Rouanet discute na USP as relações entre arte e universidade

Em eventos da Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência, o ex-ministro da Cultura debateu temas como a produção artística na academia, a cultura “pós-aurática” de Walter Benjamin e as fronteiras das ciências

Por - Editorias: Cultura
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Grossmann, Mano, Garbelotti, Rouanet, Maciel, Basbaum e Giannotti - Foto Marcos Santos/USP Imagens
Grossmann, Mano, Garbelotti, Rouanet, Maciel, Basbaum e Giannotti no encontro do ex-ministro com artistas e acadêmicos – Foto Marcos Santos/USP Imagens

“O objetivo da arte não é promover a conciliação de opostos, fazer sínteses verdadeiras ou falsas, mas sim libertar o homem de suas certezas. A arte tem que ser chata no sentido de incomodar.” Foi o que disse o titular da Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP, o diplomata, filósofo, professor e ex-ministro da Cultura Sérgio Paulo Rouanet, durante encontro com artistas e acadêmicos realizado no dia 15 de agosto, de manhã, na Sala de Eventos do IEA, na Cidade Universitária. O ex-ministro ainda fez palestras na USP na tarde do dia 15 e no dia 17, além de participar do lançamento do livro  Rouanet 80 Anos – Democracia, modernidade, psicanálise e literatura, da Editora É Realizações, no dia 15, na Livraria Cultura, em São Paulo.

Ricardo Roclaw Basbaum - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Ricardo Basbaum – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

No encontro realizado na manhã do dia 15, Rouanet mais ouviu os artistas e acadêmicos presentes, que abordaram diversos aspectos da relação entre arte e universidade. A professora Raquel Garbelotti, artista e docente da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), afirmou que “o saber sobre arte oferecido nas universidades não forma um artista”, enquanto Ricardo Basbaum, da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (EERJ), defendeu a necessidade de a universidade enxergar o artista como um “intelectual livre”, que transita entre a sociedade – para ele, “o lugar da arte, pois a obra de arte precisa de recepção” – e o meio universitário. Ele questionou se o conhecimento produzido pelo “artista pesquisador” não deveria também ser considerado obra de arte. Fazendo a mediação do encontro, o professor Martin Grossmann, coordenador da Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência, acrescentou que “a universidade vê o artista dentro de suas especialidades (músico, pintor, escultor), e não como intelectual, ignorando que as artes são uma área de conhecimento, não só de produção estética”. Nessa linha, o artista Rubens Mano, de São Paulo, pediu por equivalência, “uma visão mais simétrica do artista em relação aos demais membros da academia”.

Katia Valéria Maciel Toledo - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Katia Valéria Maciel Toledo – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A artista e cineasta Katia Maciel, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), destacou a arte como “uma maravilhosa pista de deslocamento para a universidade”. Para ela, o artista busca abrigo no meio universitário, num movimento de profissionalização e procura de um lugar para exercer sua arte. Marco Giannotti, artista e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, foi além, afirmando que durante muito tempo a universidade foi vista como um lugar de alienação artística. “O lugar do artista era no mercado”. Segundo ele, essa tensão ainda existe no Brasil. “Aqui, ao ser professor, o sujeito deixa de ser visto como artista e, ao ser artista, deixa de ser professor, ao contrário do que ocorre, por exemplo, na Alemanha ou nos Estados Unidos, onde muitas vezes o artista tem seu ápice produtivo quando é convidado para a universidade.”

A cultura pós-aurática

Jeanne de Bons, Cremilda Medina, Sergio Rouanet, Barbara Rouanet e Stefam Wilhelm Bolle - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Jeanne de Bons, Cremilda Medina, Sérgio Rouanet, Barbara Freitag e Willi Bolle – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Na tarde do dia 15, foi a vez de Rouanet falar sobre arte. Na conferência intitulada Prazer Desinteressado da Arte? De Kant à Cultura Pós-Aurática de Walter Benjamin, proferida na antiga Sala do Conselho Universitário, no Prédio da Administração Central, o ex-ministro discutiu a arte e a modernidade sob as concepções dos filósofos alemães Immanuel Kant (1724-1804) e Walter Benjamin (1892-1940). Na mesa de debates estavam presentes os professores Willi Bolle, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Cremilda Medina, da ECA, e Jeanne Marie Gagnebin, da Unicamp.

Barbara Freitag Rouanet - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Barbara Freitag – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Antes da conferência de Rouanet, a socióloga Barbara Freitag explicou o conceito do prazer desinteressado da arte, colocado por Kant em sua reflexão estética da obra de arte feita em Crítica do Juízo. Segundo Barbara, a ideia de que o apreciador da arte o faz por sua simples e inexplicável beleza, por se tratar de algo sublime, assim como faz ao ver uma bela paisagem ou o pôr-do-sol, sem qualquer interesse ou objetivo prático, é o que o filósofo alemão chama de “prazer desinteressado”. Além disso, a socióloga ressaltou a qualidade dada por Kant à arte e aos artistas: “Para Kant, sequer se poderia ensinar arte na universidade, pois não se ensina nem se aprende a ser artista. O artista é um gênio, ele nasce um gênio e ele nasce artista”.

