USP Filarmônica exibe Concerto de Natal na Cidade Universitária

Apresentação será nesta quarta-feira, dia 12, às 12h30, no Centro de Difusão Internacional, com entrada grátis

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Ensaio geral da USP Filarmônica, no Teatro Municipal de São Carlos, durante sua temporada de 2018 – Foto: André Estevão

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Com um programa nada tradicional, a USP Filarmônica, sob a regência do maestro Rubens Russomanno Ricciardi, professor titular da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, se apresenta pela primeira vez no campus da Cidade Universitária, em São Paulo, em seu 113º concerto da temporada 2018. O Concerto de Natal, promovido pela Reitoria da USP, acontece nesta quarta-feira, dia 12, às 12h30, com entrada gratuita, no Centro de Difusão Internacional (CDI) da USP. “É uma alegria muito grande a estreia da USP Filarmônica na Cidade Universitária, na sua principal sala”, afirma o maestro, ressaltando que em março passado a orquestra fez uma apresentação na Faculdade de Medicina da USP, que fica no bairro de Cerqueira César, em São Paulo.

A USP Filarmônica é formada por alunos de graduação da FFCLRP e por bolsistas da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária e da Pró-Reitoria de Graduação, e traz como solistas seu corpo docente executando composições nacionais e internacionais. Segundo o maestro, o premiado violonista Gustavo Silveira Costa, professor do Departamento de Música da FFCLRP, vencedor do Grammy, entre outros prêmios, vai interpretar o Concerto de Aranjuez para Violão e Orquestra (1939), de Joaquín Rodrigo Vidre (1901-1999). De acordo com o maestro, a obra é considerada a mais clássica para violão de toda a literatura. “É um dos mais populares concertos para violão, ‘obrigatório’ para todos os solistas do instrumento e uma das obras mais difíceis do repertório violonístico. No concerto, ele vai ser interpretado por um virtuose. Isso dá um brilho especial para a apresentação.”

Detalhe da USP Filarmônica, que no Concerto de Natal trará composições de Johann Sebastian Bach, Joaquín Rodrigo Vidre, Mário de Andrade, Claudio Santoro e Franz Gruber  – Foto: André Estevão

A programação traz ainda o Concerto em Fá Menor nº 5 para Piano e Orquestra (BWV 1056 ), de Johann Sebastian Bach (1685-1750), com solo da pianista Fátima Graça Monteiro Corvisier, também docente da FFCLRP, na primeira parte do concerto – mesmo que este não tenha intervalo. A segunda parte será dedicada aos exercícios da contemporaneidade e inovação, que integram a produção de conhecimento da USP, como informa o maestro. Entre os destaques, Viola Quebrada (1926), de Mário de Andrade, executada a partir do autógrafo original, que se encontra no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP, um manuscrito com melodia e letra que ganhou orquestração de Rubens Ricciardi, em edição do Núcleo de Apoio à Pesquisa (NAP) em Ciências da Performance em Música (Cipem) da FFCLRP. A obra tem solo de Caio Souza, aluno da FFCLRP, na viola caipira, e da mezzo-soprano Marcela Rahal, recém-formada pela Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Segundo o maestro, Villa-Lobos criou um acompanhamento para piano imitando um solo de viola caipira para Viola Quebrada. Numa parceria entre ele e os professores Ivan Vilela e Gustavo Silveira Costa, a obra foi adaptada para a própria viola caipira. “A composição se tornou uma modinha sinfônica, seguindo a ideia estilística pensada por Mário de Andrade, pai da musicologia brasileira, que inaugurou a filosofia da música no Brasil”, diz Ricciardi, acrescentando que essa é a única obra popular que o escritor criou em toda a sua vida, excluindo um hino cívico. O maestro ainda ressalta que Viola Quebrada foi escrita em uma grafia musical das antigas modinhas, em 1926, ainda muito próximo do século 19. “É uma melodia que tem uma tradição do campo popular brasileiro, que vem do século 19”, completa.

Maestro Rubens Russomanno Ricciardi, diretor artístico da USP Filarmônica: “Será um concerto importante e envolvente” – Foto: André Estevão

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Para Ricciardi, há um equívoco quando se fala em música popular brasileira (MPB). “Minha escola de pensamento não considera a palavra MPB, isso é uma distorção ideológica. Não existe uma MPB, o que existe é uma tradição da música popular brasileira muito plural, muito diversificada, desde o final do século 18”, afirma. “Por MPB temos que parar de entender só esse segmento redutivo da indústria da cultura, em um determinado momento da história da música do Brasil, e entender a pluralidade.” Segundo ele, a palavra MPB é uma construção tardia, e anula toda a riqueza da história da música popular brasileira. Ele cita como exemplos compositores do século 18 e toda a tradição das modinhas, o canto popular e os lundus do século 19. O maestro também comenta que os modernistas não inventaram a brasilidade. “Embora Mário de Andrade pertença a essa geração, toda a construção de Viola Quebrada, do ponto de vista melódico e harmônico, é uma música antiga, que evoca uma tradição que vem do período colonial, inclusive na maneira como ele escreveu, com a grafia arcaica.”

O programa continua com a peça Amor em Lágrimas (1958), de Claudio Santoro (1919-1989), com orquestração de Ricciardi e novamente solo da mezzo-soprano Marcela Rahal. “Todo mundo conhece Tom Jobim como parceiro de Vinicius de Moraes, poeta da bossa nova, mas ninguém sabe que antes disso ele escreveu um ciclo de canções com Claudio Santoro. Inclusive, foi Claudio Santoro que apresentou Tom Jobim ao Vinicius de Moraes. Santoro antecipa a bossa nova e já tem um canto brasileiro dessa geração do século 20, com uma harmonia bastante sofisticada.” Ricciardi escreveu a versão sinfônica, em uma orquestração inédita, e já adianta que em 2019 vai fazer a orquestração na íntegra de todo o ciclo, pensando na comemoração dos cem anos de Claudio Santoro.

Encerrando o concerto, será executada Noite Feliz (1818), de Franz Gruber (1787-1863) – a única composição dentro do contexto do Concerto de Natal da Reitoria –, com um dueto da soprano e docente da FFCLRP Yuka de Almeida Prado e da mezzo-soprano Marcela Rahal, e também em edição do NAP Cipem. “Existem centenas de arranjos de Noite Feliz, mas fizemos uma edição crítica do autógrafo de Franz Gruber, e a versão que vamos apresentar é a única autêntica do compositor. Não é um arranjo, é uma versão rara, que ninguém toca”, conta. “Vamos apresentar Noite Feliz, mas com viés de pesquisa, contribuindo com o conhecimento, já que essa versão ficará disponível em sites nacionais e internacionais.” Como o maestro explica, a filosofia atual de muitos profissionais do Brasil, principalmente aqueles atrelados a universidades, é a de disponibilizar toda a produção de partituras livremente na internet. “Será um concerto importante e envolvente”, finaliza.

O Concerto de Natal acontece nesta quarta-feira, dia 12 de dezembro, a partir das 12h30, no Auditório do Centro de Difusão Internacional (CDI) da USP (Avenida Professor Lúcio Martins Rodrigues, s/n°, Cidade Universitária, em São Paulo). A entrada é gratuita.

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