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Empatia e opinião prévia são determinantes para posicionamento de estudantes sobre as cotas

Dez anos após a implementação da lei de cotas, estudo realizado no Instituto de Psicologia da USP destaca vivências de estudantes cotistas e investiga o perfil de quem se posiciona contra e a favor do sistema de cotas

 Publicado: 21/09/2022

Texto: Gustavo Roberto da Silva

Arte: Simone Gomes

Um relatório do Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas, do governo federal, publicado em 2022, evidencia os efeitos positivos da política de cotas, desde a sua implementação. O surgimento das ações afirmativas, que são políticas para promover igualdade de oportunidades para pessoas até então excluídas do acesso ao ensino superior, vem promovendo mudanças no perfil dos ingressantes.

Os resultados positivos de ações como a das cotas, entre outros motivos, serviram de incentivo para que a pesquisadora Kênia Eliber Vieira, bióloga de formação, estudasse o tema desde o seu mestrado. Com orientação da professora Luciana Maria Caetano, do Instituto de Psicologia (IP) da USP, ela desenvolveu sua tese de doutorado intitulada Julgamento de Justiça e Injustiça de Cotas na Universidade: impacto da empatia, da autopercepção e de um dilema de cotas. A banca avaliadora indicou a tese para a edição 2023 do Prêmio Capes de Tese.

No estudo, Kênia pesquisou o efeito que a inclusão dos estudantes cotistas causou na universidade em que ela trabalha, a Universidade Federal de Alfenas (Unifal). “Eu trabalho no campus de Poços de Caldas, da Unifal, e aqui nós não tínhamos ações afirmativas anteriores à aplicação da lei de cotas. O campus em que eu trabalho oferece cursos de engenharia, que são historicamente mais elitizados, então a chegada desses estudantes cotistas foi um impacto na comunidade”, afirma a pesquisadora ao Jornal da USP.

Após contar com a participação de estudantes da Unifal no mestrado, o trabalho de doutorado de Kênia expandiu a investigação para a USP, englobando universidades federal e estadual. A pesquisa é fundamentada em três estudos, que utilizam diferentes metodologias. “O primeiro é uma revisão de escopo, em que a gente queria saber quais eram as experiências que esses alunos cotistas estavam vivenciando na universidade. O segundo é um estudo de validação, e o terceiro a gente relaciona com a autopercepção, a empatia, a opinião prévia e a justiça ou injustiça do sistema de cotas”, conta.

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Imagens extraidas do Relatório de Avaliação Rede Federal de Universidades/gov.br

A Lei n°12.711/2012, conhecida popularmente como Lei de Cotas, estabelece que, nas instituições federais de ensino superior vinculadas ao Ministério da Educação (MEC), sejam reservadas 50% das vagas de ingresso para estudantes que tenham cursado todo o ensino médio em escolas públicas. Dentro desse porcentual, metade das vagas também deve ser reservada para estudantes de baixa renda, que possuam uma renda familiar igual ou inferior a um salário mínimo e meio por pessoa. 

Ainda, a lei estabelece a obrigatoriedade de reservar vagas para estudantes autodeclarados pretos, pardos e indígenas, em proporção minimamente igual ao número total dessa população na região, conforme censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em 2016, pessoas com deficiência também foram incluídas na mesma categoria de reserva de vagas.

A vida dos estudantes cotistas 

A revisão de artigos científicos sobre o tema foi uma alternativa encontrada durante a pandemia, aproveitando diversos artigos produzidos com relatos de estudantes cotistas, já que não seria possível realizar entrevistas presenciais. “O que eu sempre quis fazer foi dar voz a eles, inclusive pensava na entrevista justamente por isso. Eu quero ouvir, eu quero saber o que eles estão realmente vivenciando, e foi exatamente isso que eu encontrei nesses artigos”, diz.

A ideia foi apresentar evidências e fornecer uma espécie de ferramenta de gestão que auxilie na verificação do cenário das universidades públicas com a política de cotas. Para isso, foram selecionados 46 artigos, publicados após a implementação da lei, e categorizados em quatro eixos temáticos: as relações interpessoais, a representatividade, a identidade racial e as dificuldades e os facilitadores da permanência no ambiente acadêmico.

Nuvem formada por palavras-chave identificadas nos artigos analisados – Imagens extraidas do Relatório de Avaliação Rede Federal de Universidades/gov.br

Com relação às dificuldades enfrentadas, a pesquisa identificou nos relatos dos estudantes que a maioria das instituições não estava preparada para recebê-los adequadamente, gerando dificuldades de permanência. Os currículos inflexíveis são uma barreira para os estudantes trabalhadores, que muitas vezes precisam deixar a universidade, e a maioria das bolsas de pesquisa não possui critérios mais justos de distribuição, excluindo o aluno cotista, que consegue apenas os auxílios financeiros.

“A carga de trabalho do aluno cotista é muito maior, ele não tem que ir só estudar. Ele tem que pensar no ônibus mais barato, ele tem que pensar na alimentação mais barata, ele tem que pensar no edital de assistência social, ele tem que pensar um monte de outras coisas que não só o currículo.”

Violências como o preconceito e a discriminação racial, presentes na sociedade, também são constantemente reproduzidas nos ambientes universitários, apontam os estudos. Relatos de alunos negros para os artigos analisados demonstraram situações nas quais outros estudantes atribuíram a entrada dos cotistas na universidade apenas à condição étnica, como se as cotas fossem um privilégio.

