Telê Ancona Lopez recebe o título de Professora Emérita do IEB

A especialista na vida e obra de Mário de Andrade e professora do Instituto de Estudos Brasileiros recebe a reconhecida homenagem da Universidade de São Paulo, onde está há mais de cinco décadas. Como o mestre Antonio Candido, ela ensina aos alunos o direito universal à literatura

Por - Editorias: Cultura
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O ensaio O direito à literatura, do crítico literário Antonio Candido, é o texto que Therezinha Apparecida Porto Ancona Lopez passa para os alunos da graduação e da pós-graduação na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP debaterem no primeiro dia de aula. Uma lição que a professora Telê, como é mais conhecida, aprendeu com o próprio autor. E faz questão de ensinar.

“Certa vez, uma aluna me disse que esse texto mudou o seu jeito de pensar. A mãe, empregada doméstica, havia lhe pedido um livro de Carlos Drummond de Andrade. E ela estranhou e disse que a mãe não entendia nada de poemas e que de nada adiantaria”, lembra Telê. “Mas quando acabou de ler que a literatura é um direito básico do ser humano, saiu correndo até a livraria.” A estudante, com certeza, foi repetindo a frase do crítico: “Ora, se ninguém pode passar 24 horas sem mergulhar no universo da ficção e da poesia, a literatura concebida no sentido amplo que me referi parece corresponder a uma necessidade universal, que precisa ser satisfeita e cuja satisfação constitui um direito”.

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Telê Ancona: há 54 anos trabalhando com a cultura brasileira – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Por essa e outras lições é que Antonio Candido, como define Telê, é “o mestre de sempre”. Orientador em seu mestrado e doutorado, de 1964 a 1970, em Teoria Literária e Literatura Comparada na FFLCH, o professor foi iluminando os caminhos na descoberta da vida, obra e ideologia de Mário de Andrade. “Depois da graduação em Letras Neolatinas pela PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, eu vim para a USP em 1962 para um curso de especialização em Literatura Brasileira e Portuguesa com o professor Antonio Candido.”

A aluna tornou-se uma especialista e trabalhava no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP quando o professor  José Aderaldo Castello, diretor do instituto entre 1966 e 1981, foi o responsável pela transferência do acervo pessoal do escritor Mário de Andrade para a unidade. As cinco décadas ensinando na graduação e pós-graduação da FFLCH e do IEB passaram sem que a professora fizesse a conta dos estudantes que orientou. Também não fez a conta do tempo coordenando inúmeros projetos sobre o arquivo Mário de Andrade e sobre as pesquisas para descobrir as múltiplas faces do protagonista do Modernismo. Tem trabalhado ainda com diversos escritores brasileiros, como Osman Lins e Antonio Calado.

É esse tempo infinito atuando pelo direito de todos à literatura que o Instituto de Estudos Brasileiros da USP homenageia no dia 25 de novembro, sexta-feira, às 17 horas. Telê Ancona Lopez recebe, na sala do Conselho Universitário, o título de Professora Emérita. “Eu me sinto muito honrada com o reconhecimento do IEB e da USP”, afirma. “Trabalhar na Universidade tem sido um mérito. Aqui, estamos sempre aprendendo. Um convívio que nos enriquece intelectualmente e como ser humano. A Universidade nos faz crescer e nos dá a alegria do espaço  da discussão, da busca e da descoberta.”

Espaço da descoberta

Paulista de Ribeirão Preto, Telê mudou-se para a capital em 1957 para cursar a graduação e foi se tornando cada vez mais paulistana. “São Paulo assegura o direito a todos de ser como são. Aqui ninguém se incomoda com a vida alheia e, ao mesmo tempo, existe uma solidariedade pontual e desinteressada”, observa a professora. “Aquilo que você dá está dado.”

Tanto a cidade como a Universidade, segundo Telê, propiciam a descoberta. “Vou muito à Sala São Paulo, à Pinacoteca do Estado, ao Instituto Tomie Ohtake, às galerias de arte. Também acompanho a programação de teatro e cinema.”

Uma vida cultural que se integra no ritmo do cotidiano da Universidade. “As pesquisas sobre Mário de Andrade são infinitas. Há muitos alunos levando suas pesquisas para o mestrado, doutorado, pós-doutorado, mas nada está pronto”, explica Telê. “E acho importante as pesquisas não se cristalizarem. Não fazemos nada em definitivo. A dúvida é sempre importante e é o que eu mais tenho cultivado.”

A professora lembra os momentos difíceis de 1968. “No dia da invasão da USP, a professora Yedda Dias Lima e eu guardamos os quadros do acervo nos armários. O campus estava cercado e tivemos medo que destruíssem.”

Daquela época, Telê destaca também a visita de cortesia de Jarbas Passarinho, ministro da Educação de 1969 a 1974, no governo Médici.  “Ele entrou e, parado diante do quadro A colona sentada, pintada em 1935 por Portinari, disse a frase: ‘Esses pés tão grandes não passam na calça de um pijama’. Os que estavam na sala riram. Eu, então, parada bem na frente dele, fiquei séria e grave, olhando o ministro nos olhos, até que ele ficasse sem graça e o riso se extinguisse.”

Um tempo difícil que o IEB, fundado em 1962 por Sérgio Buarque de Holanda, atravessou com os seus pesquisadores. “Eu tenho o privilégio de contar sempre com o apoio e o companheirismo dos alunos, pesquisadores e professores.” No instituto, o acervo e a pesquisa caminham juntos, nas áreas de artes, literatura, música, história, geografia, antropologia, sociologia e economia.

O título de Professora Emérita é o reconhecimento de uma vida trabalhando pela cultura brasileira, compartilhada com a Universidade e também com a família. “Sou casada há 51 anos com o engenheiro Marcelo Ancona Lopez. Meu filho André e minha nora, Darsilene, são professores de Ciência da Informação na Universidade de Brasília (UnB). Corujice à parte, tenho um neto de quem me orgulho muito, o Yuri, de 19 anos, que tem uma tendência para o desenho e a pintura.”

 

 

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