Tragédia latina “Otávia” ganha leitura dramática

Evento em homenagem à professora Zélia de Almeida Cardoso será nesta terça-feira, dia 10, às 14 horas, no Youtube

 09/08/2021 - Publicado há 4 meses
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A professora Zélia de Almeida Cardoso, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, que morreu no dia 10 de julho passado – Arte por Rebeca Alencar com imagens de PNG Wing e FFLCH-USP

Uma leitura dramática da peça latina Otávia será feita nesta terça-feira, dia 10, às 14 horas, pelo Grupo de Pesquisa Estudos sobre o Teatro Antigo, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A tradução dessa peça foi o último trabalho publicado pela professora Zélia de Almeida Cardoso, docente titular de Língua e Literatura Latina da FFLCH, que morreu no dia 10 de julho passado, aos 87 anos. “Surpreendidos pela morte da professora Zélia, os membros do grupo de pesquisa, fundado em 2002 por iniciativa dela, tiveram a ideia de homenageá-la com a leitura dramática dessa peça”, afirma a professora Adriane da Silva Duarte, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH, responsável pelo evento, que terá transmissão via Youtube. “Todo tradutor se faz presente nos textos que traduz, nas suas escolhas, então, é natural tornar viva sua memória através desse seu último trabalho.” A peça foi lançada em março passado pela Editora Madamu, com introdução e tradução direta do latim pela professora Zélia. 

A professora Zélia de Almeida Cardoso com seu último trabalho, a tradução direta do latim de Otávia, do Pseudo-Sêneca – Foto: Acervo Pessoal

“É uma leitura afetuosa, como chamamos o evento, porque Zélia fará muita falta. Era muito ativa e presente, participando das reuniões e eventos que organizamos periodicamente”, destaca Adriane, lembrando que, como professora de Língua e Literatura Latina, Zélia formou gerações de latinistas, dos quais boa parte atua hoje em universidades brasileiras. “Ela é uma referência para os estudos clássicos no Brasil e deixou um importante legado, sobretudo no que diz respeito ao estudo do teatro latino”, acrescenta a professora (leia mais sobre a trajetória de Zélia de Almeida Cardoso no texto abaixo).

A tragédia

Otávia é um raro exemplo de tragédia histórica, ou seja, peças cuja trama tem por base personagens e acontecimentos históricos e não míticos, estes últimos predominantes no teatro grego e latino”, informa Adriane. O enredo gira em torno de Otávia (40-62 depois de Cristo), filha do imperador Cláudio e de Messalina e primeira esposa de Nero. Desejoso de desposar Popeia, Nero manda exilar Otávia e ordena sua morte, para indignação do povo romano, representado pelo coro.

“O filósofo e escritor Sêneca (morto em 65 depois de Cristo), tutor de Nero, é personagem da tragédia, cuja autoria lhe foi atribuída pela tradição, não só pelo fato de ele ter sido testemunha dos fatos, mas por ser o maior tragediógrafo latino, o único com tragédias integralmente preservadas. Hoje, contudo, a autoria é amplamente contestada e, por isso, normalmente é referida a Pseudo-Sêneca, o que não tira o mérito literário do texto”, comenta Adriane.

Como se lê na sinopse do livro, Otávia se situa na raiz da teatrologia ocidental baseada em fatos da história romana, representando o ponto inicial de uma tendência que iria se desenvolver durante a Idade Média, atingindo o Renascimento, para florescer com a dramaturgia elisabetana e com o seiscentismo francês, chegar ao século 18 e permanecer durante o Romantismo, o Realismo e o Modernismo, quando autores de peças teatrais e de textos e roteiros a serem utilizados em produções cinematográficas se ocuparam de temas referentes à história de Roma, sob seus múltiplos aspectos.

Cartaz do evento em homenagem à professora Zélia de Almeida Cardoso – Foto: FFLCH/USP

 

A leitura dramática Otávia, de Sêneca – Uma Leitura Afetuosa para Zélia de Almeida Cardoso, acontece nesta terça-feira, dia 10, às 14 horas, com transmissão pelo canal do Youtube da FFLCH. Grátis. Não é necessário fazer inscrição. Mais informações estão disponíveis neste link.

 

Professora fundou grupo de estudos sobre teatro antigo

Zélia Ladeira Veras de Almeida Cardoso (1934-2021) nasceu em São Paulo. Licenciou-se em Letras Clássicas em 1957 pela USP, onde também obteve os títulos de Doutora em Letras e Livre-Docente em Literatura Latina. De 1979 a 2012, foi professora titular de Língua e Literatura Latina do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas e do Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH). Em 2002, fundou o Grupo de Pesquisa Estudos sobre o Teatro Antigo, que reúne docentes, pesquisadores e alunos de diversas universidades brasileiras e tem como objetivo o estudo do teatro greco-latino. O grupo é certificado pela USP e pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e filiado à Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos (Sbec).

O Romance Paulista no século XX, uma das obras da professora Zélia de Almeida Cardoso – Foto: Reprodução

Deixou uma centena de publicações, entre livros, capítulos de livros, artigos em periódicos científicos, revistas, jornais e atas de congressos, e participou de inúmeros eventos em universidades do Brasil e do exterior. Dedicava-se à literatura latina, especialmente ao teatro (Sêneca e Plauto) e à poesia elegíaca (Tibulo, Propércio e Ovídio). A professora morreu no dia 10 de julho passado, dois dias após completar 87 anos, deixando filhos e netos “e também muitos profissionais formados por ela, que hoje atuam como docentes e pesquisadores em universidades públicas espalhadas por todo o País”, como afirma o professor Marcos Martinho dos Santos, da FFLCH, em nota de falecimento divulgada pela direção da faculdade.

Como ainda lembra Santos, a professora foi a primeira formanda do Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas da FFLCH, que acaba de completar 50 anos de existência, no qual a professora ocupou um lugar de honra. Ainda na nota, o professor fala da atuação de Zélia fora da USP: “Participou, em 1985, da criação da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos, filiada à Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e à Fédération Internationale des Associations d’Études Classiques, de que foi sócia honorária e também presidente (1995-1997)”. E termina falando de sua paixão pelo teatro, como “frequentadora assídua das salas de teatro, já que este era para ela objeto de pesquisa, bem como de fruição. Como diz uma das peças que ela conhecia bem, o mundo todo é um palco, no qual somos meros artistas, temos nossas entradas e saídas, desempenhamos muitos papéis, cada um a seu tempo”.


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