Seminário discute as várias faces de Mário de Andrade

Encontro em São Paulo vai prestar homenagem à maior pesquisadora do escritor modernista, Telê Ancona Lopez

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Mário de Andrade, Candido Portinari e Oscar Simon em 1941 – Foto: Hart Preston

“Espero que se reconheça nesses aspectos não o propósito de distribuir, que considero mesquinho na arte da crítica, mas o esforço apaixonado de amar e compreender”, diz Mário de Andrade, referindo-se ao seu livro Aspectos da Literatura Brasileira. É justamente nesses aspectos que o Seminário Mário de Andrade: Amar e Compreender se inspira para debater a vida e a obra do poeta e escritor modernista, além de homenagear sua principal pesquisadora, Telê Ancona Lopez, Professora Emérita do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.

O seminário foi pensado pelo Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc, em São Paulo. “A ideia de abrir o semestre no CPF com esse evento surge como um respiro justamente no difícil momento em que nos questionamos sobre o futuro das políticas culturais”, afirma Flávia Prando, pesquisadora da unidade. Segundo ela, Mário de Andrade permeia a instituição nos mais diversos modos de pensar e fazer. “Sua concepção transversal e multifacetada de cultura norteia nossas pesquisas e programações.”

De acordo com Flávia, a ideia de homenagear a professora Telê surgiu junto com a do seminário. “Trata-se de uma oportunidade justíssima, já que foi sob sua orientação que muitas obras de Mário de Andrade tomaram forma e chegaram até nós, e ainda há muito por vir”, conta ela. Para a pesquisadora, Telê é uma inspiração no esforço de compreender a complexidade do pensamento andradiano, que, por sua vez, é uma tentativa de assimilar nossa própria condição como brasileiros.

“Nesse sentido, elencamos professores, pesquisadores e profissionais para não só debater algumas vertentes e pensamentos do poeta, mas sobretudo para homenagear a professora Telê”, afirma Flávia. Entre os palestrantes estarão Flavia Toni, vice-diretora do IEB, e Carlos Augusto Calil, professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. O seminário acontece entre os dias 18 e 20 de fevereiro, das 14h às 21h, e as mesas debatem assuntos que vão desde gestão pública da cultura até formação das nacionalidades latino-americanas. 

Outra mesa destacada por Flávia é Mário de Andrade folclorista e africanista, que teve como inspiração o livro lançado recentemente pela Editora Global, Aspectos do Folclore Brasileiro. A obra é resultado da pesquisa de Angela Grillo, sob coordenação de Telê Ancona Lopez, e destaca o posicionamento de Mário de Andrade sobre o negro no Brasil. “Esses escritos colocam Mário muito afinado com as discussões que nos são contemporâneas. Ele já questiona a ‘democracia racial’, antecipando esse debate no mínimo em três décadas”, conta ela. 

Ainda de acordo com a pesquisadora, o seminário apresenta diversas facetas do modernista, algumas nunca antes vistas, como as reflexões de Mário quanto à sua condição de mestiço. “Escolhemos, assim, abordar alguns aspectos do poeta: o gestor, o africanista, o folclorista e o construtor de brasilidades, envolvido em diferentes projetos nacionais e com pares latino-americanos, na tentativa de compreender aqueles que, como nós, nas palavras do modernista, possuem em comum ‘uma cultura importada’.”

A pesquisadora Telê Ancona Lopez, Professora Emérita do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP – Foto: Marcos Santos / Jornal da USP

Telê Ancona Lopez

É seguro dizer que Therezinha Apparecida Ancona Lopez, a Telê, aos 82 anos, já passou mais da metade de sua vida estudando e trabalhando sobre a obra de Mário de Andrade. “Meu trabalho em torno do modernista data de 1963, quando Antonio Candido de Mello e Souza inicia, na universidade brasileira, o estudo das bibliotecas de escritores”, afirma Telê. Segundo ela, o projeto teve como objetivo encontrar as obras menos conhecidas de Andrade, a fim de tentar compreender de modo mais completo o trabalho do autor. 

Depois disso, não parou mais. Em 1968, prestou concurso para o IEB e virou pesquisadora da USP. Sua nomeação, no entanto, só saiu em meados do ano seguinte, devido aos problemas que a ditadura civil-militar impunha à Universidade na época. “Foi, para mim, um privilégio organizar o arquivo do Multimário, parcela do acervo que engloba também parte da biblioteca e da coleção de artes.”

Atualmente, além de continuar com seu trabalho no IEB, a pesquisadora planeja terminar alguns projetos mais pessoais. “Encerrada minha lide de orientadora acadêmica no IEB e na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, pretendo inclinar-me para a elaboração de edições fidedignas anotadas da obra de Mário de Andrade”, conta ela. É o caso de Traje de Arlequim, sua biografia do modernista, uma nova edição de Macunaíma, em parceria com Tatiana Figueiredo, e uma edição de Crônicas de Malazarte.

O Seminário Mário de Andrade: Amar e Compreender acontece de 18 a 20 de fevereiro, das 14h às 21h, no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do Sesc (Rua Dr. Plínio Barreto, 285, 4º andar, Bela Vista, em São Paulo). A entrada custa R$ 50,00. Credenciados no Sesc e dependentes pagam R$ 15,00. As inscrições devem ser feitas no site do Sesc.

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