Em seguida, Rouanet deu início à sua exposição sobre a aura da obra de arte teorizada por Walter Benjamin. Em seu ensaio A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica, Benjamin escreve sobre a “aura” que envolve uma obra de arte, consistindo em seu caráter único, autêntico e eterno, aproximando-a de um objeto de culto e contemplação. No capitalismo, com o avanço da tecnologia, passou a ser possível uma reprodutibilidade cada vez maior das obras de arte, o que para Benjamin configura a perda dessa “essência aurática” e o desgaste da relações ritualísticas do indivíduo com a obra. “A obra de arte é cada vez mais produzida para ser reproduzida, perdendo sua aura, sua unicidade, e a função ritual do fazer artístico se perde e é substituída por outra práxis: a política”, explicou Rouanet.

Jeanne Marie Gagnbin de Bons - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Jeanne Marie Gagnebin de Bons – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Partindo daí, Rouanet faz um paralelo entre as concepções da modernidade de Benjamin e do sociólogo alemão Max Weber (1864-1920). Segundo ele, a perda da “aura” e do culto à obra de arte apontada por Benjamin se relaciona com a ideia do desencantamento do mundo de Weber.

Segundo o sociólogo alemão, o desenvolvimento da ciência tomou da realidade seus elementos mágicos e, em última análise, a expurgou de seu sentido último. Assim, em busca daqueles elementos míticos, o indivíduo fica à mercê da religião, abdicando de seu intelecto. Embora esse desencantamento tenha relações com o pensamento de Benjamin, Rouanet acredita que a perspectiva do filósofo não é pessimista como a weberiana. “Para Benjamin, o desencantamento não é sinônimo de perda de sentido, não se trata de recusar o sonho em  nome da realidade, mas sim de renunciar a uma realidade dominada pelo mito; não é aceitar o destino, como acreditava Weber, mas desafiá-lo”, argumentou.

Reforçando essa visão mais “otimista” de Benjamin esboçada por Rouanet, a professora Jeanne Marie Gagnebin ressaltou uma “exigência em Benjamin de uma racionalidade criadora, alegre, experimental, que só é possível através do que há de lúdico na arte, saindo do inferno da racionalidade capitalista e dos domínios do mito e da religião”. Sobre esse “inferno” e a produção e reprodução em massa, o professor Willi Bolle afirmou que “é da essência do capitalismo produzir sistematicamente o novo”, que logo se torna arcaico em sua constante repetição.

Cremilda Celeste de Araujo Medina - Foto Marcos Santos/USP Imagens
Cremilda Medina – Foto Marcos Santos/USP Imagens

A professora Cremilda Medina fechou o debate com alguns questionamentos à teoria da indústria cultural da chamada Escola de Frankfurt, vanguarda intelectual da qual Walter Benjamin fez parte. Ela afirmou que “‘massa’ é um conceito em busca do empírico, do seu objeto, e ainda não o encontrou e que “a indústria cultural não é um fenômeno que pode ser estudado sob um determinismo econômico”. Depois disso, terminou com homenagens e reconhecimento a Rouanet: “Benjamin e Rouanet tratam do conceito da aura sem concluir com uma explicação fechada, deixando espaço para discussões, o que é fundamental”.

As fronteiras da ciência

Paulo Alberto Nussenzveig, Leticia Veras, Costa Lotufo, Eugênio Bucci, Sérgio Paulo Rouanet, Luiz Carlos Bresser-Pereira e Manuela Carneiro da Cunha - Foto Marcos Santos/USP Imagens
Paulo Alberto Nussenzveig, Leticia Veras, Costa Lotufo, Eugênio Bucci, Sérgio Paulo Rouanet, Luiz Carlos Bresser-Pereira e Manuela Carneiro da Cunha – Foto Marcos Santos/USP Imagens

Apesar da importância da preservação das diferentes culturas e costumes, é preciso haver uma flexibilização nessa área, defendeu o ex-ministro da Cultura Sérgio Paulo Rouanet, na palestra A ciência e suas fronteiras, proferida no dia 17 de agosto, no IEA. “Deve-se acabar com a intolerância da ciência em relação ao saber tradicional, mas os representantes dessa cultura devem também deixar de lado a resistência ao saber científico, que também é uma cultura. Num exemplo radical, não acho admissível, sob uma perspectiva de preservar uma cultura, aceitar a continuidade de práticas como a mutilação clitoriana”, afirmou o ex-ministro.

Rouanet discutiu as fronteiras internas das ciências, as fronteiras da ciência com a religião, a moral e a política e o impacto das fronteiras nacionais e culturais na ciência. Com isso, como destacou Rouanet, ele pôde analisar o tema que faltava em relação aos que são propostos pela Cátedra Olavo Setúbal de Arte, Cultura e Ciência. “Na segunda-feira falamos sobre arte e cultura, e agora tratamos sobre a ciência, as ciências duras e as ciências humanas e suas fronteiras e diferenças.”

Estavam presentes na palestras os professores Luiz Carlos Bresser-Pereira, da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo, Eugênio Bucci, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Manuela Carneiro da Cunha, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e da Universidade de Chicago, nos Estados Unidos, Paulo Alberto Nussenzveig, do Instituto de Física da USP, e Leticia Veras Costa Lotufo, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP.

As palestras proferidas pelo ex-ministro Sérgio Paulo Rouanet nos dias 15 e 17, na USP, estarão disponíveis em breve no site do IEA (www.iea.usp.br)

 

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