas. “Para muita gente, os negros só chegam à Universidade por conta das cotas, mas para muitos isso não é verdade. No século 19, havia negros na medicina. Agora, o que a gente queria era entrar na Universidade na proporção da presença demográfica”, diz. Imediatamente ele relembra que a literatura também abrigou gênios negros, como Machado de Assis, Mário de Andrade e Lima Barreto. “Sempre tivemos uma presença fecunda e extremamente participativa na cultura brasileira”, reforça.

O autor lançou seu livro na Faculdade de Educação da USP, com a palestra Nada os trará de volta: memória e reflexão pública como instrumentos de conquista. Acompanhe a transmissão no vídeo a seguir:


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