Ver e ouvir dependem das vivências de cada um de nós

“Não adianta gritar, repetir e comprovar a existência de perigo: a surdez e a cegueira sempre permanecerão entre alguns”

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A vivência influencia nossa forma de reagir à cultura – Fotomontagem: Jornal da USP/Luana Franzão

Por Janice Theodoro da Silva

Todas as pessoas escutam porque têm tímpanos, células ciliadas e canal auditivo. Os sons promovem vibração no tímpano e nós reconhecemos as palavras por meio das ondas sonoras responsáveis pela vibração no canal auditivo. Este é o caminho do som que nos permite reconhecer um latido de cachorro, uma batida de carro ou uma palavra.

Os sons variam em diversas línguas, as palavras nem sempre carregam significado semelhante. Muitas palavras não têm tradução. É frequente duas ou mais pessoas falarem a mesma língua e não compreenderem, da mesma forma, o que foi dito. Quando uma pessoa fala, por mais simples que seja a frase, ela ecoa num sistema de informação neural conformado pela cultura e pelas experiências cotidianas experimentadas ao longo da vida. Os neurônios são responsáveis por sinapses com memória criadas pelo uso frequente e repetitivo.

As experiências boas ou más e, principalmente, a ausência de experiências de vida podem tornar um fato comprovado por um experimento ausente de percepção e sentido ou significado para uma determinada pessoa. Existem sons no cantonês que eu não conseguia escutar e, portanto, não podia repetir. A apreensão de uma realidade X depende dessa espécie de eco capaz de transformar a experiência em razão.

O eco (relação entre a experiência e a razão) corresponde à cultura que cada um de nós carrega como patrimônio invisível no cérebro. A cultura e experiência de vida definem sensações com origem em satisfação e repulsa diante de objetos de desejo, marcadores de poder e diferentes formas de vínculos e afetos com a natureza (pessoas, animais e matéria). Marcadores voltados para a sobrevivência, poder e satisfação emocional, conscientes e inconscientes (dinheiro, carro, cargos em instituições, entre muitos outros), definirão o que se quer ouvir, ver e sentir. Em cada sociedade a vida, os objetos, as instituições e o planeta podem ser ou não ser vistos, ouvidos e sentidos, apesar de sua materialidade.

Não adianta, diante da diferença, levantar a voz, ficar indignado, repetir uma evidência até a exaustão. Uns vão ouvir e ver, e outros não vão ouvir nem sentir o que pode estar diante dos olhos.

É possível romper esse tipo de surdez e cegueira existencial?

Os gregos consideram a tragédia e seu impacto na vida cívica um caminho para se fazer ver. Com frequência pedem apoio ao coro, mais ou menos como fazemos, agora, com o coronavírus. O outro caminho, também delineado pelos gregos, sugere a política, a vida na cidade, na polis, na ágora, como o lugar ideal para se aprender ver e ouvir.

A política surgiu para combater alguns tipos de surdez e cegueira.  É ela (Jean-Pierre Vernant) responsável pela difícil trama dos elementos contrários, permitindo a construção e reconstrução sucessiva do tecido social.

Resumindo: não adianta gritar, repetir e comprovar a existência de perigo. A surdez e a cegueira sempre permanecerão entre alguns. Outros, com o apoio de um bom rei tecelão e da philia (amizade entre os gregos), podem resgatar a luz e fazer muitos ouvirem e verem: um planeta mais limpo, menos trepidante e, quem sabe, mais justo com a natureza (também humana).

Janice Theodoro da Silva é professora titular aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

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