Universidade leva a experiência digital para o Carnaval

Aplicativo para celular vai mostrar passista virtual em desfile deste ano da Escola de Samba Rosas de Ouro

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Lançamento do enredo da Escola de Samba Rosas de Ouro para o Carnaval 2020, em 29 de setembro de 2019: tecnologias digitais vão ser destaque no desfile deste ano em São Paulo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Que o Carnaval tem uma magia especial, todos sabemos. Mas agora, graças a uma parceria entre universidades e faculdades de São Paulo e a Escola de Samba Rosas de Ouro, essa magia vai entrar também no mundo digital. É o que propõe o desfile deste ano da escola fundada em 1971 na Brasilândia – zona norte paulistana -, cujo tema é a Quarta Revolução Industrial, ou Indústria 4.0, como está sendo chamada. Para isso, a USP, o Instituto Mauá de Tecnologia, a Faculdade de Engenharia Industrial (FEI) e outras instituições de ensino e pesquisa estão desenvolvendo, juntas, uma nova experiência para o desfile de 2020 da Rosas de Ouro, que une o real ao digital por meio da realidade aumentada. Essa parceria entre a escola de samba e a academia propõe incluir o Carnaval na revolução digital, e transformar também a festa em 4.0.

Por meio de um aplicativo para smartphone, o público poderá interagir com o desfile por meio do aparelho. Se você já jogou “Pokémon Go!”, já sabe como funciona a realidade aumentada, que mostra imagens virtuais sobre a imagem da câmera do celular. Diferentes pontos da apresentação trarão códigos que, ao ser escaneados pelo celular, vão mostrar elementos virtuais do desfile, sobrepostos às imagens reais. É o caso do terceiro carro do desfile da Rosas de Ouro, desenvolvido em parceria com o Laboratório de Arte, Mídia e Tecnologias Digitais (LabArteMidia) do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Em vez de passistas, o carro trará um código para ser escaneado pelo app. Ao apontar a câmera do celular na direção do veículo, a passista então aparecerá na tela, sambando em cima do carro no lugar do código.

Um dos professores que ajudaram a desenvolver a tecnologia usada no desfile é Almir Almas, coordenador do LabArteMidia, que participou do desenvolvimento do carro 3 da Rosas de Ouro. Ele explica que, para obter esse efeito, a passista da escola foi levada a um estúdio da ECA, onde foi gravada para ter sua imagem inserida na plataforma do aplicativo.

Ensaio da Escola de Samba Rosas de Ouro, em setembro de 2019: escola foi fundada em 1971 na Brasilândia, zona norte da capital paulista – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Para Almas, o carro ainda traz um tema que tem tudo a ver com a sua participação, o Audiovisual na Indústria 4.0. “Toda essa revolução que está acontecendo agora é intrinsecamente audiovisual. Realidade aumentada e virtual, tecnologias que representam a nova indústria, são produtos audiovisuais.” A alegoria vai fazer referências a Os Jetsons, desenho animado futurista criado nos anos 60 nos Estados Unidos, que representava a forma como se imaginava o futuro nos anos 60 e 70, que é hoje o nosso presente. “Vamos mostrar previsões que os Jetsons fizeram, o que acertaram e o que não aconteceu também”, antecipa o professor. “A própria fantasia dos foliões é feita para lembrar um robô.”

Segundo o professor, o lançamento do aplicativo está previsto para uma data mais próxima do Carnaval, “na semana ou até mesmo no dia do desfile”. Almas declara que são quase 200 pessoas trabalhando na parceria entre as universidades e a escola de samba, incluindo o carnavalesco da Rosas de Ouro André Machado, que planejou os carros e fantasias do desfile deste ano.

Outro projeto do LabArteMidia é um documentário sobre o desfile, gravado com uma câmera especial que captura imagens em 360 graus, com o objetivo de imergir o espectador no desfile, que poderá ser explorado de todos os ângulos.

Almas conta que tecnologias como a realidade aumentada são estudadas na ECA pelo menos desde 2002, quando iniciou sua pesquisa na USP. A primeira disciplina sobre o tema foi inaugurada em 2009, sob o nome de Mídias Interativas, e se desenvolve desde então.

Outras faculdades vão entrar no desfile com diferentes funções. O robô sambista RoxP4, que também faz parte do projeto em realidade aumentada, por exemplo, teve desenvolvimento da Mauá, além das tecnologias para melhorar o monitoramento do desfile. A FEI entra com seu próprio robô sambista, mas esse é de verdade, e vai dançar na avenida no dia do desfile. Faculdades como a Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP e Insper também participam do projeto, entrando na parte logística.

A Escola de Samba Rosas de Ouro: pesquisas de ponta na área da realidade virtual aplicadas ao Carnaval – Foto: Cecília Bastos/USP Imagem

Mas, e se você esquecer de levar seu celular para o desfile? Para Almas, nada está perdido. “Estamos oferecendo uma experiência digital. A experiência do Carnaval ainda vai estar lá. O que nós fizemos foi adicionar uma camada interativa por cima dela.” O professor explica que, além de os atributos digitais serem exclusivos à Rosas de Ouro, eles serão um complemento ao desfile em si, que ocorrerá normalmente com suas alas e alegorias. “Os carros vão estar lá, mas com esse bônus da realidade aumentada.”

Não é só a Rosas de Ouro que ganha com essa parceria, como explica a professora Jane Marques, do curso de Marketing da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, que trabalha na comunicação entre as diferentes partes do projeto – a universidade, a escola e as empresas privadas que o auxiliam. Para ela, o intercâmbio de conhecimento tem gerado frutos valiosos para a USP. “Quando fazemos um projeto desses, as faculdades não trabalham separadas, há uma troca de propostas constante entre as equipes. Ninguém trabalha sozinho.”

Jane destaca ainda que levar a pesquisa para uma festa popular como o Carnaval aproxima a Universidade do público. “Neste projeto estão envolvidos acadêmicos com pesquisa de ponta nessas áreas, que agora podem mostrar seu potencial.” Para ela, o conhecimento não serve apenas para a academia, e essa é uma oportunidade de levá-lo para a comunidade. Se tudo continuar como procede essa aliança entre universidades e sociedade, Jane a vê acontecendo muito mais no futuro. “Não tem como retroceder, só há ganhos nessa relação”, conta. “A tecnologia, que é fruto da pesquisa, serve à sociedade. Tenho certeza de que o próximo carnaval será ainda mais digital.”

PARA SABER MAIS

Matéria do Jornal da USP sobre a Indústria 4.0:

https://jornal.usp.br/tecnologia/4a-revolucao-industrial-rompe-limites-entre-digital-fisico-e-biologico/  

Entrevista do professor Marcos Barreto, da Escola Politécnica da USP, e da diretora da Rosas de Ouro, Angelina Basílio, concedida à Rádio USP (93,7 MHz), sobre a Indústria 4.0 e o desfile da Escola de Samba Rosas de Ouro no Carnaval 2020:

https://jornal.usp.br/radio-usp/jornal-da-usp-no-ar/rosas-de-ouro-e-baterias-da-usp-celebram-carnaval-4-0/

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