Claude Monet, Catedral de Rouen, 1894 - Foto: Reprodução

Sete milhões de células sensíveis de cada ser levam às cores

Essa descoberta de Goethe está no livro Reflexões sobre a Cor, organizado pelo professor da USP Marco Giannotti

11/06/2021

Por: Atílio Avancini e Leila Kiyomura

Arte: Simone Gomes

Um livro sobre as cores. Mais um, como bem poderia imaginar o leitor. Mas não. Reflexões sobre a Cor difere das interpretações baseadas na física, na filosofia, na antropologia e na própria arte. Organizado pelo professor Marco Giannotti, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, ele reúne estudos que o Grupo de Pesquisas Cromáticas da ECA vem desenvolvendo e apresentando em seminários há 12 anos. Quando o leitor mergulhar entre os pesquisadores e artistas em diálogo com o pensar contemporâneo, irá observar um caleidoscópio com uma nova ótica.

“Embora sempre vistas como fugidias e instáveis, as cores nos ensinam que, mesmo em universos paralelos, certas experiências podem ser partilhadas e técnicas, inventadas”, observa Giannotti. “Elas precisam ser vivenciadas para adquirir sentido, e incitam modos distintos de reflexão. Mais do que uma abordagem retrospectiva, busca-se aqui situá-las no tempo presente. Menos abstrata. Mais próxima da singularidade da nossa visão e experiência.”

Giannotti destaca a chamada “doutrina das cores” do filósofo e escritor alemão Johann Wolfgang von Goethe (1749-1832), uma teoria que vai contra a defendida pelo astrônomo e físico inglês Isaac Newton (1643-1727). Goethe observou que a cor produzida na retina é processada exclusivamente “no olho e para o olho”. A cor não é originária da luz, como teorizou Newton, mas da relação direta de cada ser com os seus 7 milhões de células sensíveis, os cones, que estão localizados na área central da retina, a fóvea.

Vincent van Gogh, Café Noturno, 1888 – Foto: Reprodução                                                                                                                        Goethe retratado em viagem à Itália – pintura de Johann Heinrich Wilhelm Tischbein, 1787 – Foto: Reprodução                                                                                                                                                                                                                                                             Fonte:https://sammlung.staedelmuseum.de/en/work/goethe-in-the-roman-campagna                                                                           

O ponto de partida do livro, portanto, é a compreensão da cor como linguagem, abrindo espaço para as análises dos fenômenos cromáticos. Ao perceber a cor como manifestação fisiológica subjetiva ou fugidia, Goethe ainda inclui duas formas objetivas de manifestação: as cores físicas ou passageiras e as cores químicas ou duráveis.

Nessa linha de Goethe, consideram-se de suma importância as demonstrações do inventor e físico norte-americano Edwin Land (1909-1991) no campo das ilusões. Ou seja, “as cores não estão lá no mundo nem são um correlato automático do comprimento de onda, mas são construídas pelo cérebro”, conforme afirma Giannotti. A divergência entre Goethe e Newton vai na direção da subjetividade do escritor alemão, cuja ênfase das pesquisas concentra-se na percepção e na interpretação das cores. E é nesse caminho que o livro transita.

Aquele que olha através de uma janela nunca vê a mesma quantidade de coisas do que aquele que olha uma janela fechada.”

 

Luz e cor: Na Manhã Seguinte ao Dilúvio. Moisés Escrevendo o Livro de Gênesis, pintura de Joseph Mallord William Turner, 1843 – Foto: Reprodução

Reflexões sobre a Cor reúne diversas abordagens. Em Ícones: Um Olhar Transcendente, Maria Fernanda Riscali de Lima Moraes observa as imagens da vida litúrgica cotidiana, em especial aos olhos da Igreja Católica Ortodoxa. “Ainda com relação à cor, é importante notar o papel que a luz solar desempenha no interior das igrejas ortodoxas. Ao atravessar as janelas, faz cintilar o dourado das imagens, preenchendo a atmosfera de um brilho inefável, uma luz viva que ilumina todos aqueles que buscam sua união com o divino.”

No texto Cores Físicas, Giannotti conta que Goethe realizou seus primeiros experimentos cromáticos diante da janela. “Ele define as cores físicas na medida em que as percebemos através de meios incolores ou com o auxílio destes. Sua própria estrutura passa a ser motivo para a experimentação visual, pois, assim como uma pintura, situa-se em dois planos.”

