Museu das Culturas Indígenas apresenta filmes indígenas com rituais milenares

Documentários são resultado prático de uma disciplina da pós-graduação da USP realizados em parceria com comunidades indígenas

 12/06/2024 - Publicado há 1 mês

Texto: Gabriela Varão*
Arte: Diego Facundini**

Com uma proposta imersiva, um dos documentários mostra a instalação artística de Carolina Velasquez e sua performance do ritual andino La K’oa – Foto: Areta Padma

O Museu das Culturas Indígenas (MCI)  promove uma mostra de cinema indígena com documentários produzidos por estudantes de pós-graduação da USP. Os filmes são resultado prático da disciplina O Cinema Indígena: do Território à Tela, ministrada no Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos (Diversitas) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. O evento acontece no dia 13 de junho, às 18 horas. Para participar, é necessário adquirir ingressos gratuitamente pelo link.

No evento, serão exibidos quatro documentários produzidos coletivamente, por diversos estudantes, em parceria com comunidades indígenas. Fora do LugarHoja SagradaKariri-Xocó em São Paulo e La K’oa  – Agradecimentos para Pachamama. A programação também conta com um bate-papo após os filmes, com a presença de indígenas que participaram do processo de produção das obras, além dos estudantes e dos professores da disciplina.

O curso foi ministrado pelos professores Giselle Gubernikoff, da Escola de Comunicações e Artes (ECA), Edson Luiz de Oliveira, pós-doutorando no Diversitas, e Ana Lúcia Ferraz, professora do Departamento de Antropologia da Universidade Federal Fluminense (UFF). De acordo com a professora Giselle, especialista em cinema, o diferencial da disciplina é “o oferecimento de uma atividade prática no nível da pós-graduação, com produção de documentários voltados para a decolonização do olhar, mostrando a relação de integração dos indígenas com a natureza”.

Giselle Gubernikoff - Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A disciplina, que já teve duas edições, pretende introduzir os estudantes no universo do cinema indígena, explorando suas estéticas e formas narrativas. A aproximação com comunidades indígenas tem como objetivo a produção de obras cinematográficas que fujam das representações estereotipadas para trazer a própria perspectiva indígena. Os alunos foram incentivados a produzir filmes em grupos que reflitam sobre os processos de identidade, origens e experiências indígenas. As produções trouxeram práticas e saberes culturais, rituais e a questão da luta pela preservação do território. Durante o curso, houve participação da professora Lisette Flanary, da Universidade do Havaí, para tratar sobre os protocolos de abordagem necessários ao longo da filmagem, que envolvem termos de respeito e consentimento.

O processo de gravação dos documentários contou com a participação de indígenas, como os Kariri-Xocó, que relataram suas experiências e dinâmicas de sobrevivência nos centros urbanos – Foto: Jorge Luís Felizardo dos Santos

“Inicialmente, esperávamos trabalhar muito com a temática indígena brasileira, mas acabaram aparecendo indígenas do Chile e da Bolívia, então trouxemos essas temáticas latino-americanas para o curso também”, comenta Giselle. A professora também lembra que a temporalidade indígena e suas concepções de mundo são diferentes da cultura branca ocidental. Por isso, a ideia principal é apresentar, por meio dos filmes, os novos olhares e estudar como a pessoa indígena está representada no cinema.

Narrativas indígenas

A discussão que orientou a disciplina foi centrada em entender como os povos indígenas transformam a linguagem cinematográfica para inserir os seus próprios pontos de vista. A professora Ana Lúcia destaca a importância de construir diálogos com os povos originários. “Sabendo que existe um espaço de diferença, é necessário ir além do próprio ponto de vista para estabelecer diálogos interculturais com aqueles que possuem outros modos de vida e cosmologias”, diz. Ela acredita que o audiovisual seja um instrumento para construção de visibilidade e legitimação das demandas indígenas.

Por meio de uma filmagem que traz elementos sonoros e visuais, o documentário Fora do lugar aborda a luta dos povos indígenas Guarani contra a destruição do território pelas grandes construtoras. O filme é fruto de um diálogo dos estudantes da disciplina com as principais lideranças da terra indígena do Jaraguá, terra ocupada há muitas décadas pelos Guarani. A obra acompanha Sonia Ara Mirim e Maria Ara Poty enquanto andam pelo território e estabelecem diálogo com parentes, seres humanos e não humanos. 

Ana Lúcia Ferraz - Foto: Arquivo Pessoal

“A questão da terra aparece como central, mas também uma série de relações com os outros seres do mundo Guarani presentes no território. Então, a mata e o mundo invisível dos espíritos que os Guarani reconhecem como presentes nesse universo. E os elementos próprios da cultura Guarani Mbya, como o cachimbo petyngua, que elas fumam sempre que conversam com a câmera e estabelecem um diálogo, buscando sabedoria”, afirma a professora.

