Simpósio traz debates sobre o passado e o futuro de Brasil e Chile

Intelectuais dos dois países se reúnem em São Paulo para discutir as perspectivas das suas regiões

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Mesa de abertura do Simpósio Relações Brasil-Chile: Cultura e Política, com André Singer, Rodrigo Baño, Maria Herminia Tavares e Fernando Henrique Cardoso – Foto Marcos Santos / USP Imagens

“O que a alma faz por seu corpo é o que o artista faz por seu povo”, disse a poetisa chilena Gabriela Mistral. Como ela, outros escritores, músicos, artistas, cineastas e intelectuais desenvolveram laços profundos que uniram o Brasil e o Chile, dois países que, mesmo não sendo vizinhos, têm estabelecido vínculos culturais desde meados do século 19 até os dias atuais.

O entrelaçamento entre pensadores brasileiros e chilenos foi o tema central do Simpósio Relações Brasil-Chile: Cultura e Política, que ocorreu nos dias 19 e 20 de agosto passados no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc, em São Paulo. Esse encontro foi uma iniciativa da USP, da Universidade do Chile e do Sesc São Paulo. Está previsto um segundo encontro, em 2020, em Santiago do Chile. Além de trazer discussões sobre os processos históricos no Brasil e no Chile, o cinema, a  literatura e crítica literária brasileira e chilena, o evento apresentou testemunhos da experiência de intelectuais brasileiros exilados no Chile na década de 1960.

Deram seus depoimentos, no primeiro dia do simpósio, o ex-presidente da República, sociólogo e professor da USP Fernando Henrique Cardoso, a professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e do Instituto de Relações Internacionais (IRI), ambos da USP, Maria Hermínia Tavares e o professor de Sociologia da Universidade do Chile Rodrigo Baño. Eles foram mediados pelo professor André Singer, do Departamento de Ciência Política da FFLCH.

A professora Alejandra Bottinelli, da Universidade do Chile – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Os intelectuais brasileiros contaram suas experiências, marcadas, principalmente, pela participação na Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) – uma das cinco comissões regionais da Organização das Nações Unidas (ONU), que estimulavam a cooperação entre os seus países e o resto do mundo, funcionando como um centro de excelência de altos estudos – e na Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), uma das várias instituições de estudos fundadas em Santiago, no Chile.

“Durante quase dez anos, do início da ditadura brasileira, em 1964, ao golpe militar chileno, em 1973, o convívio de economistas e sociólogos na sede da Cepal produziu resultados concretos, criando alternativas e novos desafios e imaginando futuros mais justos para a região latino-americana”, disse, na abertura do evento, a professora Laura Hosiasson, do Departamento de Letras Modernas da FFLCH. “O momento presente demanda, mais do que nunca, a reflexão sobre essa experiência histórica recente de real cooperação e solidariedade entre nossos países, que nos irmanaram em uma luta comum.” A professora Alejandra Bottinelli, da Universidade do Chile, lembrou que, nos anos 60, cerca de 4 mil brasileiros estavam no Chile e “participaram da veia política e cultural do país”.

Testemunhos históricos

Em razão do golpe militar de 1964, no Brasil, Fernando Henrique Cardoso foi para o Chile, a convite da Cepal. No período, como lembrou o ex-presidente, ocorreu um seminário no Instituto Latino-Americano de Planejamento Econômico e Social (Ilpes) – ligado à Cepal -, em Santiago, dando origem ao livro Dependência e Desenvolvimento na América Latina, que Cardoso escreveu em parceria com o sociólogo chileno Enzo Falleto. Nele, os dois sociólogos expõem a teoria da dependência ou teoria do desenvolvimento. “Eu e o Enzo nos metemos a escrever as formas de relações entre a periferia e o centro”, relembrou. Segundo ele, as teorias da Cepal pareciam muito abstratas, tratavam apenas de centro e periferia. “Mas, na verdade, há diferentes centros e há diferentes periferias, e como elas se ligam e evoluem? Isso é dependência e desenvolvimento, que o Enzo chamava ‘decadência e desenvolvimento’”, disse, contando que o livro, escrito em espanhol, foi fruto de muito vinho chileno. “Mais do Enzo que eu”, brincou. Esse estudo levou Fernando Henrique Cardoso a redescobrir a América Latina, e revelou para ele que o Brasil fazia parte de um universo mais amplo.

A professora da USP Maria Hermínia Tavares – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Em seu período no Chile, onde viveu até 1968, havia “convivialidade”, como ele mesmo define. “Eu assisti de perto às transformações do Chile. O adido cultural brasileiro era o Thiago de Mello, que morava numa casa do Neruda. Era um Chile bastante discutido intelectualmente e, em toda parte, havia muitos latino-americanos. Santiago era a capital política da América Latina. Quem passou pelo Chile naquela época ficou marcado para a vida inteira pelo que viu, pelo que viveu”, relatou. Passados alguns anos, nas vésperas do golpe de 1973, o ex-presidente estava de volta à Cepal, no Chile. “Vi a guerra dos caminhoneiros, mas não vi o golpe. Tinha relações com Allende (Salvador Allende, que governou o país de 1970 a 1973), e foi uma experiência bastante dramática”, recordou.

