“Um escritor não pode discriminar palavras”

Era o que dizia Rubem Fonseca, autor de livros como “Feliz Ano Novo” e “Agosto”, que morreu aos 94 anos

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O escritor Rubem Fonseca, que morreu no dia 15 – Foto: Divulgação/Zeca Fonseca

Em 1942, quando escreveu seu primeiro livro, o jovem José Rubem Fonseca – então com 17 anos – recebeu uma acolhida nada agradável de um editor. Chocado com a quantidade de palavrões e com a crueza do texto, o editor (cujo nome se perdeu no tempo) recusou a obra. Aquilo, no entanto, ficou longe de assustar ou inibir o escritor iniciante: deixando o “José” de lado e mantendo os tais palavrões perturbadores, a crueza textual, a linguagem direta, histórias bem temperadas de erotismo e violência, Rubem Fonseca se tornou um dos maiores autores brasileiros do século 20. Para o crítico e professor aposentado da USP Alfredo Bosi, seu estilo era “brutalista”. Ao morrer no último dia 15 de infarto, aos 94 anos – faria 95 em 11 de maio –, Rubem Fonseca deixa um legado de renovação da literatura brasileira difícil de ser equiparado, traduzido em livros como nos contos de Lúcia McCartney (1969) e Feliz Ano Novo (1975) e nos romances A Grande Arte (1983), Vastas Emoções e Pensamentos Imperfeitos (1988) e Agosto (1990), este último sobre uma trama que teria levado Getúlio Vargas ao suicídio.

E que não se veja seus 77 anos de carreira literária e 30 livros – iniciada oficialmente em 1963, com o volume de contos Os Prisioneiros – como uma apologia à violência. Nada mais fora de contexto e simplista. Como explicou a escritora e ex-presidente da Academia Brasileira de Letras Nélida Piñon em entrevista à Globonews no dia de sua morte: “Ele defendia o patrimônio ético da humanidade. Ele soube traduzir o bem e o mal da literatura, era um moralista. Mas disfarçava muito bem esse seu moralismo”.

Na verdade, boa parte do trabalho de Fonseca acabou tendo por inspiração o tempo em que ele passou como comissário de Polícia no Rio de Janeiro, no início dos anos 1950. Mineiro de Juiz de Fora, o escritor se mudou com a família para o Rio aos 8 anos de idade, e lá fez seus estudos, se formou em Direito e foi trabalhar na Polícia carioca. Ficou até 1958, mas muitos dos fatos vividos na época e histórias de seus companheiros policiais foram parar nas páginas de seus livros que, de várias maneiras, traduzem como poucos a alma carioca – com tudo o que de bom ou ruim isso possa significar.

Censura e reclusão

Autor de Feliz Ano Novo, entre outras grandes obras, Rubem Fonseca marcou a literatura brasileira – Imagem: Divulgação/Zeca Fonseca

Talvez um dos livros mais conhecidos de Rubem Fonseca seja Feliz Ano Novo. Não só pelas cenas explícitas de violência e erotismo – o conto Passeio Noturno, sobre um motorista que exalta as formas sensuais de seu carro e se diverte à noite atropelando pessoas são uma boa tradução disso –, mas também porque o livro acabou censurado pelo então ministro da Justiça Armando Falcão, aquele que não tinha nada a declarar mas muito a censurar. Considerado “atentatório à moral e aos bons costumes”, a obra foi proibida, em 1976, de circular e de ser publicada e só foi liberada com o fim da censura, no final dos anos 1970 e começo dos anos 1980.

Fonseca também tem o mérito de resgatar um gênero que muitos consideram menor dentro da literatura – o romance policial, tendo como protagonista de muitos deles o cínico, amoral e mulherengo advogado e detetive Mandrake. O personagem aparece em obras como A Grande Arte e Mandrake, a Bíblia e a Bengala, este de 2005. Para esta escolha estilística, Rubem Fonseca tinha uma explicação direta, que se aplica hoje, sem ressalvas: “O romance policial é a única forma de explicar e entender o Brasil”.

Mas este tradutor da violência urbana e da solidão das grandes cidades – os verdadeiros personagens de seus livros – era um recluso. Ao melhor estilo J.D. Salinger – o autor americano de O Apanhador no Campo de Centeio, igualmente avesso à exposição pública –, Fonseca quase nunca era visto em público ou passeando pelo seu Rio de Janeiro despreocupadamente. Quando, anos atrás, ele foi flagrado passeando de bicicleta com o amigo e jornalista Zuenir Ventura – que o chamava, com intimidade, de “Zé Rubem”  –, o registro causou furor na imprensa carioca.

No entanto, esse homem de pouquíssimas palavras e aparições em público era tido na intimidade como divertido e respeitoso. Adorava o vinho português Periquita – que fazia questão de incluir em suas histórias – e não entendia o porquê de tanta celeuma com os palavrões em seus trabalhos. “Escrevi 30 livros. Todos cheios de palavras obscenas. Um escritor não pode discriminar as palavras, a não ser que ele vá escrever um livro infantil”, explicou ele durante a cerimônia de entrega do Prêmio Machado de Assis, da ABL, em 2015. Fonseca recebeu o prêmio justamente pelo conjunto de sua obra e foi quase intimado por Nélida Pinõn a ir à cerimônia e a não ficar calado durante o evento. Naquele dia, ele falou muito. Surpreendentemente.

E foi justamente Nélida que talvez tenha melhor explicado o que representa a morte de Fonseca: “A sensação que tenho é que o Brasil está sofrendo uma sangria. E o País não pode continuar a perder seus grandes nomes”.

 

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