The long and winding road – ou os Beatles depois dos Beatles

Com a separação da banda, que teve como ponto final o desigual “Let it be”, John, Paul, George e Ringo seguiram seu caminho. Com sucessos e tragédias

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Fotomontagem: Jornal da USP/Luana Franzão

Quando um sonho começou a acabar? Ou quando ele acabou? Um sonho como aquele, da paz e do amor e da Era de Aquarius, não acaba assim de repente, como quando despertamos e seguimos em frente. Não. Um sonho como aquele tem vários epílogos e, também, vários entreatos mundo afora – menos no Brasil, talvez, onde se vivia um pesadelo fardado. O sonho pode ter começado a acabar com dois tiros: um, matando Martin Luther King em abril de 1968; outro, ceifando Robert Kennedy, dois meses depois. Ou quando a gangue alucinada de Charles Mason invadiu a casa de Sharon Tate, em agosto de 1969, massacrou a atriz e seus amigos e escreveu com sangue o título de uma música dos Beatles – Helter skelter – na parede. Ou, ainda, quando, no prazo de um ano, entre 1970 e 1971, três ídolos do rock morreram de overdose: Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison. Um sonho assim morre devagar.

E o sonho Beatle, que ajudou a arquitetar tudo aquilo que conhecemos como “Anos 60”, teve vários finais. Desde o momento em que John, Paul, George e Ringo deixaram de se ver como uma entidade única e passaram a buscar seus próprios caminhos – o que levou John a desistir da banda em 1969, mas sem divulgação pública – até a famosa e atrapalhada declaração de Paul em 10 de abril de 1970, respondendo a uma pergunta sobre a possível dissolução dos Beatles: “Sim, nós não tocaremos juntos novamente”. E, em meio a tudo isso, eles criaram uma obra-prima – Abbey Road – e engendraram um problemão chamado Let it Be.

O disco foi lançado oficialmente em 8 de maio de 1970, quando a banda já era lembrança e saudades. E, mais do que um réquiem ao maior grupo de rock de todos os tempos, acabou se tornando um atestado de como os sonhos, antes de morrer, desmoronam. Let it be foi um equívoco desde o primeiro momento, um apelo desesperado de Paul para manter o grupo unido e recebido com narizes torcidos pelos outros três – assim como tinha sido a ideia dele de os quatro entrarem em um furgão e, disfarçados sob o nome improvável de “Rikki and the Red Streaks”, caírem na estrada e se apresentarem em salões de vilarejos. Mas se a proposta da caminhonete vagando sem rumo foi logo rechaçada, a possibilidade de gravarem o disco acabou sendo considerada. Até porque parecia que podia valer a pena. Mas era só aparência.

Capa do álbum 'Let It Be' - Imagem: Divulgação

Afinal, como já foi dito há pouco, na verdade era um grande equívoco. Vamos pensar: coloque em um porão quatro pessoas – antes grandes e inseparáveis amigos – que mal se suportam, ligue câmeras para serem filmados enquanto tocam e se odeiam – a ideia era também fazer um documentário para a TV –, tire qualquer possibilidade de trabalhar as músicas gravadas – dando um tom de “ao vivo” e mais “raiz” a tudo aquilo –, coloque seu principal produtor em uma posição secundária desconfortável, gaste um dinheirão para fazer o melhor estúdio do mundo – sem conseguir – e torça para dar certo. Pois é. Foi exatamente com esse corolário de intenções que Let it be – inicialmente chamado de Get back – foi pensado. E não foi à toa que o disco levou mais de um ano para ficar pronto. Afinal, as gravações começaram em janeiro de 1969 – o show no telhado da Apple fazia parte do projeto original – e só finalizaram em março de 1970, quando o “cada um por si” era fato e toda a ideia original tinha virado pó.

Isso porque o engenheiro encarregado de montar o tal estúdio no porão da Apple, um grego chamado Yanni Alexis Mardas, era doido de pedra. Apadrinhado por John Lennon desde 1967, “Magic Alex” – como se intitulava – era uma eminência aloprada pairando ao redor dos Beatles e dando palpites, digamos, pouco convencionais. Foi dele a sugestão de os quatro comprarem uma ilha grega e a transformarem em uma comunidade hippie particular – não deu certo. Foi dele também a ideia de os quatro terem um “consultor espiritual” que leria o I Ching sempre que precisassem tomar alguma decisão acerca da Apple. Não foi adiante. Mesmo com essas credenciais, Magic Alex foi o encarregado de montar o estúdio.