“De lá para cá, as coisas mudaram muito. Há verdades duras de serem reconhecidas. Nós temos enormes transformações nas sociedades, não só brasileiras, mas globais, e a tribalização existente é facilitada pela internet”, afirmou Cardoso. Ele lembrou que a sociedade hoje funciona em rede e há uma pulverização da própria sociedade e, ao mesmo tempo, da capacidade de as pessoas se relacionarem umas com as outras. “Novo não quer dizer melhor, mas diferente. Estamos em um mundo diferente do mundo em que fomos formados e precisamos entendê-lo intelectualmente, não ideologicamente.”

E hoje, o que se faz com esse mundo? “Está de volta o individualismo, a palavra profética é o carisma”, afirmou o ex-presidente. “Uma vez, conversando com Clinton (Bill Clinton, presidente dos Estados Unidos entre 1993 e 2001), ele dizia: ‘Cuidado, vocês estão ridicularizando o Trump (Donald Trump, atual presidente americano), mas ele está indo bem, no sentido político. Ele só fala porque acreditam nele, ele só quer aumentar a coesão’”, comentou Fernando Henrique Cardoso, e continuou: “Vejam como se comunicam presidentes como o do Brasil e o dos Estados Unidos. Não de forma discursiva, mas de forma impulsiva e que produza uma emoção rápida. É uma outra sociedade”. Atualmente, disse, as instituições internacionais perderam vigência, os países voltaram a ter mais peso e, por outro lado, volta a se ver a influência de líderes personificados. “Quanto à relação Brasil-Chile, hoje é maior e mais fácil, mais fluida, e há também uma relação política que não havia.”

O sociólogo e ex-presidente da República Fernando Henrique Cardoso – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

A capital das ciências sociais na América Latina

A professora Maria Hermínia contou no simpósio que foi para a Flacso em março de 1970, por indicação de Fernando Henrique Cardoso, permanecendo ali até novembro de 1972. Saindo de São Paulo, com uma vida cultural agitada, encontrou uma Santiago mais “acanhada”. Entretanto, era a “capital das ciências sociais na América Latina”, define, lembrando que, quando estava no Chile, havia uma grande quantidade de centros de estudos. Ela citou, por exemplo, o Ilpes e a Escolatina (Escuela de Estudios Económicos Latino-Americanos). “Era um mundo institucional muito rico e a vida girava em torno da discussão da América Latina”, recordou.

Segundo Maria Hermínia, naquele momento, em maior ou menor grau, os países estavam passando por um processo de modernização, e a Cepal mudou a forma de pensar a América Latina, mostrando que os caminhos não eram iguais para todos os países. “A teoria do desenvolvimento deu base à constituição de um pensamento original do nosso processo e sobre a constituição da nossa sociedade”, afirmou. Já a Flacso, disse, foi criada em 1957, em um momento em que as ciências sociais estavam passando por um processo de renovação, e sua marca era formar pesquisadores em ciências sociais, ou seja, alunos dominando metodologia e técnicas de análise. “As turmas eram todas formadas por estudantes vindos do exterior – os chilenos não eram maioria –, criando um ambiente muito forte de discussão.”

“Em 1973, veio o golpe no Chile, mas a Flacso continuou sendo um centro importante e foi um dos alicerces do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais, que manteve viva, de alguma maneira, durante muito tempo, essa experiência de interação entre os pesquisadores da América Latina, em momentos bem difíceis, em que praticamente todos os países estavam sob ditadura”, relatou a professora. “Quando voltei ao Chile, algum tempo depois, foi com a Flacso, do segundo período, que mantive relações intelectuais e depois de amizades”, ressalta. “O Chile me transformou em uma cientista social, e é meu segundo país, onde estabeleci relações pessoais intensas e permanentes”.

O professor chileno Rodrigo Baño – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Já o professor chileno Rodrigo Baño levou ao debate o contexto em que se deu o encontro entre brasileiros e chilenos. “Uma época muito politizada, com guerrilhas por toda parte”, disse, referindo-se aos anos 60. Para ele, Chile e Brasil têm um passado comum e também problemas comuns. “Atualmente, o problema latino-americano não é somente econômico e político, mas, principalmente, social e cultural”, destacou. “Existe um grau tremendo de corrupção. Vivemos um tempo em que tudo se compra e tudo se vende, e o único valor é o dinheiro. E, se é dinheiro o que vale, há corrupção.”

E o futuro? Quem respondeu a essa questão foi o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: “Temos que reconhecer que não sabemos, que não há respostas simples. A função do intelectual é provocar, colocar questões controversas. Por enquanto, estamos tateando”.

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Uma das sessões do Simpósio Relações Brasil-Chile: Cultura e Política, realizado nos dias 19 e 20 de agosto, em São Paulo – Foto: Marcos Santos / USP Imagens

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