“Eles ainda têm a questão do preconceito, a questão de não se verem numa universidade branca, em que tudo que é branco é valorizado. Inclusive tem o diálogo de um aluno de medicina, que conta que as pessoas o viam de jaleco escrito ‘medicina’ e ainda assim perguntavam se ele estava na assistência social, se ele era da enfermagem. E ele dizia que não, que estava escrito medicina no jaleco. São coisas sutis assim, que mostram que não é um mundo ao qual eles pertenciam”, destaca Kênia.

 

O julgamento da política de cotas

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Em seu mestrado, realizado em 2016, Kênia utilizou instrumentos da psicologia que são capazes de medir a competência moral dos indivíduos que participaram da pesquisa, e investigou sua relação com o julgamento das cotas. O chamado Teste de Competência Moral é composto de dilemas, no qual a pessoa avalia uma questão central e, posteriormente, julga questões favoráveis ou não ao dilema inicial. “A moralidade é a questão de você se importar com o outro, de você colocar o outro nessa conta. O amoral é quando você desconsidera o outro”, explica. Quando uma pessoa consegue reconsiderar seu julgamento inicial por uma problemática social, ela atinge maior nível de moralidade.

No doutorado, a questão do julgamento de justiça e injustiça do sistema de cotas foi feita de forma semelhante. Um dilema a respeito do ingresso por cotas na universidade era apresentado, seguido de diferentes argumentos e problemáticas favoráveis ou contrários à reserva de vagas. O objetivo foi investigar o quanto o nível de empatia, a autopercepção e as opiniões prévias poderiam impactar nesses julgamentos.

O dilema apresentava uma situação na qual um estudante de escola pública obteve nota suficiente para ingressar no curso de sua preferência, utilizando as cotas. Já outro concorrente, de escola particular, não conseguiu ingressar na universidade, pois não teve nota suficiente para ingressar pela ampla concorrência.

Os participantes da pesquisa precisavam responder como julgavam a situação, em uma escala com seis opções que variavam de “totalmente injusta” a “totalmente justa”. Em seguida, deveriam responder se discordavam ou concordavam com 14 argumentos: metade favoráveis e metade contrários à justiça de cotas.

Nas respostas obtidas, a opinião prévia a respeito do dilema foi o fator que teve maior impacto no julgamento das questões. Os estudantes que já julgavam o sistema de cotas como justo, respondiam o restante das questões seguindo esse pensamento. O mesmo aconteceu com os estudantes que são contrários, e consideravam o dilema inicial injusto. 

“Quanto maior o escore de empatia, mais eles consideram o sistema de cotas justo.”

Utilizando questionários de autorrelato, a empatia dos estudantes que participaram da pesquisa também foi medida. “Por meio desse instrumento, são mensuradas questões de consideração empática, da angústia pessoal, da fantasia, e da tomada de perspectiva do outro. Quando se mede tudo isso, obtém-se escore, que avalia um baixo ou um alto nível de empatia. A empatia é multidimensional”, conta.

Na amostra de estudantes que participaram da avaliação, foi possível identificar as características dos grupos favoráveis e contrários às cotas. Os favoráveis foram maioria dentro da amostra, representando 89%. O grupo foi constituído por pessoas mais jovens, a maioria do gênero feminino, com números semelhantes entre ingressantes cotistas e ampla concorrência, que julgaram as cotas que associam critérios sociais e raciais a mais justa.

Em relação aos contrários, cerca de 10% da amostra, o perfil é mais específico. São compostos em maioria de estudantes que ingressaram na modalidade de ampla concorrência em cursos de engenharia, de ciências exatas e de ciências agrárias,  em média mais velhos, e do gênero masculino.

Neste grupo, além de julgar o dilema inicial injusto, os estudantes consideram que a modalidade de ingresso mais justa é a cota apenas social, seguida pela ampla concorrência, ou seja, sem reserva de vagas. A cota racial é a que recebe menos aceitação.

“A Lei de Cotas só existe por luta do movimento negro. É um movimento político, as cotas têm uma vertentes social e racial, mas ela só aconteceu pela luta racial, pela luta do movimento negro.”

A pesquisadora acredita que a convivência com a diversidade no ambiente universitário pode ser um fator determinante para a aceitação das cotas, que foram julgadas mais justas por estudantes mais jovens. “A convivência no ambiente acadêmico com essa diversidade talvez esteja mudando esses preconceitos, essas essas opiniões prévias. As pessoas mais velhas talvez não tenham tido essa oportunidade, já que a lei é de 2012, bem recente”, diz.

Kênia Eliber Vieira - Foto: Arquivo pessoal

Pensando no fator da opinião prévia, que foi o que demonstrou maior impacto no julgamento dos estudantes, tanto favoráveis, quanto contrários, Kênia acredita que as discussões sobre o tema precisam ser cada vez mais frequentes. “Quanto mais se discute o quanto essa questão racial impacta nas desigualdades sociais existentes, o quanto as pessoas racializadas estão em subempregos, com salários menores, talvez assim a gente consiga quebrar essa opinião prévia de mérito promovida pelo ingresso por ampla concorrência”, afirma.

A lei que instituiu a reserva de vagas nas instituições federais prevê uma revisão neste  ano de 2022, e apesar do futuro da legislação ser incerto, a pesquisadora acredita que as universidades não devem retroceder. “Ninguém sabe muito bem como essa revisão vai acontecer. É muito cedo para eliminarem a política, acho que mesmo que isso ocorra por força de lei, as universidades vão continuar aderindo, pela autonomia universitária”, ressalta.

“Esse estudo que eu realizei foi pensando em termos de como embasar as atividades de permanência que efetivamente auxiliem a política e melhorem a vida desse estudante na universidade.”


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