Seminário virtual vai analisar obras de artistas mulheres

Promovido pelo Instituto de Estudos Brasileiros da USP, encontro acontece nesta quinta-feira, dia 17, às 15 horas

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As têmperas de Eleonore Koch, única aluna de Volpi, estão incluídas no arquivo do poeta e colecionador turco radicado no Brasil Theon Spanudius, pertencente ao acervo do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP – Foto: Reprodução

O Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP está promovendo os IEBnários, série de eventos que incluem conversas, palestras e discussões sobre temas presentes em seus arquivos. O próximo encontro da série acontece nesta quinta-feira, dia 17, às 15 horas, com o tema Mulheres Artistas: Invisibilidades e Presenças nos Arquivos e Museus Paulistanos, com transmissão ao vivo na página do IEB no Facebook, sem necessidade de inscrição. O evento se relaciona com pesquisas das historiadoras Bárbara Sesso Carneiro e Mariana Sacon Frederico e da artista visual Roberta Paredes Valin, realizadas sob orientação da professora Ana Paula Cavalcanti Simioni, no Programa de Pós-Graduação em Culturas e Identidades Brasileiras do IEB. “A iniciativa do IEB é muito bem-vinda no sentido de externalizar as pesquisas que efetuamos no âmbito do programa de pós-graduação do instituto. Essas pesquisas tendem a circular mais entre um público especializado. O evento permite um alcance maior, mais abrangente e plural”, afirma a professora Ana Paula.

No século 19, eram raros os trabalhos de mulheres artistas presentes em acervos públicos e museus, mas, segundo Ana Paula, isso foi se transformando. “Se observarmos historicamente, as presenças vão crescendo ao longo do século 20. No século 19 as presenças femininas eram raríssimas, pontuais. Já no século 20 isso aos poucos se transforma. A coleção de Mário de Andrade, por exemplo, era em sua época particularmente rica em presenças femininas (cerca de 20%). Em 2014, a Pinacoteca do Estado possuía cerca de 20% de mulheres artistas em sua coleção e o Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP atingia 28%. Parece pouco, mas, se pensarmos que o Tate, em Londres, possuía há poucos anos cerca de 3% de sua coleção assinada por mulheres, percebe-se que no Brasil a situação é até melhor do que em outros países mais ricos e centrais. É importante ainda notar que, à medida em que se avança no século 20, a presença feminina cresce. Especialmente na representação de artistas contemporâneos, a presença feminina tende a ser expressiva”, contextualiza.

Caderno de anotações da artista Anita Malfatti (1915-1929) – Foto: Reprodução/IEB

Segundo a professora, as pesquisadoras que vão participar do evento dão contribuições significativas para a história da arte brasileira. “A pesquisa de Roberta Valim é a pioneira no sentido de focalizar os cadernos de desenhos de Anita Malfatti (1889-1964) que pertencem ao IEB. Ela dá continuidade ao trabalho fundamental da historiadora da arte Marta Rosseti Batista (1940-2007), mas aprofundando aspectos não tão trabalhados por ela”, afirma. Sobre Bárbara Carneiro, Ana Paula comenta que ela iniciou sua pesquisa como estagiária no IEB, organizando o fundo do poeta e colecionador de arte turco radicado no Brasil Theon Spanudius (1915-1986). “Creio que ninguém conhece melhor essa documentação do que ela. E foi por meio dessa ‘intimidade’ com o arquivo que ela notou a quantidade de obras de mulheres que ele colecionava”, informa, apontando ainda que a pesquisa de mestrado de Bárbara tem dois méritos: “Primeiramente, dar uma inteligibilidade para esse arquivo pessoal único, complexo, desse crítico e colecionador ainda pouco estudado no Brasil, mas que legou centenas de obras para o MAC; e, depois, analisar particularmente a relação entre ele e uma das artistas, a pintora Eleonore Koch, que apenas nos últimos anos tem sido mais conhecida e valorizada. Já o mestrado de Mariana Frederico se detém em uma obra da Pinacoteca, Nicota Bayeux, “uma pintura linda e instigante feita por uma artista pouco conhecida, Nicota Bayeux (1871-1923)”, diz a professora, acrescentando que o trabalho de Mariana é o primeiro a analisar a trajetória dessa artista e a avançar em interpretações sobre essa tela.

“São três pesquisas originais, nas quais o contato com fontes primárias é central, bem como a capacidade de mobilizá-las à luz de questões teóricas e metodológicas do presente”, reforça Ana Paula. “Nos três casos atenta-se para as dimensões sociais de produção das obras, dos documentos, dos arquivos, atravessadas pelas tensões e ambiguidades das situações de gênero” (leia mais sobre as pesquisas no texto abaixo).