Quando George Martin e seus auxiliares técnicos foram inspecionar o local, quase tiveram uma síncope. Para eles, “era o maior desastre de todos os tempos”: a mesa de mixagem era feita de madeira velha, os 72 canais prometidos por Magic Alex eram só 16 canais e o lugar não tinha paredes isoladas do som. “Era possível ouvir o barulho dos canos, das tubulações e o ronco do ar condicionado”, contou George Martin tempos depois. Apesar de tudo isso, os Beatles resolveram seguir adiante – queriam “ensaiar e gravar em casa” –, mas com produção de Glyn Johns, com Martin em segundo plano – o que o deixou visivelmente incomodado. Talvez não tanto quanto a frase (injusta) que John lhe disse sobre a produção do álbum: “Dessa vez queremos um disco honesto e não mais uma daquelas porcarias que você faz”. Não se fala isso para um quinto Beatle. Mas o futuro sir George engoliu em seco e fez o que podia ser feito.

George Harrison toca em estúdio - Imagem: Divulgação

As sessões de gravação pareciam não ter fim, já que incluíram centenas de músicas, desde covers até canções que seriam lançadas em álbuns solo, como Jealous guy, de John, e All things must pass, de George. As duas músicas foram recusadas para o álbum. Azar do álbum. Mas havia coisas realmente boas, como Let it be, Get back (os dois títulos que o LP teve), The long and winding road e Across the Universe. Isso, com um clima para lá de pesado. Os quatro raramente ficavam juntos, a tensão pairava como uma ameaça constante – comenta-se que Paul gravou Get back olhando fixamente para Yoko, àquela altura um corpo estranho imposto por seu marido nas sessões de gravação. Para John, aquele trabalho “era o inferno na Terra”. Já para George, “naquele período, um estava louco da vida com o outro por tudo”.

A ideia era lançar o disco em julho de 1969, mas a banda – agora já envolvida com Abbey Road – resolveu adiar para setembro e, depois, para dezembro. Nada disso. As gravações, na verdade, só foram entregues a Glyn Johns no final do ano e, mesmo assim, incompletas: em 4 de janeiro de 1970, Paul, George e Ringo – John já havia abandonado o grupo e estava mais preocupado em clamar pela paz em alguma cama do mundo – se reuniram pela última vez em estúdio para gravarem I me mine, de George. E lá foi Glyn Johns tentar acertar aquilo tudo – para, no final, saber que ninguém tinha gostado do resultado. E, com tantos problemas ao longo desse caminho tempestuoso, o projeto Get back foi deixado de lado.

Ele só foi retomado em março, quando John, unilateralmente, entregou o material ao produtor norte-americano Phill Spector – que havia produzido seu single Instant Karma –, para que ele finalizasse aquele pesadelo em forma de disco. E ele fez o que foi possível. Além de produzir toda a mixagem do álbum – agora rebatizado com o nome que entrou para a história como o 13º e último disco dos Beatles –, Spector fez suas modificações musicais: incluiu uma jam sessionDig It, e outras conversas entre as gravações, alongou I Me Mine; desacelerou e acrescentou cordas a Across The Universe e, heresia suprema, colocou cordas e coral feminino em The Long And Winding Road – o que Paul odiou. Mas John apoiou o produtor. “As fitas eram tão malfeitas, tão ruins, que ninguém se atrevia a chegar perto delas. Elas estavam tomando pó havia meses e nenhum de nós poderia enfrentar a mixagem. Spector fez um trabalho fantástico”, afirmou. A versão que Paul gostaria que tivesse saído em 1970 só chegou ao público em 2003, com o lançamento de Let it be… naked, sem todas as alterações e mixagens feitas por Spector e com consultoria de George Martin.

Ah, e o documentário? Este também seguiu seu caminho tortuoso. Pensado para a TV, acabou indo parar nas telas de cinema devido a um problema legal: os Beatles tinham um contrato de três filmes com a United Artists e descobriram que Yellow Submarine não contava como uma autêntico filme com a banda, já que era um desenho animado. A saída foi oferecer o trabalho à UA. E aí cabem duas ironias: o documentário pensado para mostrar os Beatles trabalhando acabou sendo um atestado visual do final da banda, com discussões e má vontade registradas em película. Mesmo assim, a trilha – com canções diferentes daquelas apresentadas no LP, como um cover do bolero Besame mucho – ganhou o Oscar em 1970.

Vidas compartilhadas, vidas interrompidas

Retrato de John Lennon no Hyde Park, Londres, Inglaterra, 1975 - Imagem: Rowland Scherman/Getty Images)

Calçada em frente ao Edifício Dakota, Nova York, dia 8 de dezembro de 1980.

“Mr. Lennon?”

“Yes?”

