Uma homenagem à irreverência impressa e à resistência

Mostra no Sesc Ipiranga relembra os 50 anos de criação de “O Pasquim”, o jornal que, com o talento e a ousadia de um grupo seleto de jornalistas, incomodou muito a ditadura

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Marcello Rollemberg


 

Ouça no link abaixo entrevista com a curadora da exposição O Pasquim 50 Anos, Daniela Thomas, apresentada no programa Via Sampa, da Rádio USP (93,7 MHz), no dia 22 de novembro de 2019.

A exposição Pasquim 50 Anos, em cartaz no Sesc Ipiranga, em São Paulo – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Nunca houve um jornal como O Pasquim. Na história da imprensa escrita brasileira talvez aquela experiência de unir talento, deboche, boas histórias, convidados escolhidos a dedo e sem papas na língua tenha sido única. Até porque não era exatamente para dar certo. Afinal, quando o jornalista Tarso de Castro e o cartunista Jaguar se uniram para criar o jornal, ninguém achava que ele iria vingar. Tanto que Jaguar queria uma tiragem inicial de não mais que 5 mil exemplares. A primeira fornada foi muito além: 14 mil exemplares, vendidos em dois dias. Rodaram, na gráfica do hoje extinto Correio da Manhã, mais 14 mil. Todos vendidos. No seu apogeu, a tiragem chegou a impensáveis 200 mil exemplares. Aquele jornal, cujo título quer dizer “jornal difamador, folheto injurioso” e havia sido criado por Jaguar justamente para matar a crítica no nascedouro (“quero ver do que vão nos xingar agora”, teria dito), não só deu muito certo. Fez história.

Justamente para relembrar e celebrar essa história de sucesso, prisões, contracultura na veia, com um ipanemismo arrebatador e reuniões de pauta regadas a doses industriais de uísque, o Sesc Ipiranga acaba de inaugurar a exposição O Pasquim 50 Anos. Nela, há uma imersão no universo do jornal, com 33 totens que reproduzem em tamanho natural os colaboradores mais importantes, além de 26 rotativas de diversos trabalhos publicados. Isso, sem se falar na ala chamada de “A gripe do Pasquim”, uma referência irônica à prisão da cúpula do jornal, em finais de 1970.

A equipe do Pasquim que incomodou os militares durante a ditadura – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Sem se saber exatamente a razão – ou porque ela era óbvia demais -, de uma ceifada só foram presos Paulo Francis (que lia Freud de cuecas na cela), Jaguar, Tarso de Castro, Ziraldo (que passava o tempo caçando baratas), Sérgio Cabral (que ouvia pacientemente as músicas que a soldadesca cometia), o cartunista Fortuna, Luiz Carlos Maciel, o fotógrafo Paulo Garcez e o artista gráfico Haroldo Zager. Ou seja, 70% da redação. Quem escapou, os cartunistas Millôr Fernandes, Miguel Paiva e Henfil e a jornalista Martha Alencar, tocou o jornal. Quando todos foram soltos, em fevereiro de 1971, a desculpa irônica para o sumiço da trupe foi que todos haviam ficado “gripados”.

“Era um ambiente muito festivo e eu, criança, ficava com medo de que meu pai não quisesse mais voltar para casa”, confessou ao jornal O Estado de S. Paulo a cineasta e coreógrafa Daniela Thomas, responsável pela expografia da mostra, ao lado de Felipe Tassara e Stella Tennenbaum. Ah, sim: o pai de Daniela, aquele que ela temia não querer voltar para casa, é Ziraldo. Ela tinha lá suas razões – até porque seu tio, o jornalista e artista gráfico Zélio Alves Pinto, também zanzava cotidianamente pela redação.

Capas do jornal em exposição no Sesc Ipiranga: legado de entrevistas, cartuns e frases que ressoam até hoje – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

 

72 palavrões

A história do Pasquim se fez ao longo de 22 anos, ou exatas 1.072 edições. Já sem seus colaboradores iniciais, o jornal minguou ao longo dos anos 1980 até ganhar um ponto final em 1991. Mas já tinha alcançado toda a fama a que seus relutantes criadores duvidaram que pudesse chegar. Mais do que um jornal alternativo, O Pasquim (que ao longo do tempo perdeu o artigo do título) foi O jornal alternativo por excelência, o que não o impediu – pelo contrário – de fustigar a ditadura militar e dar muitas dores de cabeça aos militares no poder, gente sabidamente sem muito bom humor naqueles tempos.

Porque o bom jornalismo praticado por aqueles escribas vinha aliado a muito deboche e ousadia. O que pode ser checado hoje no site da Biblioteca Nacional (www.bn.gov.br), que tem todas as edições do jornal digitalizadas. A começar pelo primeiro e histórico número, que trouxe o colunista Ibrahim Sued na grande entrevista inaugural – as longas entrevistas, publicadas sem edição, se tornaram marca registrada do Pasquim. Ibrahim, que ainda se intitulava “colunista social”, tropeçava na língua, muitas vezes maltratava o idioma, mas era um jornalista muito bem informado e com tiradas que se tornaram clássicos, como o “ademain que vou em frente”, ao se despedir, ou “bomba, bomba” quando tinha um furo de reportagem. E na sua entrevista ao jornal – intitulada “Sou imortal sem fardão” – ele deu seu furo: foi nas páginas do Pasquim que os brasileiros souberam, em primeira mão, que Emílio Garrastazu Médici seria o novo ditador de plantão.

A liberal e desbocada Leila Diniz, em fotografia de maio de 1971 – Foto: Arquivo Nacional / Fundo Correio da Manhã
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Outra entrevista icônica, que acaba de completar meio século, foi com a atriz Leila Diniz. Linda, desbocada e liberal demais para aqueles tempos bicudos – sua foto grávida e de biquíni causou furor -, Leila não se fez de rogada: falou, ao longo da entrevista, 72 palavrões, devidamente “camuflados” na edição com asteriscos e sinais gráficos. Mas todo mundo entendeu o que ela queria dizer. A censura também – e manteve um censor de plantão na redação até 1975.

Ratinho Sig – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Mas mesmo com o tacão federal pairando acima de suas cabeças, o pessoal do Pasquim não arrefeceu e deixou um legado de entrevistas, cartuns e frases que ressoam até hoje. Como o ratinho irreverente Sig, criado por Jaguar. Ou como aquelas que, a título de aforismos, apareciam na seção “Gip gip, nheco nheco”. Criadas pelo jornalista Ivan Lessa, que mais tarde se mudaria de malas e bagagens para Londres – como Francis foi para Nova York -, elas eram uma alfinetada bem dada na hipocrisia que reinava por estas bandas. “No Brasil, morre-se muito de médico”, dizia uma. E uma outra, esta ainda mais célebre, já que é miseravelmente atual, posto que quem não tem uma visão histórica dos fatos acaba tendo uma visão histérica deles: “A cada 15 anos, os brasileiros se esquecem o que aconteceu nos últimos 15 anos”.

A exposição O Pasquim 50 Anos fica em cartaz até 12 de abril de 2020, de terça a sexta-feira, das 9 às 21h30, sábados, das 10 às 21h30, domingos e feriados, das 10 às 18h30, no Sesc Ipiranga (Rua Bom Pastor, 822, no Ipiranga, em São Paulo). Entrada grátis.

 


Marcello Rollemberg é editor de Cultura do Jornal da USP

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