O IEBnário Mulheres Artistas: Invisibilidades e Presenças nos Arquivos e Museus Paulistanos acontece nesta quinta-feira, dia 17, das 15 às 17 horas, com transmissão ao vivo na página do IEB no Facebook. Os eventos são gratuitos e sem necessidade de inscrição. Mais informações neste link

 

O arquivo da artista brasileira Anita Malfatti, salvaguardado desde 1989 pelo IEB/USP, inclui cadernetas, textos, manuscritos, cartas, diplomas, catálogos de exposições,  recortes de jornais, fotografias e correspondências – Foto: Reprodução

Pesquisas ampliam visão

sobre a arte no Brasil

As três pesquisas que serão apresentadas no evento Mulheres Artistas: Invisibilidades e Presenças nos Arquivos e Museus Paulistanos, nesta quinta-feira, ampliam a visão sobre a arte no Brasil e aprofundam o conhecimento sobre a atuação de artistas mulheres brasileiras.

Exemplo disso é o trabalho da artista visual Roberta Valin sobre Anita Malfatti. Segundo Roberta, apesar de o nome de Anita ser associado ao seu pioneirismo como artista moderna, “ao nos aproximarmos de sua trajetória artística, logo percebemos que são muitas as camadas de sentido que podemos dar à sua produção e à sua atuação no campo artístico na primeira metade do século 20, as quais nos permitem um repensar e um avançar para além de seu inegável pioneirismo”. Para ela, voltar-se para o arquivo pessoal da artista, que desde 1989 se encontra no IEB, “parece uma aventura necessária para avançar sobre tais limites, um percurso para acessar as muitas Anitas que habitam em uma só”. Sua dissertação, Cadernos-Diários de Anita Malfatti: Uma Trajetória Desenhada em Paris, remonta à última viagem da artista à capital francesa, como bolsista do Pensionato Artístico de São Paulo, entre 1923 e 1928. “Colocar luz ao que chamei de seus cadernos-diários possibilitou me aproximar de uma artista para quem o desenho era tudo, como ela mesmo afirma em um bilhete que se encontra em seu arquivo pessoal”, comenta Roberta.

Coeur Meurtri (Coração Ferido), da pintora paulista Nicota Bayeux, pertencente ao acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo – Foto: Reprodução

Igualmente original é a pesquisa da historiadora Mariana Frederico, que reflete sobre aspectos da trajetória da pintora Nicota Bayeux. Apesar do nome de origem francesa, Nicota nasceu em Campinas (SP). Sua principal produção, Coeur Meurtri (Coração Ferido), pertence ao acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo. “Conheci o trabalho da artista em 2015, quando fui visitar a exposição Mulheres Artistas: as Pioneiras, em cartaz na Pinacoteca. Achei seu quadro incrível, com algumas características que não reconhecia naquela produção da época, e foi isso que me despertou curiosidade”, relembra Mariana. Na palestra, a historiadora vai trabalhar a questão da ausência de fontes de informação sobre a pintora, além de destacar a importância da pintura, uma das primeiras obras adquiridas pelo governo do Estado de São Paulo para compor o acervo da Pinacoteca. Foi com a família da artista que a historiadora encontrou vários documentos, entre eles um diário no qual fala do quadro, pintado também em Paris, além de um texto em que a artista opina sobre o papel da mulher na sociedade, que hoje seria considerado feminista, como aponta Mariana.

Já a pesquisa de Bárbara Carneiro, defendida há um ano no IEB, trata da relação entre a artista plástica Eleonore Koch com o colecionador Theon Spanudius, através da correspondência entre ambos, presentes no arquivo do IEB. “Spanudius foi um imigrante da Grécia, onde cresceu, com formação em psicanálise na Áustria, que veio para o Brasil em 1950, atuando primeiro como psicanalista, mas que acabou se dedicando às artes. Ele acumulou uma coleção de arte moderna que foi doada antes de sua morte ao MAC, com nomes representativos como Mira Schendel e Alfredo Volpi”, informa. Além disso, diz, nessa coleção estavam as sete têmperas de Eleonore Koch, única aluna de Volpi. Bárbara analisa essa relação sob o ponto de vista da sociologia da arte. “A artista ficou bastante escondida. Por muito tempo ficou à sombra de Volpi e de Spanudius e ainda hoje é difícil encontrar um texto que não exalte a relação da artista com eles”, afirma. “A artista morreu em 2018, mas só agora está sendo mais estudada. De qualquer forma, pouco se olha para a obra dela”, constata Bárbara. “Há ainda um grande material para ser tratado acerca dessa artista. É preciso ver as particularidades das têmperas e recuperar essa biografia.”

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