Quatro tiros. E John Lennon, aos 40 anos, estava morto, baleado pelo desempregado Mark Chapman. Se alguém ainda tinha a esperança de ver os Beatles reunidos de novo, as balas de Chapman destruíram de vez esse sonho. Mas essa pode ser uma perspectiva egoísta. O que acabou ali, naquele momento, foi a vida de um artista que estava retomando sua carreira com o lançamento do álbum Double fantasy, depois de cinco anos sabáticos para cuidar de seu filho com Yoko Ono, Sean – dando a ele a atenção que Julian nunca teve. Um artista que, em sua carreira solo, tinha criado canções como Imagine e Merry Xmas (The war is over) e estava pronto para começar de novo, como dizia (Just like) Starting over, a canção que ele escolhera para divulgar aquele que seria seu último trabalho. Mas havia quatro balas no caminho.

A história interrompida de John Lennon foi um dramático ponto fora da curva na trajetória dos Beatles depois de sua separação. Todos seguiram seu caminho musical depois do fim da banda. Ringo manteve a carreira errática, com brilharecos aqui ou ali; George teve altos e baixos, com momentos inspiradíssimos e decepções, como a condenação por plágio de seu primeiro grande sucesso solo, My sweet Lord. Produziu filmes – era grande amigo do grupo inglês Monty Phyton –, investiu em automobilismo e foi o responsável por uma ideia genial: criar a banda Travelling Wilburys, em 1988. O grupo era simplesmente formado por ele e mais quatro ícones do rock: Roy Orbinson, Bob Dylan, Tom Petty e Jeff Lynne. O primeiro disco da super-banda ganhou um Grammy. George morreu em 2001, de câncer, depois de ter sobrevivido a um ataque a faca dois anos antes, quando um desequilibrado invadiu a sua casa. Ele tinha 58 anos e suas cinzas foram jogadas no rio Ganges, na Índia.

O assassino confesso de Lennon, Mark Chapman, estampa a capa dos jornais: 'Eu sou o culpado!' - Imagem: Reprodução

Certamente, a carreira mais sólida foi a de Paul McCartney. Homem de banda, Paul criou a Wings logo depois de sua saída dos Beatles, e foi com ela que pavimentou seu novo caminho musical, com sucessos como os discos Band on the run e Wings over America – este um álbum triplo ao vivo com seus shows nos Estados Unidos. Quando a Wings se desfez, em finais dos anos 1970, ele continuou colecionando sucessos e gravando com nomes como Steve Wonder e Michael Jackson. E foi o único que se manteve efetivamente na ativa, fazendo shows hiperlotados em todas as latitudes até hoje – e em suas apresentações, a maior parte do repertório é dedicado aos sucessos dos Beatles. Em suas aparições mais recentes, um dos momentos mais emocionantes foi quando ele, em homenagem a George, tocou Something em um ukelele. O fato é que os Beatles nunca saíram da vida de Paul – tanto que foi dele a ideia de se fazer o pacote multimídia Beatles Anthology, nos anos 1990, com vídeos, livro e três CDs com regravações, entrevistas e novas músicas. Foi o mais perto que se chegou de uma volta dos Beatles, já que, além de reunir os três remanescentes, no primeiro CD foi incluída a música Free as a bird, gravada por John Lennon mas nunca lançada. Paul, George e Ringo colocaram suas vozes e instrumentos na gravação cedida por Yoko Ono e criaram uma utopia.

Paul McCartney toca em Indio, California, 2016 - Imagem: Kevin Winter/Getty Images

Talvez nem tivesse sido necessário. Separados há meio século, os Beatles continuam angariando fãs, geração após geração. Eles são, sem dúvida, o grupo de maior sucesso na história da música. Segundo estimativas, eles venderam até hoje entre 600 milhões e 1 bilhão de discos – frise-se, a banda acabou há 50 anos. E pensar que tudo isso começou em uma cidade industrial enevoada da Inglaterra, quando dois adolescentes descobriram que podiam fazer música e, quem sabe, ganhar dinheiro com isso. É como lembra Paolo Hewitt em seu livro Love me do, falando das vezes em que John ia para a casa de Paul compor:

“Quando Jim, o pai de Paul, voltava para casa, ele sacudia a cabeça bruscamente para John por não aprovar a amizade dos dois. Assim, John entendia a deixa, se levantava e ia embora. Jim dizia a Paul que se associar a tipos como aquele não o levaria a lugar nenhum. Paul sorria e mudava de assunto.  Enquanto isso, John se sentava no ponto do ônibus, fumando um cigarro e reproduzindo música dentro de sua cabeça. Era isso que John Lennon e Paul McCartney tinham entre si, um amor partilhado que atraía e cativava, um dom musical divino que os uniu – para sempre.”

O texto acima é o quinto e último da série de artigos “50 Anos do Fim dos Beatles”, publicada pelo Jornal da USP. Leia nos links abaixo os artigos anteriores.

 

Hello, goodbye – ou a saga dos Beatles, do fim ao começo

I feel fine – ou... e assim nasceu a Beatlemania

We can work it out – ou quando os rapazes se tornam homens

Don’t let me down – ou quando os Beatles subiram no telhado

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