Textos redescobertos de Mário de Andrade são reunidos em livro

Pesquisadoras da USP lançam “Aspectos do Folclore Brasileiro”, com textos antes considerados perdidos

Por - Editorias: Cultura - URL Curta: jornal.usp.br/?p=264463
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Aquarela do viajante Carlos Julião, que inspirou o ilustrador Mauricio Negro para a capa do livro Aspectos do Folclore Brasileiro, de Mário de Andrade – Foto: Reprodução

 

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Lembrete do autor sobre a publicação de O Folclore no Brasil – Crédito: Arquivo Mário de Andrade IEB/USP

O livro Aspectos do Folclore Brasileiro havia sido projetado pelo escritor paulista Mário de Andrade (1893-1945) para integrar o 13º dos 20 volumes previstos de suas Obras Completas, coleção que estava sendo publicada na época pela Editora Martins. De acordo com o plano do escritor, o livro teria três partes: “O folclore no Brasil”, “Estudos sobre o negro” e “Nótulas folclóricas”.

A morte de Mário de Andrade, em 25 de fevereiro de 1945, atrapalhou esse planejamento. Encarregada pelo escritor de selecionar os escritos etnográficos, a musicóloga Oneyda Alvarenga não conseguiu localizar os “Estudos sobre o negro”, que ficaram dados como perdidos. Convencidos de que os textos referentes a essa parte não existiam, os editores resolveram publicar, no lugar de Aspectos do Folclore Brasileiro, outra obra de Mário, Música de Feitiçaria no Brasil.

Somente agora o volume planejado por Mário de Andrade vem à luz, graças ao trabalho de pesquisadoras da USP. Nesta quarta-feira, dia 14, às 19 horas, na Biblioteca Mário de Andrade, em São Paulo, a Editora Global lança Aspectos do Folclore Brasileiro, em edição coordenada pela professora Telê Ancona Lopez, do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. O estabelecimento do texto, apresentação e notas são da pesquisadora Angela Teodoro Grillo, que atualmente faz pós-doutorado no IEB. Haverá lançamento também no dia 22 de agosto, a partir das 16h30, na Livraria João Alexandre Barbosa, na Cidade Universitária, em São Paulo.

Três dossiês

Nota de trabalho no manuscrito Preto – Instrumentos musicais das colônias africanas, copiados de Etnografia e História Tradicional dos Povos de Lunda, de Henrique Augusto Dias de Carvalho (Lisboa, Imprensa Oficial, 1890) – Crédito: Arquivo Mário de Andrade IEB/USP

Durante pesquisas no Acervo de Mário de Andrade, guardado no IEB, entre 2004 e 2006, a então doutoranda Angela Teodoro Grillo descobriu documentos que, na realidade, formam as três partes de Aspectos do Folclore Brasileiro. “Estão em três diferentes dossiês, que são O Folclore no Brasil, Preto e Anotações Folclóricas”, relata Angela, ressaltando a importância de recuperar a história de cada parte.

O dossiê O Folclore no Brasil foi produzido para o Handbook of Brazilian Studies em 1942, a convite dos coordenadores Rubens Borba de Moraes, diretor da Biblioteca Municipal de São Paulo e subeditor dos Serviços Bibliotecários da Organização das Nações Unidas (ONU), e William Berrien, professor da Universidade de Harvard e representante do American Council of Learned Societies. Angela relata que Mário de Andrade entregou a Moraes e a Berrien um texto datilografado, datado de outubro de 1942, conservando em seu arquivo a cópia carbono rasurada a tinta.

Estudos sobre o negro, a parte perdida

Manuscrito de Anotações Folclóricas (1942) – Crédito: Arquivo Mário de Andrade IEB/USP

O segundo dossiê, com o título original Preto, de acordo com evidências apontadas por Angela, corresponde à parte perdida de Aspectos do Folclore Brasileiro, intitulada “Estudos sobre o negro”. “A análise dos documentos componentes do dossiê Preto evidencia ter sido essa a escolha do escritor, ao atribuir um novo título à pesquisa de quase 20 anos sobre a presença e a contribuição do negro no Brasil e em outras partes do mundo, ali depositada”, escreve Angela na apresentação.

