Uma exposição feita para ouvir música

Interativa, “Sons de Silício” fica em cartaz até dezembro no Centro Universitário Maria Antonia da USP

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Sons de Silício, exposição de arte sonora, traz obras interativas que prometem fazer sucesso com o público – Foto:Paulo Assis

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Artes visuais? Ciência da computação? Arte sonora? Sim – para todas as perguntas. A exposição Sons de Silício reúne experimentações sonoras na fronteira das artes, da música e das ciências, incluindo performances e oficinas. Inaugurada no dia 13 passado, a mostra fica em cartaz até 15 de dezembro no Centro Universitário Maria Antonia da USP. Ela é realizada graças a uma parceria entre o Grupo de Práticas Interativas do Núcleo de Pesquisas em Sonologia (GPI-NuSom) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e o InterSCity, projeto interdisciplinar que desenvolve pesquisas sobre cidades inteligentes.

Sons de Silício integra a série ¿Música?, organizada desde 2005 pelo NuSom, que vem refletindo as pesquisas desenvolvidas pelo grupo em luteria digital (termo que se refere à construção de instrumentos), instalações interativas, design sonoro e criações artísticas. Segundo Cristiano Figueiró, um dos curadores do NuSom, o grupo vem trabalhando a concepção de música de forma expandida, ou seja, em uma perspectiva de arte sonora.

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Obra criada com diversos tipos de materiais – Foto: Paulo Assis

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Em sua segunda edição – a primeira aconteceu em abril no Espaço das Artes da ECA, na Cidade Universitária –, a mostra reúne instalações sonoras e interativas e ambientes imersivos, incluindo novas obras. Nela, o instrumento musical se torna máquina, dispositivo, arranjo, escultura, sistema interativo, estrutura ressonante, meio para explorar a informação, extensão do corpo, circuito, escultura, canal e experimento.

Muitas das obras estão estruturadas a partir do processo de sonificação, que consiste em transformar dados em sons. Destaque para Buzu (2019), com autoria de Júlian Jaramillo, Esteban Viveros e Fernando Iazzetta, e desenvolvida com a contribuição do projeto InterSCity. É uma imagem acústica dos dados gerados pelos sistemas de transporte da SPTrans (responsável pela gestão do transporte público por ônibus na capital paulista). Segundo o curador Cristiano Figueiró, foi realizado um mapeamento e análise de dados das linhas de ônibus, comparando o tráfego em um dia de feriado e um dia comum de semana, e é essa diferença que gera uma série de construções sonoras. Ele ainda informa que foi criado um software específico para essa obra, que será publicado no Simpósio Brasileiro de Computação Musical, a ser realizado de 25 a 27 de setembro, em Minas Gerais.

O curador cita também a obra coletiva Reverberações Silenciadas (GPI NuSom), uma mola de aço industrial pendurada que se movimenta através do som gerado a partir da leitura dos nomes de todos os desaparecidos durante a ditadura militar (1964-1985). “É como se fosse uma escultura viva, em que o público não vai ouvir o som, mas poderá ver os movimentos que remetem a uma onda sonora”, diz Figueiró, informando ainda que a obra dialoga com a chamada “Batalha da Maria Antonia” – conflito entre estudantes da USP e da Universidade Mackenzie, ocorrido em 1968 na rua Maria Antonia – e com todo o acirramento político daquela época.

Destaque ainda para outras duas obras. A imersiva e tridimensional Readline, de Fábio Martinelli, inspirada em experimentos de física, em que o visitante entra numa caixa preta e, ao bloquear os filetes de laser, dispara sons que vão reverberando no espaço, e Risicare, de Vitor Kisil, um instrumento musical robô que se movimenta, criado a partir de canos de alumínio, motores, arco de violino e uma baqueta, e produz um som de riscado ou arranhado.

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Além das instalações sonoras, haverá performances no espaço expositivo – Foto: Paulo Assis

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Construindo sons e instrumentos

Na programação da exposição estão a performance/instalação Batata Musik, com Pedro Nonino – uma plataforma de síntese interativa em que vegetais, sensores de luz e outros controladores são utilizados como partes de um sintetizador analógico, que tem seu som coletado e processado por um computador, revertendo e projetando o som em forma de espectrograma em diversos objetos e espelhos (dia 18 de outubro) – e as apresentações do Duo Cóz e do Trio Maomã, inspirados na livre improvisação musical (8 de novembro).

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Público vai poder interagir com as obras – Foto: Paulo Assis

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Dirigida especialmente para as crianças, público não usual de apresentações de música eletrônica e experimental, M.e.M.e.M – Música Eletrônica Mitigante Experimental para a Mocidade é apresentada pelos compositores e artistas sonoros DeCo Nascimento e Vitor Kisil. Influenciados pelo trabalho desenvolvido em Soothing Sounds for Baby (conjunto de três volumes de música eletrônica do compositor americano Raymond Scott), apresentam uma peça dividida em três partes utilizando sintetizadores analógicos e digitais como matéria-prima para a criação sonora experimental (dia 22 de novembro).

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Relação entre arte, música e ciência está presente nos experimentos sonoros – Foto: Paulo Assis

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No encerramento da mostra, em dezembro, será apresentado Captador, do curador Cristiano Figueiró, um instrumento com vários pontos de exploração, em que o público navega por um universo sonoro. A performance dialoga com a obra homônima presente na mostra, uma rádio que reúne composições sonoras também em homenagem aos desaparecidos durante a ditadura militar, e que poderá ser sintonizada em FM (no fone disponível na obra ou através do celular), somente no Centro Universitário Maria Antonia. Ao longo dos três meses da mostra, novas composições serão incorporadas à programação da rádio.

Ponto de encontro e reflexão, a mostra inclui várias oficinas. No dia 28 de setembro, das 15 às 18 horas, a banda Laikabot ministra a oficina Theremino, na qual os participantes vão construir um theremin digital, utilizando um arduino (plataforma de prototipagem eletrônica de hardware), desde a preparação do sintetizador sonoro até o desenvolvimento de interfaces entre instrumento e pessoa. E o grupo NuSom também apresenta o HackLab GPI, um laboratório aberto de criação de pedais de processamento com raspberry pi 9 (um minicomputador de baixo custo que tem o tamanho de um celular, mas com capacidade para processamento de áudio).

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Microfones, fones de ouvido e outros equipamentos poderão ser utilizados pelos visitantes – Foto: Paulo Assis

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Fechando a mostra, no dia 5 de dezembro, das 18h30 às 21 horas, serão realizados mais dois cursos: Luteria Digital Experimental com a Biblioteca Else para Pure Data, com Alexandre Torres Porres, dedicado a um trabalho de pesquisa sobre um software para criação musical, e Sample Flipping: Criação Musical Transformando Arquivos de Áudio, com Henrique Rocha de Souza Lima, oficina prática com sampler para a realização de gravações de áudio e processamento para gerar materiais musicais que serão utilizados para a criação de uma peça musical.

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A exposição Sons de Silício fica em cartaz até 15 de dezembro, com visitação de terça-feira a domingo e feriados, das 10 às 18 horas, no Centro Universitário Maria Antonia, Edifício Rui Barbosa (rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque). Entrada grátis. Mais informações sobre as performances e oficinas podem ser obtidas pelo telefone (11) 3123-5202 e no Facebook

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