Vida e carreira do maior editor independente do Brasil

Massao Ohno foi o editor da ruptura e da ousadia, apresentando um trabalho rico e variado durante toda sua trajetória editorial

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Massao Ohno e Hilda Hilst – Foto: Blog Acervo Massao Ohno

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Não sabe-se ao certo se por sonho ou delírio, mas Massao Ohno (1936-2010) viveu sua vida ansiando o dia em que faria a cidade amanhecer com poemas nos outdoors, ao invés de anúncios de massa de tomate, desodorantes e calcinhas. O filho de imigrantes japoneses talvez não tenha chegado a tanto, mas foi o responsável por lançar toda uma geração de poetas nos anos 1960, conhecidos como Os Novíssimos, além de publicar nomes como Hilda Hilst, Renata Pallottini e Lupe Cotrim.

Massao Ohno – Foto: Juan Esteves/Reprodução – Ateliê Editorial

O trabalho editorial de Ohno foi muito importante e, por isso, é relembrado até hoje – afinal, ser editado por Massao Ohno era como que ganhar um selo de qualidade. Todo poeta queria ser publicado por ele. E, aparentemente, o editor queria publicar todo mundo. É justamente esse trabalho editorial de décadas que uniu poesia (muitas vezes inovadora) e requinte gráfico que pode agora ser visto no livro Massao Ohno, Editor (Ateliê Editorial), do professor e crítico José Armando Pereira da Silva. No volume – que foi editado com o apoio do ex-editor Frederico Jayme Nasser -, ele mostra e analisa as diversas fases do trabalho do editor, que renderam mais de 700 obras publicadas. No volume da Ateliê são apresentados cerca de 200 livros. “Fui mexendo muito no assunto e acabei com um enorme acervo de obras dele. No meu livro dou um enfoque maior para a primeira fase do trabalho dele, que coincide com a geração dos poetas de 1960”, diz Pereira da Silva.

Segundo o autor, a ideia de começar a pesquisar e escrever sobre Massao Ohno surgiu depois de uma homenagem feita para ele em 2004. “Algumas das pessoas presentes ao evento falaram sobre a obra dele mas não pareciam ter muita noção da dimensão, do que realmente tinha significado”, contou. Depois de conversar com o próprio Ohno, já doente mas ainda ativo, José Armando Pereira da Silva começou esse trabalho que durou anos e que agora chega às livrarias. 

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Jovens autores lançados pela Massao Ohno Editora (da esquerda para a direita): Argus Machado, Sergio Lima, Regastein Rocha, Antônio Fenando de Franceschi, Decio Bar, Claudio Willer, Roberto Piva e Luiz Fernando Pupo – Foto: Reprodução/Ateliê Editorial

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Relação poeta e editor

  “Não existe relação poética sem editor. No caso do Massao, no que ele se pôs a editar poetas, acabou agregando um grupo que ficaria conhecido como a geração 60”, afirma Cláudio Willer, que, além de ensaísta e tradutor, é poeta e teve seu primeiro livro publicado por Ohno em 1964. Para ele, a relação entre poeta e editor é dialética, a reputação deles se torna mutualística e, neste caso, não só Massao Ohno se tornou o maior editor independente de sua época, como os artistas viraram referências na área da poesia. 

Livros de Claudio Willer e de Roberto Piva, publicados em 1964 pela Massao Ohno Editora – Foto: Reprodução/Ateliê Editorial

Segundo Willer, que também é doutor em Literatura pela FFLCH, em uma de suas conversas com Massao, o editor lhe disse: “Quero te publicar”. “Antes disso, essa ideia nem passava pela minha cabeça”, conta o autor. Anotações para um Apocalipse, seu primeiro livro, foi lançado junto com Piazzas, de Roberto Piva, também poeta e grande amigo de Willer. Produzidos como edições de bolso, em preto e branco e sem ilustrações ou efeitos gráficos, o design dos volumes tinha o objetivo de acompanhar seu conteúdo nada convencional. Eles inauguravam a Coleção Maldoror, que não pôde ir para a frente por falta de verba. 