O professor cita o teórico e flâneur da arte francesa Charles Baudelaire (1821-1867), pois as janelas fechadas revelam os segredos de sua própria superfície opaca, muito mais do que sob a luz do sol. O poeta francês dizia que “aquele que olha através de uma janela nunca vê a mesma quantidade de coisas do que aquele que olha uma janela fechada.”

Cor Luz, de Paloma Carvalho Santos, 2021 – Foto: Reprodução

                                                                                                                                                                                                                Anel simbólico dos magnetes (Symbolische annähung des magneten). guache sobre cartão, Goethe-Nationalmuseum, anônimo, 1798 – Foto: Reprodução                                                                                                                                                                                                                               

No texto Um Olhar Mais Humano, de Taís Cabral Monteiro, coordenadora científica do Grupo de Pesquisas Cromáticas, desenvolvem-se as particularidades e as inovações pictóricas de Giotto, um dos precursores do Renascimento italiano. “Muitos consideram seu conjunto de obras mais significativo a série de pinturas realizadas na Cappella degli Scrovegni de Pádua, ou Arena, por ter sido construída na área de um anfiteatro romano.” A autora vai descrevendo a forma como Giotto consegue transformar a realidade do espaço com novas camadas de arquitetura pictórica, trazendo suspensão e leveza à realidade da arquitetura do edifício.

“O século 21 traz avanços tecnológicos que permitem novas abordagens para o uso da cor na arquitetura.”

A cor presente nos espaços da cidade é abordada no artigo A Cor na Arquitetura. João Carlos de Oliveira Cesar, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, comenta que, embora pouco presente no discurso contemporâneo, a cor no projeto arquitetônico vem sendo objeto de debates e estudos entre pesquisadores, críticos e arquitetos desde Vitruvius, arquiteto romano do século 1 antes de Cristo. “O século 21 traz avanços tecnológicos que permitem novas abordagens para o uso da cor na arquitetura. Avanços não só nos materiais, mas também nas metodologias de projeto e nas formas de especificação”, observa o professor. “Desse modo, tem-se menor necessidade de manutenção, além de uma gama maior de recursos formais – e, consequentemente, cromáticos. A questão é como preparar essa nova geração de arquitetos para lidar com essas novas possibilidades, instrumentalizando-os a quebrar barreiras e criar espaços que atendam às novas demandas no que tange à cor.”

Tabuleta com estudos sobre a cor (Schirm zur farbenlehre auf holzfuss). Goethe-Nationalmuseum, anônimo – Foto: Reprodução

Em Flor, Palavra, Corpo, Pigmento, a professora Madalena Hashimoto Cordaro, da ECA, leva à sensibilidade e percepção da cor na arte, natureza, cultura e vida do Japão. Enquanto Claudio Mubarac, também professor da ECA, em seu artigo Estampa a Cores, Algumas Anotações sintetiza a história dos procedimentos de impressão em cores.

Reflexões sobre a Cor é um convite ao leitor a transitar pelo livro, iniciando pelos temas de seu interesse. De fato, a narrativa do impresso é menos linear, mais fluida e até elíptica. Há o prazer pelo contato com o suporte físico em que tudo é tátil: peso, textura, tamanho, formato e papel. Como poema visual, todo o conteúdo está articulado editorialmente: tipografia, grid, diagramação, encadernação e acabamento. A capa brinca de caleidoscópio: a depender da luz incidida, mudam-se as cores. Foi criada pelo design gráfico Raul Loureiro.

Reflexões sobre a Cor é uma edição da WMF Martins Fontes. Não tem imagens, mas os autores sugerem e descrevem, em suas 438 páginas, paisagens que se destacaram na história da arte. São 23 textos de especialistas e artistas divididos em seis partes: Cor e Olhar, Cores Físicas, Cor e Espaço, Cores Químicas, Cor e Técnica e Cor e Linguagem. A leitura desse conjunto de ensaios, segundo o organizador Marco Giannotti, permite “pensar a cor em diferentes contextos, a partir de diferentes práticas”.

As imagens selecionadas para esta página do Jornal da USP ilustraram a live de lançamento do livro, no dia 31 de maio passado, apresentada por Marco Giannotti. “Um livro que busca um panorama tão amplo sobre o fenômeno cromático sempre deixa lacunas”, reconhece o organizador. “Quando iluminamos algo, sombras sempre aparecem.”

Capa do livro Reflexões sobre a Cor – Foto: Reprodução

Reflexões sobre a Cor, de Marco Giannotti (organizador), WMF Martins Fontes, 438 páginas, R$ 89,90