Segundo Angela, o novo título poderia corresponder ao propósito do autor de juntar e expandir, em um ensaio de fôlego, as cogitações expostas em três textos: uma conferência preparada para a comemoração do Cinquentenário da Abolição da Escravatura, em 1938, e os artigos “A superstição da cor preta” e “Linha de cor”, publicados, respectivamente, na revista Publicações Médias, em 1938, e no jornal O Estado de S. Paulo, em 1939. “Os três textos, além de captarem a tensão do momento em que se inserem, discutem o preconceito de cor na esfera do folclore, assunto absolutamente novo”, destaca Angela. São esses textos que formam a segunda parte de Aspectos do Folclore Brasileiro. A edição que agora é lançada pela Global, acrescenta, “conserva esse dado da história de um texto que afrontou corajosamente um preconceito, muito forte naquele momento no Brasil”.

Notas folclóricas

Já o terceiro dossiê Anotações Folclóricas, que constitui a terceira parte do livro, “Nótulas folclóricas”, reúne 19 pequenas crônicas que formam um manuscrito datado de 1942. “Trata-se de um autógrafo a tinta preta, rasuras a grafite e a tinta vermelha, ocupando 24 dos 103 fólios pautados de uma caderneta de capa preta.” Segundo a pesquisadora, esse conjunto heterogêneo é agora integralmente recuperado e aborda diferentes manifestações populares – músicas, expressões da fala brasileira, gírias, lendas e superstições.

“As três partes do livro, mesmo com as respectivas redações originalmente independentes, dispõem um conjunto coerente”, diz, concluindo que Aspectos do Folclore Brasileiro, além de concorrer para a compreensão do folclore na obra de Mário de Andrade, contribui para os estudos da questão racial no Brasil.

Bibliografia de Mário de Andrade para Estudos sobre o Negro – Crédito: Arquivo Mário de Andrade IEB/USP
O livro lançado pela Editora Global – Foto: Reprodução

Além do texto assinado por Angela, completam o livro os ensaios Mário de Andrade Folclorista, de Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti, professora titular de Antropologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e Mário de Andrade Africanista, de Lígia Fonseca Ferreira, professora do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo.

Aspectos do folclore brasileiro, de Mário de Andrade, coordenação de Telê Ancona Lopez, estabelecimento do texto, apresentação e notas de Angela Teodoro Grillo, Global Editora, 240 páginas, R$ 49,90.

O livro será lançado nesta quarta-feira, dia 14, às 19 horas, na Biblioteca Mário de Andrade (Rua da Consolação, 94, centro, em São Paulo), e no dia 22 de agosto, às 16h30, na Livraria João Alexandre Barbosa (Avenida Professor Luciano Gualberto, 78, Cidade Universitária, em São Paulo).

 

Nova biografia do escritor é lançada em São Paulo

O autor de Macunaíma ganhou uma nova biografia. Trata-se de Em Busca da Alma Brasileira – Biografia de Mário de Andrade (Sextante, 544 páginas, R$79,90), resultado de pesquisas de quase dez anos do jornalista Jason Tércio.

A obra esboça um amplo painel da vida do escritor modernista, abordando aspectos ligados à sua vida pessoal, à sua família, suas paixões e sua convivência com outros modernistas, conforme Tércio explicou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, publicada no dia 9 de agosto passado. “Recorri a diversas fontes de pesquisa, mas principalmente depoimentos deixados por pessoas muito próximas, como a poeta Oneyda Alvarenga (1911-1984), que foi uma grande amiga – ela, por exemplo, relatou o curioso detalhe de um farmacêutico ter aplicado uma injeção com ‘tônico cardíaco’, que deveria ser algum fortificante”, disse Tércio na entrevista. “São impressionantes também os momentos finais de Mário, que, mesmo com dificuldade para respirar, pediu um cigarro. Depois de algumas baforadas, sentiu outra forte fisgada no peito, contraiu o rosto, pediu que segurassem a xícara de chá e curvou o corpo para frente.”

 

 

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