Foi também nessa época que Massao Ohno trabalhou com Hilda Hilst, Lupe Cotrim, Renata Pallottini e Ida Laura, que já tinham certa experiência e não se enquadravam rigorosamente na Geração 60 – desta, além de Willer e Piva, faziam parte nomes como Sérgio Lima, Carlos Felipe Moisés e Décio Bar, entre outros. Nesses trabalhos o editor optou por uma produção mais artística e artesanal, valorizando as obras e evidenciando seu sentimento em relação à profissão que exercia. Como em Sete Cantos do Poeta Para o Anjo, da Hilda, e Livro de Sonetos, da Renata, que tinham designs arrojados e inovadores para a época. 

O final dos anos 1960 e início dos 1970 na carreira de Ohno foi marcado por um afastamento das atividades de editor. Nesse período ele focou em atividades cinematográficas, assumindo a produção executiva de Riacho de Sangue, de Fernando de Barros, e dirigindo o documentário O Novo Nordeste, além de distribuir outros títulos japoneses e brasileiros pouco comerciais. 

Primeiro logotipo usado por Massao Ohno para a Coleção dos Novíssimos – Foto: Reprodução/Ateliê Editorial

“Quando ele voltou a publicar poetas, resolveu fazer um grande lançamento coletivo e pediu para que eu e outros amigos coordenassem o que depois se tornaria a Primeira Feira Paulista de Poesia e Arte”, diz Willer. A feira aconteceu em 1976, no Teatro Municipal, e representava a volta de Massao à cena editorial da época. Segundo o que ele próprio disse em entrevista depois, o evento alcançou os objetivos propostos, incentivando um encontro entre diferentes públicos e correntes artísticas, além de ampliar a visão sobre o que vinha sendo feito em São Paulo, principalmente em termos de criação poética. 

Nos anos 1980, Ohno se associou à Editora Civilização Brasileira, situada no Rio de Janeiro. O acordo veio como uma oportunidade para que o editor pudesse expandir sua área de atuação, e continuasse com produções independentes. A aliança, no entanto, foi curta, e embora Massao tenha publicado algumas coleções no Rio, como Poesia Sempre, Poesia Hoje e Pôsters-Poemas, ele não reviveu seu sucesso no ambiente carioca. A maior relevância desse período em sua carreira talvez tenha sido os contatos adquiridos, que o levaram a publicar Olga Savary, Marly de Oliveira, Ledo Ivo, entre tantos outros poetas. 

Até o ano 2000 o editor ainda publicou uma quantidade substancial de obras, e embora a poesia predominasse, as demandas de vários outros segmentos aumentaram. A partir daí as publicações ficaram mais escassas mas, de acordo com Willer, sua vontade de editar nunca diminuiu. “Quando ele ainda não sabia sobre o câncer que progredia em seu pulmão, nos encontramos em uma homenagem ao Roberto Piva e eu ouvi novamente dele: ‘Willer, quero te publicar’”.

Sobrecapa do livro Massao Ohno, Editor – Divulgação Ateliê Editorial

Massao Ohno morreu em 2010 deixando mais de 700 livros publicados em sua carreira. “Eu diria que ele foi importante pela capacidade que tinha de ler poesia sem ligar para se ela ofenderia ou não a moral e os bons costumes. O que lhe interessava mais era a arte, por isso também o cuidado com o tratamento gráfico dos livros”, afirma Willer. Dentre as parcerias firmadas por Ohno, é importante destacar os artistas plásticos que ajudaram no design de seus livros. É o caso de Acácio Assunção, João Suzuki, Manabu Mabe, Wesley Duke Lee, Tomie Ohtake, entre outros. É este trabalho gráfico apurado, principalmente, que pode ser visto agora no livro de José Armando Pereira da Silva.

Massao Ohno, Editor, de José Armando Pereira da Silva. Ateliê Editorial – 320 págs – R$ 180,00

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