Ariane Sousa Campos - Foto: Arquivo Pessoal

O filme retrata o tema da especulação imobiliária e as ameaças para o território indígena. Ariane Sousa Campos, uma das estudantes responsáveis pela produção e mestranda no Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades no Diversitas, explica que a gravação ocorreu a partir de uma “conversa-trajeto” feita por Sonia, mestra dos saberes no MCI. “As duas lideranças que conduzem a narrativa nos explicam como a cidade vem avançando em direção ao território indígena e ameaçando a biodiversidade e o modo de vida Guarani, chamado nhandereko.

As filmagens de Fora do Lugar foram feitas com a condução da liderança indígena Sonia Ara Mirim – Foto: Ariane Sousa Campos

“O território é o tema central do filme. Sonia diz ‘o território é tudo’ para indicar que não significa apenas a terra demarcada ou os limites geográficos, mas as relações entre humanos e não humanos, as possibilidades de interação entre a comunidade e a biodiversidade local, diferentes temporalidades, a liberdade para práticas culturais sem a influência ostensiva do modo de vida urbano”, acrescenta Ariane.

Outro detalhe é a valorização da paisagem sonora, para que o espectador possa escutar as árvores “marcadas para morrer” pelas grandes incorporadoras imobiliárias. “Em Fora do Lugar, experimentamos essa polifonia dos sons do ambiente, das árvores e dos pássaros em constante interação com as sonoridades urbanas e falas humanas”, destaca Ariane.

Indígena urbano

Com foco nas práticas culturais indígenas, o documentário Hoja Sagrada apresenta a preservação da sabedoria ancestral no ambiente urbano. O indígena boliviano Cesar Chui Quenta, da cultura Aymara, compartilha com as gerações mais novas o ritual de leitura da folha de coca, tradição milenar andina.

O curta-metragem Kariri-Xocó em São Paulo mostra a dinâmica de sobrevivência na cidade grande por meio de palestras e artesanatos.“Os temas presentes são as narrativas do cotidiano, a questão política e religiosa, o toré e a presença deles nas escolas. O documentário mostra um trabalho educativo na Escola Municipal Vereador Antônio Sampaio e narrativas que se desenvolvem na sua própria residência e na Casa de Cultura Japonesa [da USP]”, explica Jorge Luís Felizardo dos Santos, um dos produtores do filme e doutorando no Diversitas.

Com a presença do cacique Wiryça, da aldeia Kariri-Xocó de Alagoas, a obra registra os trabalhos educacionais realizados em ONGs e espaços culturais como uma forma de levar dinheiro para a aldeia. Nessa dinâmica de trocas e intercâmbios culturais, os Kariri promovem apresentações e fazem artesanatos, retornando sazonalmente para a terra ancestral.

Jorge Luís Felizardo dos Santos - Foto: Arquivo Pessoal

Parte do documentário mostra uma apresentação feita pelos Kariri-Xocó na Escola Municipal Vereador Antônio Sampaio – Foto: Jorge Luís Felizardo dos Santos

Já La K’oa  – Agradecimentos para Pachamama apresenta a performance artística de Carolina Velasquez, indígena descendente dos povos Aymara e Quechua da Bolívia, com o Coletivo Cholitas da Babilônia. O documentário mostra a instalação artística feita no Sesc da Avenida Paulista em 2022, com uma proposta imersiva, já que foi gravado em 360º, permitindo que o espectador percorra o espaço interativamente. A exposição contou com uma performance e oficina baseadas no ritual La K’oa, praticado nas regiões andinas, como forma de agradecer à deusa Pachamama pelas colheitas. A prática ritualística é feita por meio de movimentos repetidos, danças e cantos.

Além da performance do ritual, a instalação também trouxe máscaras e vestimentas chamadas de fabulosos, nomenclatura para obras que recriam memórias do contexto da cosmovisão andina frente aos apagamentos ancestrais – Foto: Areta Padma

Carolina explica que o ritual é uma  conversa com Pachamama, a Mãe Terra, e está relacionado com comunidades agrícolas e ações de semeadura e colheita. “Quando semeamos, estamos dialogando com a terra, que é vista como uma entidade. Não estamos semeando apenas alimento, mas também ideias, desejos e os nossos mortos. Quando você semeia, você entra em contato com o mundo de baixo. A cosmovisão andina é composta de três mundos, então o ritual é uma forma de conversar com a Pachamama, pedir suas bênçãos e agradecê-la”, conta.

Carolina Velasquez - Foto: Arquivo Pessoal

Serviço

Mostra O Cinema Indígena: do território à tela

Quando: 13 de junho, às 18 horas

Onde: Museu das Culturas Indígenas – Rua Dona Germaine Burchard, 451, Água Branca, São Paulo

Inscrição: Entrada gratuita mediante inscrição pelo link


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